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domingo, 16 de fevereiro de 2020

Conceição Oliveira


Igrejas do Carmo São Bento Congregados
Onde mulheres gastas cor das pedras
Crianças velhas por viver de olhos maiores que a barriga
Meninas mulheres cheias de barriga até aos dentes
Cheias até à ponta dos cabelos incertos
Cheias de fome e de filhos com fome
Vendiam atacadores pentes esticadores pós colarinhos
Ó qrida lebeme um raminho de bioletas
Por alminha de quem lá tem quinda num me estriei
Quem quer esticadores pós colarinhos quem quer
Com os seus pregões feitos gemidos quem quer
Quem quer e ninguém queria

Tim Tim Tim Tim
Havia o carro eléctrico Tim Tim
Era amarelo amarelinho Tim Tim
Banco de palhinha e era amarelinho Tim Tim
Srs passageiros chegar à frente por favor Tim Tim
E eram encontrões apalpões olha o filho da
Que me apalpou o cu era bom ir até ao mar
E o mar lá estava e já lá estava o mar Tim Tim
Era tão bom ir até lá longe até à Foz ver o mar
O mar enrola na areia
Ninguém sabe o que ele diz
Bate na areia e desmaia
Porque se sente feliz

Palácio de Cristal agora feito um espremedor
Ir lá era dia de festa os cisnes no lago
Flores e um pobre macaco pássaros coloridos
Comer a língua da sogra barquilhos
Um sorvete de dois tostões do feitio do meu sonho
A fava rica camarinhas tremoços pinhões enfiados
Pirolitos e com a bolinha jogava ao berlinde
Sou primas sou sigas sou trigas

Mas o mais difícil é falar da minha Rua
Por pudor por receio de os chocar
Reconhecem-me lá
Reconhecem-me lá na minha rua prisão
Rua sem calor nas almas feitas de pedra
Rua de ódios de raiva funda calcada
Rua fria rua feia rua sombria
Rua das vidas mal vividas
Olhem-me bem de frente
Reconhecem-me lá
Rua dos obscuros sentidos
Rua suja dos bêbados pelos cantos
Rua sempre molhada escorregadia
Rua da cadeia das cadeias sem elos
Rua de pouca gente boa sem história
Rua do amor alugado no vão de uma escada
Rua do amor oferecido nos sexos apodrecidos
Rua do desamor rua do ciúme
Rua dos mendigos esperando as sopas
Rua das esperas nas esquinas
Rua dos cães sem dono e sem coleira
Sou o que resta dessa rua sem sol
Da casa sem janelas sem nada
A minha rua era assim

Aurora Gaia

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Conceição Oliveira



É TARDE, MUITO TARDE DA NOITE

É tarde, muito tarde da noite,
trabalhei hoje muito, tive de sair, falei com vária gente,
voltei, ouço musica, estou terrivelmente cansado.
Exactamente terrivelmente com a sua banalidade
é o que pode dar a medida do meu cansaço.
Como estou cansado. De Ter trabalhado muito,
ter feito um grande esforço para depois
interessar-me por outras pessoas
quando estou cansado demais para me interessarem as pessoas.

É tarde, devia Ter-me deitado mais cedo,
há muito que devera estar a dormir.
Mas estou acordado com o meu cansaço
e a ouvir música. Desfeito de cansaço
incapaz de pensar, incapaz de olhar,
totalmente incapaz até de repousar á força de
cansaço. Um cansaço terrível
da vida, das pessoas, de mim, de tudo.
E fumo cigarro após cigarro no desespero
de estar tão cansado. E ouço música
(por sinal a sonata para violino e piano
de César Franck, e depois os Wesendonck Lieder)
num puro cansaço de dissolver-me
como Brunhilda ou como Isolda
no que não aceitarei nunca
l amor che muove il sole e l altre stelle.
Nada há de comum entre esse amor de que estou cansado,
e o outro que não ama, apenas queima e passa , e de cuja
dissolução no espaço e no tempo em que vivo
estou mais cansado ainda. Dissolvam-se essas damas
que eram princesas ou valquírias, se preferem, no eterno.
Eu estou cansado de não me dissolver
continuamente em cada instante da vida,
ou das pessoas, ou de mim, ou de tudo.
Qu ai-je á faire de l eternel? I live here.
Non abbiamo confusion. E aqui é que
morrerei danado de cansaço, como hoje estou
tão terrivelmente cansado.

(Jorge de Sena)

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

E SEMPRE O OUTONO...



E SEMPRE O OUTONO...

Corre pelo vácuo
o fogo.

E sobe sempre
sempre
sempre
no alinhamento da liberdade
onde se extingue...

Gosto de contemplar
e relaxar
ao som da chama.

É a mesma chama que arde em cada outono
precoce
em cada tronco desnudo
quando as sombras se diluem nuas
paredes acima
alisando fuligem
amaciando espíritos
grudados na chaminé. Impávida...

O fogo impede as palavras
retidas na boca seca
ilumina os rostos
que escutam o crepitar de pinhas incendiadas
a cada suspiro.

O vinho completa o cenário.
As mãos tocam-se.

E as bocas aguardam o erguer de taças.

Conceição Oliveira
in “Palavral de Cristal - Colectânea de Poesia Volume V”

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Poesia na Galeria Novembro 2019

 Fernanda Santos
 Maria Afonso Morais
 Dina Magalhães
 António Monteiro
 Adolfo Castelbranco
 Pompeu Pais
 Conceição Oliveira
 César Carvalho
 José Lacerda Megre
 Helena Duarte
 João Bernardo

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O que me dói não É saber que o mundo arde...



O que me dói não É saber que o mundo arde...
(A Fernando Pessoa)
I
O que me dói não é saber que o mundo arde
nem tão pouco quantas árvores perecerão
ou quais as casas que não mais se reconstruirão

O que me dói (justamente) é ver e saber
de vidas interrompidas pela morte certeira
da incúria assassina de quem nos quer comer.

Do capital que move a desgraça
e não sabe que as crianças são o melhor do mundo
mastigadas entre fogo e fumaça...

O que me dói (claramente) é o fingimento
as lágrimas doiradas de crocodilos a soldo
que nunca terão sentimento.

São os sentimentos que mais nos queimam.

Conceição Oliveira
in “Sob Epígrafe”
Tributo a Fernando Pessoa no ano em que se assinalam os 130 anos sobre o seu nascimento

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Poesia na Galeria Setembro 2019

 António Monteiro
 Manuel Maia
 Acilda Almeida
 Conceição Oliveira
 Fernanda Cardoso
 Manuela Caldeira
 Dina Magalhães
 Paraty
 Alice Santos
 Vitor Cordeiro
 Serigrafia de Avelino Rocha para sorteio
 Acilda Almeida retira o número sorteado
 Fernanda Santos a sorteada da sessão
 Fátima Ferreira, Manuela Caldeira, Maria Afonso Morais, Helena Duarte, 
Fernanda Santos e Acilda Almeida
Fernanda Cardoso e Maria de Lourdes Ferreira

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

I



I
"Esta é a madrugada que eu esperava...”
Sophia de Mello Breyner Andresen

Chegou sim,
A madrugada, chegou,
E de tão ansiada perdeu a voz,
Mas não a vez!

Silenciosa, como cúmplices e mudos, os ventos,
Peregrinou em direção à ponte
Para atravessar um rio quieto,

Horas mortas,
Nem poeiras,
Neblinas ou medos,
Pairaram sobre a determinação.

Quem não arrisca...
Diz o povo que é sábio.

Determinação superior à coragem
E a vontade de mudança sussurrando baixinho — é preciso
caminhar.

Fugir dos silêncios, quebrar amarras e medos
e ossos se for caso disso.

A urgência de um Tempo Novo.

Conceição Oliveira
in “Sob epigrafe - tributo a Sophia de Mello Breyner Andresen”

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Poesia na Galeria 20-07-2019

 Fernanda Cardoso
 Maria de Lourdes Ferreira
 Alzira Santos
 Alice Branco
 José Faria
 Jorge Carvalho
 Jorge Carvalho
 Arnaldo Teixeira Santos
 Adelina Gomes
 Conceição Oliveira
 Helena Maria Simões Duarte
Adolfo Castelbranco

terça-feira, 25 de junho de 2019

Vazante



Vazante

Um ruído ensurdecedor, pleno e distante.
Escuto o marulhar das ondas em transversalidades impiedosas e cortantes.
Há um chocalhar diferente nas pedras que arrastam búzios e conchas. Debruço-me no foco de luz esfuziante que incendeia a via láctea projetando no mar aquela madrugada. Observo o luar. Recuo do brilho que me fere o olhar.
Da lua, grávida e dependurada, saem rasgos incandescentes que penetram as águas profundas. E um turbilhão de pedras chocalha forte na muralha empedernida! Trouxe com ela a serra granítica. A mica, enamorada, esventra o quartzo para evidenciar seu brilho. O feldspato sorri cúmplice. Não há noite.
O dia prolongou-se no rasto endémico daquela lua cheia e brilhante.
Nos olhos das sereias e dos navegantes solitários cresce o doer da claridade toda. Amanhã não haverá dia porque a maré, cheia e viva, completará o ciclo. A lua exibe-se inteira, empoleirada num círculo de prata. E canta, clareada a noite...
É a vazante decidida que parte para outro hemisfério.
Partiremos juntas.

Conceição Oliveira
in “Da Raiz”

quarta-feira, 19 de junho de 2019