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sexta-feira, 22 de março de 2019

O AMOR, MEU AMOR



O AMOR, MEU AMOR

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto
in "Cidades cidades divindades"
Lido por Beatriz Maia

terça-feira, 19 de março de 2019

Poesia na Galeria 16-03-2019

 Maria Afonso Morais
 Maria Augusta da Silva Neves
 Mário Anselmo
 Beatriz Maia
 Carlos Gomes
 José Faria
 Dina Magalhães
 Maria Teresa Lopes
João Pessanha
 Angelino Santos Silva
 Armando Pereira

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

OS SONHOS



OS SONHOS

Podem roubar-me tudo
Mas os sonhos esses não
Que as pessoas com quem sonho
e os corpos com que me deito
são só meus por condição

Na metafísica da cama
onde em sonhos me detenho
são minhas as mãos que afago
os lábios que sugo e mordo
e os sexos onde me venho

A fluidez dos fantasmas
que me deslizam nos dedos
são meus na noite calada
Como são meus os desejos
vestindo os corpos de beijos
no céu da minha almofada

Podem roubar-me as palavras
as roupas, o pensamento
e arrancar-me o coração
Podem negar-me o que queiram
e até roubarem-me a vida
Mas os sonhos, esses não

Fernando Campos Castro
in “Inquietudes e outras atitudes”
Lido por Beatriz Maia

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Poesia na Galeria Fev 2019

 Maria Augusta da Silva Neves
 Helena Duarte
 António D. Lima
 Maria Adelina Gomes
 Maria Teresa Nicho
 Celso Miranda
 Beatriz Maia
 Carlos Gomes
 Artur Barrios
 João Pessanha
 José Faria
 José Guterres

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

NUMA IDADE DE PORQUÊS



NUMA IDADE DE PORQUÊS

– Mãe,
gosto que me vistas o pijama perto dos olhos.
Assim, podemos conversar mais baixinho.
Mesmo que fales muito baixinho,
percebo o que dizes;
mesmo que eu fale muito baixinho,
percebes o que eu digo.

– Gostas que te vista o pijama em cima da cama.
É para termos os nossos olhos mais perto?,
pergunta a mãe, colando testa e nariz
na testa e nariz do menino, que responde que sim.

– Mãe, de que lado fica o coração?,
pergunta o filho.
Do lado esquerdo, filho!,
responde a mãe.

O filho levanta uma mão, e pergunta:
– É esta é a minha mão esquerda, certo?
– Sim.
– Levanta a tua mão esquerda, mãe.

Ele, de pé, em cima da cama,
e ela, de pé, junto à cama, diante dele;
ele olha a sua mão esquerda
e a mão esquerda da mãe;
ela, apenas o observa, não reage, aguarda.

– Mãe, posso encostar o meu coração ao teu?
– Filho, o meu coração e o teu estão sempre juntos.
– (…)
– Estarão sempre juntos.
– Dás-me um abraço, mãe?

A mãe abraça o menino.
– Vês como estamos juntos, filho?
– Mas o meu lado esquerdo não se encostou ao teu.

A mãe, evitando o choro, afasta-se e vira-se de costas.
– Encosta o teu coração ao meu.
– Porque é que a saudade dói, mãe?
Porque é que chorar faz bem?

O filho junta o peito às costas da mãe, e abraça-a.
– Dói muito, mãe.
– (…)
– Porque é que as pessoas morrem?
– Para olharem por nós.
– Preferia tê-lo aqui comigo,
que ele corresse comigo às cavalitas.
Sabes o que o coração do pai fazia
quando corria comigo às cavalitas?
Bum, bum, bum! Com muita força!
Depois, ele ia para junto de um muro
para que eu saísse, mas eu só saía
quando o coração dele batia mais devagar.
Ele dizia que o meu coração acalmava o dele.
Acho que era por estarem encostados.
Mãe…
– Sim?

– Podes chorar, que eu não vejo.
O meu coração só se desencosta do teu
quando chorares tudo.
Ouvi dizer que chorar faz bem;
não sei porquê;
amo-te.

Sérgio Lizardo
in "A pele daquilo que somos"
Beatriz Maia

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Poesia na Galeria 17-11-2018

 António Monteiro
 Fernanda Santos
 Angelino Santos Silva

 Marília Teixeira
 João Pessanha
 Beatriz Maia
 Ana Paula Dória
 Artur Cardoso
 Fátima Cardoso

 Fátima Cardoso
 Maria Teresa Lopes
Graça Silva

sábado, 27 de outubro de 2018

NÃO POSSO ADIAR O AMOR



NÃO POSSO ADIAR O AMOR

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa
in "Viagem Através de uma Nebulosa”
lido por Beatriz Maia

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Poesia na Galeria Outubro 2018

 Regina Bacelar
 António Monteiro
 José Faria

 Maria Teresa Nicho
 Guida Dias
João Pessanha
 Adolfo Castelbranco
 Helena Duarte
 Angelino Santos Silva
 Céu Guedes
 Fernanda Rosas
 Beatriz Maia
 Carlos Gomes