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sábado, 9 de maio de 2020

Manuela Caldeira



25 ABRIL 2020

Meu canto. Uma guitarra portuguesa.
Dedilhada no sangue até doer.
Doze cordas de mágoa e de tristeza.
E a pátria toda inteira por haver.

Por ela ergo a pena. E não me rendo.
E não me calo. E solto os meus cavalos
que a trote ou a galope vão correndo
sem que nada ou ninguém possa amarrá-los.

E vingo a minha rosa. A minha espada.
O poeta não dorme quando há tanto
desengano na pátria amordaçada.

Não é a doce voz. Não é o pranto.
Nem flor de verde pinho desbotada.
A luta do meu povo é o meu canto.

JOAQUIM PESSOA,

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Manuela Caldeira

O puxador da porta da cozinha

O puxador da porta da cozinha está estragado
faz um mês. Não passa dia sem que peças
que conserte o puxador
não concebes ser possível eu
sempre ter tido engenho para estas coisas da casa e
ainda não ter tido tempo para compor
o puxador. Mas
não se trata de nada disso. Já
o teria composto (se o
quisesse arranjar
teria arranjado tempo
não me ia custar mesmo nada. Mas
depois ia haver que alfinete encravado na rotina?
Como não estranhar a absurda
ausência da avaria?
Deixa-o
ficar assim. Deixa-o andar assim
(ternamente avariado).
Cada dia pela manhã
Quando passares à cozinha
(calculo que por
entre as sete
sete e um quarto sete e meia
e ficares com o
puxador da porta da cozinha na mão
tua voz regressará ao
exaustivo pedido
(ao alívio confortante de essa ser
nossa alegria) e
eu sentir-me-ei feliz por
ainda te ter por perto
por me
fazeres companhia.


João Luís Barreto Guimarães, O Tempo Avança Por Sílabas

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

O velho vendedor desta tarde


"O velho vendedor desta tarde, ali à esquina da rua, lembrou-me outro, lá longe, no passado de uma cidade diferente, esse diluído não só em tempo ou em bruma mas também num fumo aromático que não aquecia, fumo frio, talvez, e que atravessava ossos porosos que existiam, que estavam ali dentro de mim, um pouco arrepiados também. Eu passava todos os dias pelo homem, que usava boina e samarra, talvez fosse espanhol, já não me lembro, e detinha-me sempre para comprar o eterno cartucho de castanhas, que logo metia, em partes iguais, nos bolsos já largueirões do casaco, deixando ficar as mãos naquele leve, apesar disso reconfortante calor. Cá fora havia nevoeiro, ou então um espesso teto de nuvens baças separava-nos da estrela da vida, que desaparecera do nosso convívio há muito tempo. E eu, mesmo sem querer, mesmo pensando que isso era impossível, não a imaginava lá em cima mas muito longe, para o sul, aquecendo e iluminando a minha terra. Fazia o resto do percurso devagar, ia aproveitando aquela sensação tão doce. Quando chegava ao hotel tinha as mãos enfarruscadas e as castanhas estavam quase frias, mas paciência, comia-as mesmo assim. Hoje, aqui, não comprei castanhas ao velho vendedor. Hoje, aqui, não quero sujar as mãos e, de resto, o casaco não tem bolsos. Hoje, aqui, ainda não faz frio e o Sol é sedentário e amigo, mora lá em cima, nunca anda muito tempo a viajar. Ou brilha ou brilhou ou vai brilhar um dia destes, talvez amanhã. O fumo também nunca chega a ser névoa e as castanhas têm outro sabor. Nem melhor nem pior. Um sabor diferente."

Maria Judite de Carvalho
Lido por Manuela Caldeira

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Poesia na Galeria 16 Novembro 2019

 Irene Costa
 Alzira Santos
 José Oliveira Ribeiro
 Manuela Caldeira

 Alice Santos
 Ângela Loureiro
 Gravura de Avelino Rocha para sorteio
 João Pessanha, o sorteado da sessão, canta-nos uma canção para terminar




terça-feira, 29 de outubro de 2019

REGRESSO


REGRESSO

Gaia, o rio, uma estação
A tarde dos livros, o entardecer…
O rumor da pele em cada verso de página
Veloz o caminho rente à água traz a memória de um beijo
Suspenso, o tempo risca o esboço da viagem, quase fim
O frio branco da última neve, antes do café e da torrada em casa
As pessoas distraem olhares, espelhos de interesse,
Saudade, desejo ou de algum cansaço
Folhas abandonadas à sorte, dançam ao vento
Na pele o peso leve dos olhos faz a leitura subtil
e quase tátil da paisagem

Abro a porta ao sorriso… a ponte além…

Manuela Caldeira
in "Coletânea Galeria Vieira Portuense 2019"

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Poesia na Galeria Outubro 2019

 Alice Branco e José Faria
Paraty
 Paraty e Alice Branco
 António Monteiro 
Celso Miranda
 Alzira Santos
 Helena Duarte
 Fernanda Santos
 Dina Magalhães
 Alice Santos
 Adolfo Castelbranco

 Manuela Caldeira

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

NA GALERIA



NA GALERIA

PARA FUGIR À CHUVA ENTROU NA GALERIA DE ARTE. Olhou as telas abstratas e não gostou. Fechou a carteira preta, ajustou o lenço escuro ao pescoço, abotoou um botão mais no tailleur cinzento e, impaciente, balançou a saca de plástico onde trazia a renda. A seguir, quase raivosa, arrasou a pintura e foi desagradável comigo. — Como se desperdiça tempo e dinheiro para promover coisas assim! Em que lua andam os que tais coisas admitem? Faça o favor de me explicar o que quer isto dizer, esbracejou, furiosa. Olhei-a e senti a vida dura que levava, a desilusão intensa, o desgaste do tempo que lhe foi agreste. Ela trazia nas rugas do rosto, na austeridade da roupa, no cerrar dos lábios finos, um inenarrável desespero. A infelicidade tomara-lhe a pele, os nervos e o sangue antes de abater a vontade e de encerrar, definitivamente, o seu espírito para a luz e para a alegria do mundo. — Terei gosto em ajudá-la a ver esta pintura, disse-lhe, mas, antes disso, gostava de conversar consigo de modo mais ameno. Podemos falar de outras coisas? Que tal sobre a sua renda? Posso vê-la? A senhora olhou-me surpreendida e perguntou: — falar da renda? Depois de avaliar o interesse no meu rosto, descontraiu-se para dizer que começara uma colcha de croché. Mostro-lha se quiser, disse. — Faço, sim, questão de ver o seu trabalho mas, antes disso, deixe-me descrevê-lo. É de cor neutra, talvez branca ou cinzenta. Geometrismo muito fechado. Quadrados ou triângulos ligados entre si, quase sem casas abertas... — Como adivinhou?, exclamou, admirada, exibindo o seu trabalho tão austero como ela, tão desanimado quanto era a sua vida. — Quando era nova as rendas eram de rosetas complicadas, abertas, lindas, ia a dizer mais alegres, românticas. Agora... — Agora a senhora perdeu o interesse pela vida, pelos outros, pelo que ocorre a seu lado mas que não tem vontade de ver, sentir ou viver. Não é assim? Era exatamente assim. A chuva parou e o sol iluminou o dia. A senhora, dirigindo-se para a porta, disse-me: — Da pintura falaremos para a próxima vez. E... saiu.

Edgardo Xavier
in “Loengo” – contos
lido por Manuela Caldeira

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Poesia na Galeria Setembro 2019

 António Monteiro
 Manuel Maia
 Acilda Almeida
 Conceição Oliveira
 Fernanda Cardoso
 Manuela Caldeira
 Dina Magalhães
 Paraty
 Alice Santos
 Vitor Cordeiro
 Serigrafia de Avelino Rocha para sorteio
 Acilda Almeida retira o número sorteado
 Fernanda Santos a sorteada da sessão
 Fátima Ferreira, Manuela Caldeira, Maria Afonso Morais, Helena Duarte, 
Fernanda Santos e Acilda Almeida
Fernanda Cardoso e Maria de Lourdes Ferreira

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

MARIA



MARIA

Como é que sabes que não
regressas ao futuro
através da identidade com a terra
e com o passado que a terra te devolve? No teu nome
existem ídolos, lanças, adagas por achar,
coisas que o tempo deu ao tempo e o tempo não tem tempo para dar-te.
Por isso as tuas mãos estão despojadas,
estão cheias de vento, estão prenhes de vento,
são essas mãos o meu poema, isto é,
o teu poema, este em que celebro a liberdade de não ser
mais do que a verdade de um momento, o movimento
de um movimento contínuo, certo e esplêndido.
O nome emerge das estrelas, das areias, das forças do vazio,
depois de ter passado pelo cordão umbilical
da mãe sabedoria. E vê que, da gruta que resplandece,
não recolhes mais que o vento por herança fugidia.
Procura em ti o ouro e a sede dos felinos,
o fogo que irradia desta água e deste peixe
cuja vida pertence à liturgia. Há animais de prata
nas águas que se movem quando escrevo
a palavra labareda que é Maria.
Maria. O teu nome. Só Maria.

Joaquim Pessia
in “Nomes” (Litexa, 2002)
lido por Manuela Caldeira

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Poesia na Galeria 17-08-2019

 Dionísio Dinis
 Dina Magalhães
 Acilda Almeida
 António Monteiro
 Pompeu Dias
 Manuela Caldeira
 Eunice Amorim
 Adolfo Castelbranco e Eunice Amorim
 Eunice Amorim
 Eunice Amorim

Alice Branco a sorteada da sessão