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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

ROMANCE


ROMANCE

Ora pois: foi tal qual como vos digo:
minha Mãe, certo dia, pôs a questão assim:
— ou Ela, ou eu!
E ficou resolvido que no dia doze
minha Mãe parisse,
e pariu!

Pariu e ninguém se opôs! Ninguém!
Como se fosse um feito glorioso
 parir assim alguém, tão nu, tão desgraçado!
Por mim,
ainda disse que não!
Mas o seu Anjo da Guarda
era forte e tenebroso...
E aquele frágil cordão
deixou de ser o meu Pão,
o meu Vinho
e a paz eterna do meu coração
mesquinho!...

Deixou de ser o silêncio
delicado e agradecido
dos meus instintos menores...
Deixou de ser o Norte daquele lago
onde boiava o meu corpo
sem alegria e sem dores...

Deixou de ser aquela verdadeira
e sagrada ignorância do meu nome,
que Satanaz me disse, quando disse:
— Respira e come,
respira e come,
Animal!
(A voz de Satanaz já nesse tempo
era humana e natural...)

Deixou de ser um mundo e foi um outro!
Foi a inocência perdida
e a minha voz acordada...
Foi a fome, a peste e a guerra!
Foi a terra
sem mais nada!

Depois,
sem dó nem piedade a Vida começou...
Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo,
e, ao ver que eu era homem,
corou.,

Miguel Torga
in “O Outro Livro de Job”
lido por David Cardoso

terça-feira, 24 de novembro de 2015

POESIA NA GALERIA - Novembro

 Helena Duarte
David Cardoso

 Irene Silva
 Aurora Gaia
 Luísa Pedro Viana e Aurora Gaia
 Fátima Faria

 Beatriz Maia
 Fátima Cardoso
 ArtCar
 João Pessanha
 Nélson Brito
 Lourdes dos Anjos
 Fernanda Cardoso

quarta-feira, 29 de julho de 2015

ESCREVO, E NÃO SEI SE PARA TI


ESCREVO, E NÃO SEI SE PARA TI

O sol acordou bem disposto e ainda não parou de brincar às escondidas
comigo. Volta e meia usa as nuvens brancas e fofas para se esconderá com ar
traquina espera que eu o descubra.
A roda pedaleira marca o compasso. No seu infindável movimento
circular emite um assobio monocórdico que me mantém presa à realidade
através da audição.
No entanto, os olhos enveredam por trilhos sonhadores que ao redor
plano se mostra. Mesmo até perder de vista, na desorientação que procuro,
deixo o asfalto manhoso da estrada que serpenteia, e elevada a cerca de 10
cm do chão em tranquilo deleite, sorvo com todos os sentidos esta natureza
bucólica e romântica.
À direita, a ria em maré vaza, mostra as suas entranhas e alimenta aves e
homens que se atrevem numa mistura de lodo e areia.
Os pés afundam-se em buracos negros e viscosos. Além, pequenos pontos
negros pintalgam o azul aquático deslizante. Sombras estranhas de
instrumentos que não reconheço recortam o ar.
Adivinho pescadores sem barco numa faina em forma de concha. Vejo
bandos de aves brancas e ordeiras de patas e bicos longos a patrulharem a
margem.
O cheiro é intenso mas não me é de todo desagradável. Pelo contrário.
Pega em mim ao colo e leva-me ao passado, à praia do Areínho, onde
passávamos o dia entre a barraca azul, piquenique e banhos infindáveis até o
sol se transformar numa bola de lume e adormecer no horizonte.
Os nossos sentidos são extraordinários. Gravam memórias que se soltam
ao mínimo impulso e levam-nos numa cápsula de tempo a esses lugares
mágicos que guardamos dentro de nós.
À esquerda, o verde impera e percorre todas as tonalidades possíveis.
Formam-se talhões rasteiros pontilhados por vegetação mais alta.
Todo este manto verde deixa-se penetrar por pequenos cursos de água
que procuram caminho até à ria. E as aves comunicam com melodiosas
conversas e eu tento perceber o que dizem... Ao longe o vento traz-me o
toque do sino que também me quer falar, o ladrar do cão, sempre alerta a
algo estranho, o roncar do tractor que nem ao domingo descansa e o barulho
do motor de um carro, lá, bem lá ao fundo, chegam para me arrancar do
sonho.
Um pardal equilibrista poisa no ponto mais alto de um junco e ensaia
coreografias ondulantes na brisa terna do vento, já ali.
Atraquei num barco abandonado. Nos seus destroços cor azul mar,
desbotado e carcomido, encontrei o lugar ideal para fazer parar o tempo.
Desligo da vida e deixo-me navegar na tranquilidade da paisagem.

E escrevo e nem sei se para ti.

Clara Oliveira
Lido por David Cardoso

terça-feira, 28 de julho de 2015

Poesia na Galeria 15 de Julho

Agostinho Costa
Luís Pedro Viana
Aurora Gaia
Maria Helena
Maria Teresa Nicho
Conceição Lages
Lourdes Alegria
Fátima Faria
David Cardoso
Helena Duarte
Maria Augusta da Silva Neves
Paraty

sexta-feira, 27 de março de 2015

PRAÇA 15. RUA 7


PRAÇA 15. RUA 7

Lá na Rua do Catete
Gostei de umas cinco ou sete.
Bota um pouquinho de cana!
Bota, para me lembrar
Se foi em Copacabana
Ou na Rua do Catete
Que nós fomos conversar.

Foi Odete ou Bernardete?
Não me posso recordar.
Será que moça promete
Encontro na Rua Sete
Com peitica de faltar?

Na Praça Quinze seria
Que estive espiando Odete,
Sentinela do meio dia
Até bem depois das sete.
Duas vezes não vi ela:
Será que foi Bernardete?
Na Praça Quinze num dia,
Dois dias na Rua Sete,
Com mais um que me promete
E já sei que não cumpria,
Na Praça Quinze seria
Que me danei com Lisete.

Mas, meu Deus, que confusão
Vai na Rua Catete
E neste meu coração,
Que tudo quanto comete
Sempre há-de ser contramão,
Dia 15 ou dia 7…

Vitorino Nemésio

Lido por David Cardoso

quarta-feira, 25 de março de 2015

GLICÍNIA


GLICÍNIA

É um rosto fechado a tua casa
Nem os lábios da porta se entreabrem
Nem sorriem seus olhos hialinos
Por mais que eu use o pó do teu caminho

Por mais que eu aprofunde essa vereda
E dela faça o álveo desta mágoa
A tua casa é concha de refúgio
Calcificou o caracol da espera

Mal deflagrou o pólen nos espaços
Emaranhou-se ao muro uma glicínia
Marinhou pelo mês de março fora
E em minha vez foi ver-te na janela

Na tua vez floriu em mil sorrisos
E sempre que aí passo lá me acena
A desdobrar-se em ânsias de infinito
Línguas de fogo a rescender a azul

Queria eternizar a primavera
E ser a tua rua para sempre

Anthero Monteiro
in “Canto de Encantos e Desencantos”

lido por David Cardoso

terça-feira, 24 de março de 2015

POESIA NA GALERIA 21 de Março

 Manuel Maia e Alice Branco
 David Cardoso
 Amândio Vasconcelos

 Manuela Caldeira
 Manuela Caldeira
 Aires Barros
 Agostinho Costa encerra a cessão anunciando o sorteio 

 A serigrafia sorteada foi o "Porto" de António-Lino

 Manuel Maia foi o vencedor do sorteio