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quarta-feira, 19 de junho de 2019

quarta-feira, 15 de junho de 2016

POEMA EM LINHA RETA


POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa

Lido por Amílcar Mendes

terça-feira, 24 de maio de 2016

POESIA NA GALERIA 21 de Maio

 Amílcar Mendes
 Amílcar Mendes
 Miguel Leitão
 Miguel Leitão
 Maria de Lourdes Ferreira
 Maria de Lourdes Ferreira
 João Pessanha termina com um fado
 João Pessanha
 Agostinho Costa apresenta a serigrafia para o sorteio da sessão
Serigrafia de autoria de Luís Pedro Viana, oferecida por este

 Paraty tira o número sorteado
 Dina Magalhães foi a sorteada do dia










quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

QUE SAUDADE!


QUE SAUDADE!

Que saudade eu tenho de ver trigais doirados
alegres raparigas trigueiras
que saudade de ver os pardais a chilrear nos telhados
como dantes, entre as portas abertas, costureiras.

Tenho saudade de rir à gargalhada
despreocupado e quantas vezes imprudente
de ver a tua cara de zangada
que te fazia ainda mais atraente.

Tudo passou com o decorrer dos anos
e com algumas circunstâncias que me contrariaram,
que saudade de te ver frenética e cheia de flexibilidade (…)
Que saudade eu tenho até dos desenganos
que me aborreceram e me marcaram,
que saudade eu tenho! Que saudade.

Artur Cardoso
in Marés da Alma

lido por Amílcar Mendes

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Poesia na Galeria 20 de Fevereiro

 Aurora Gaia
 Manuel Maia
 Amílcar Mendes
 Luís Pedro Viana
 Luís Pedro Viana

 Acilda Almeida
 José Azevedo
 Manuela Caldeira
 Irene Silva

Irene Silva

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A GATA BORRALHEIRA


A GATA BORRALHEIRA

A Gata Borralheira era uma menina muito boa, que gostava de passar os dias bem quentinha a ler fotonovelas e a chupar rebuçados. Era por isso mesmo que lhe chamavam Gata Borralheira. De seu nome, como se chamava realmente era Amélia.
A Gata Borralheira tinha uma irmã mais velha chamada Adalgisa que gostava muito dela e que trabalhava que se fartava para sustentar a casa e para que a Gata Borralheira pudesse comprar muitas fotonovelas. Vejam os meninos como é bonito o amor fraternal; realmente é muito bonito.
Portanto estávamos nisto quando a pobre Adalgisa, de tanto trabalhar, caiu de cama. Coitada. A Gata Borralheira ficou muito preocupada, como os meninos devem calcular. E resolveu ir a um baile em Belém, a ver o que se podia arranjar. Comprou um par de sapatos novos muito engraçadinhos e foi.
Pois não é que arranjou um excelente major de cavalaria muito alto, muito simpático e com um bigode muito grande, vejam lá!
Vieram os dois para casa num lindo carro com chófer fardado e deram logo um óptimo xarope à pobre Adalgisa. Depois foram fazer festinhas um ao outro. E assim, meus meninos, após terem ido ao funeral, Amélia passou a viver muito feliz com o senhor major de cavalaria que aparecia todas as noites num lindo carro e lhe fazia sempre muitas festinhas.
Tiveram três meninos e uma menina. Infelizmente o menino mais velho era marreco. Deus Nosso Senhor não pode dar tudo.

Publicado no Jornal "O COISO" -1975

Lido por Amílcar Mendes

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

POESIA NA GALERIA Janeiro 2016

 Fernando Zagalo
 Beatriz Maia
 Carlos Gomes
 Leonor Reis
 Irene Costa
 José Oliveira Ribeiro
 Irene Silva
 Fátima Cardoso
 Luísa Colaço
 Artur Cardoso
 Dina Magalhães
 Amilcar Mendes
 João Pessanha