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sexta-feira, 23 de março de 2018

ENCONTREI-TE, PAI!



ENCONTREI-TE, PAI!

Os trilhos da minha caminhada
conduziram os meus passos
ao monte atrás da nossa casa,
Pensava em ti, quando olhei e vi
o que tomei por um devaneio…
Havia, no caminho ermo,
uma estranha mas doce melodia
entoada por dezenas de abelhas
que se deliciavam num jardim,
de belas ervilhas de cheiro.
Inimaginável por mim!
O fascínio pôs-me de joelhos!
Tal era o silêncio que silenciou
a minha própria voz.
Então de repente Pai, aconteceu,
tu estavas ali, a olhar para nós!
Levou-me bem longe o devaneio,
quando plantavas às escondidas
com o maior desvelo e cuidado,
bardos de ervilhas de cheiro
para mais tarde me surpreender
ao ver-te chegar abraçado
a um belo ramo perfumado.
Nunca mais vi, nem semeei,
dessas flores no nosso jardim!
Quem as teria plantado ali, para mim?
Só tu podias ser! Mandaste-as no vento!

Foram regadas talvez com as tuas lágrimas
que o sal transformou num aroma intenso,
para apaziguar as minhas mágoas
e perfumar o meu vazio imenso.

Entendi Pai, que onde estás,
também existe a primavera
que há sementes e memória
e que o vento ficou à espera
de as semear no devido momento,
para que pudesse contar a nossa história.
Está contada!
Fica bem!
Pai, obrigada!
Amém.

Alice Queiroz
in “Jardins de Afectos”
lido por Isabel Moura

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

PENSEI


PENSEI

Pensei fazer um poema
que falasse só de flores
lua cheia sol dourado
paixão beijos e amores,
poente terra molhada
brisa afagando o meu rosto;
mas foi crescendo aos poucos
a tristeza em mim guardada
feita de dor e de pena
que comigo já nasceu
e segue serenamente
os mesmos trilhos que eu
então já não escrevi nada.

Pensei dizer um poema
escrito há um tempo atrás
falava de amor e paz
de esperança e de bondade
mas tomou-me a nostalgia
então perdi a vontade;
fiquei queda e calada
aquele grito abafado
que existe dentro nós
misto de alegria e mágoa
encheu meus olhos de água
afogou a minha voz
e então não disse nada!

Alice Queiroz
in Jardim de Afectos

lido por Isabel Moura

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

ABOMINO O SILÊNCIO


ABOMINO O SILÊNCIO

O silêncio
vestido de bruma
surgiu sorrateiro
e sentou-se a meu lado
tinha um ar absorto

Com um sorriso amargo
tomou o meu corpo
e o meu pensamento
e sem consentimento
sorveu tudo de um só trago

Depois
lançou um olhar
aos meus desabafos
fragmentos esparsos
de amor vida e pena
arrumados em palavras
nas pontas dos meus dedos
para serem poema

Então
com ânsia e desdém
sugou-os também

AH! Abomino o silêncio!

Alice Queiroz
in “Colectânea Galeria Vieira Portuense 2015”
Lido por Isabel Moura


terça-feira, 29 de agosto de 2017

HOJE, PARA TI!


HOJE, PARA TI!

O vento, arrasta consigo o murmúrio do mar e o alegre riso
das gaivotas jogando às escondidas.
As ondas, num misterioso bailado, estendem-se suavemente
sobre a areia dourada num abraço de espuma.
O sol, radioso, doce, tão doce como o teu sorriso, apareceu
para anunciar um dia renovado e promissor!

As árvores que o vento com malícia despiu, põem a nu os
pardais abrindo as asinhas em leque em busca do sol e de um
novo porto de abrigo.

Queria saber pintar, para te oferecer o fascínio desta natureza
pródiga que se oferece aos meus olhos.
Como não sei, uso os pincéis da minha imaginação sobre a tela
do tempo, dou-lhe a cor e a vida que crescem dentro da minha
própria natureza. Um quadro simples, uma singela composição
de palavras minhas que te ofereço.

Quem entende a linguagem do vento, quem se deixa arrastar
pelo murmúrio das ondas, saboreia o afago do sol e se embriaga
com o perfume das flores, quase sucumbe diante de tamanha
beleza!

Hoje, para ri, uma lembrança simples de um lindo dia de sol
de Outono.

Alice Queiroz
in “Jardim de Afectos”
lido por Isabel Moura

quinta-feira, 1 de junho de 2017

PENSEI


PENSEI

Pensei fazer um poema
que falasse só de flores
lua cheia sol dourado
paixão beijos e amores
poente terra molhada
brisa afagando o meu rosto;
mas foi crescendo aos poucos
a tristeza em mim guardada
feita de dor e de pena
que comigo já nasceu
e segue serenamente
os mesmos trilhos que eu
então já não escrevi nada.

Pensei dizer um poema
escrito há um tempo atrás
falava de amor e paz
de esperança e de bondade
mas tomou-me a nostalgia
então perdi a vontade;
fiquei queda e calada
aquele grito abafado
que existe dentro nós
misto de alegria e mágoa
encheu meus olhos de água
afogou a minha voz
e então não disse nada!

Alice Queiroz
in Jardim de Afectos

lido por Isabel Moura

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

MAR!


MAR!

Mar!
Eu ajoelho perante a tua imensidão,
a tua força, a tua teimosia, o teu canto,
o teu encanto!

Mar!
Espelho meu, diz-me o que vês?
O que vejo, digo-te eu...
Coragem, tenacidade, a valentia,
de continuar a trazer dia, após dia,
nas tuas marés, melodias, sonhos,
carícias que lanças a meus pés.

E a bruma, Mar,
que algumas vezes tristemente te encobres,
não é mais do que um manto protector,
para abrigar a tua alma franca e nobre,            .
das tormentas da vaidade, ganância e desamor,
que proliferam em teu redor

Mar!
Aqui te deixo meu preito,
em silêncio porque as palavras
que enchem o meu peito,
às tuas vagas hoje vou juntar,
nas lágrimas que a tua emoção
da minha alma fez brotar.
Bendito sejas, Mar!

Alice Queiroz
in “Jardim de Afectos”
lido por Guida Dias


terça-feira, 27 de setembro de 2016

ADORO OS POETAS


ADORO OS POETAS

Adoro os poetas
transformam letras
em palácios de marfim
com uma simples flor
fazem um belo jardim,
e da solidão o amor.

Adoro os poetas
é enorme a sua magia.
com eles ganho asas
ninguém me segura
e agora a vida dura
é arco-íris de cor e fantasia.
Vou dar o meu grito de "ipiranga"
tirar fantasia da manga
e como os poetas transformar
mascarar os rudes estendais
que me massacram de braços no ar
em arcos de cor e de alegria
a enfeitar alegres arraiais.
Continuo o meu devaneio
olho os tachos e as panelas
- que tanto desprezo e até odeio -
e em vez mandar tudo pelo ar
domino este meu mesquinho anseio
e exclamo: - Que maravilhosas baixelas!
Imbuída por todo este encanto
lanço um olhar à tábua do ferro
que me suga e martiriza tanto
- Olha! uma prancha de surf!
Oh! benditas marés vivas/de doce ilusão
e "surfo", "surfo" até à exaustão…
Eu! Adoro os Poetas
mágicos sonhadores
com eles aprendi
que se podem transformar
cansaços em flores.

Alice Queiroz
in “Jardim de Afectos “

lido por Isabel Moura

NOTAS PARA UM HINO À PAZ


NOTAS PARA UM HINO À PAZ

Pombas brancas voai alto
Sem rumo nem direcção
No bico levai esperança
Levai nas asas os sonhos
Que guardo no coração.
Levai alto muito alto
Fé esperança e alegria
Para onde tanto faz
Sede o arauto e o guia
Das notas de um hino à paz.

Pombas brancas mensageiras
De paz e fraternidade
Para vós não há fronteiras
Ide derrubai barreiras
Erguidas à liberdade;
Voai ódios, voai guerras,
Levai a fraternidade
Para vós não há fronteiras
Pombas brancas mensageiras
De um hino à liberdade.

Alice Queiroz
in “Jardim de Afectos”

lido por Lourdes Alegria

terça-feira, 30 de agosto de 2016

REFLECTIR


REFLECTIR

Às vezes é preciso parar
E não parámos
Então a vida
Inesperadamente
Obriga-nos a parar
E nós parámos
Às vezes é preciso reflectir
E não temos tempo
Então o tempo
Inesperadamente
Deixa de existir
E nós vencidos reflectimos
Reflectimos
Na transparência das águas
Na acalmia do mar
Na serenidade de uma gaivota
Entregue ao seu mundo
Num misterioso barco lá ao fundo
Então
Somos tomados de repente
Por uma fé indescritível
E acreditamos piamente
Que agarrar nas nossas mãos o sol
E segurar entre os dedos a vida
É possível


Alice Queiroz

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

POESIA NA GALERIA Agosto 2016

 Fernando Moraia
 Alice Queiroz
 Maria Manuel Rito
 Rogério Barbosa
 Conceição Oliveira
 Isabel Moura
 Alice Santos
 António D. Lima
 José Oliveira Ribeiro

Dina Magalhães
 Alzira Santos
Alice Branco

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

ORAÇÃO


ORAÇÃO

Hoje ouso rezar
As minhas próprias orações
Que fui burilando dia após dia
Ao longo de um duro caminho
As Tuas feitas por Ti ou não
Gravei-as em delicados papiros
Que no tempo fui arquivando
À medida das minhas convicções

Hoje ouso acreditar
Que Tu apesar de tudo ainda me amas
Assim imprudente cética e insubmissa
Que não baixa a cabeça quando Te olha
Não treme nem rasteja diante de Ti
Te questiona pelo Teu abandono
Põe em dúvida o Teu amparo e a Tua justiça
E o Teu poder de num só gesto por dever
Tornares este mundo mais digno para viver

Hoje ouso dizer
Que gosto de Te olhar humildemente mas de pé
De olhos nos olhos de cabeça erguida
Que te adivinho na pureza do aroma das rosas
E no chilreio inocente dos pássaros escuto a Tua voz
Hoje preciso crer-Te presente e vivo neste espaço
De mãos abertas estendidas em sinal de compreensão
E que há entre os Teus braços uma sublime oração
Feita de abraços e bondade envolvendo todos nós


Alice Queiroz

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Poesia na Galeria 20 de Fevereiro

 Irene Silva

 Agostinho Costa
 Danyel Guerra e Agostinho Costa





 Agostinho Costa
 Irene Silva
 Irene Silva
 Maria Helena
 António Gonçalves
 Alice Queiroz
 Rogério Barbosa
 Ester de Sousa e Sá
Beatriz Maia
Carlos Gomes

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Olá, Mãe!


Olá, Mãe!

Esta data Mãe, para mim, tem sempre o mesmo significado, a tua ausência. Parece que foi ontem!
Não estás cá para ver como está linda a ameixoeira! Vestiu de novo com esplendor, aquele belo vestido de noiva branco que tanto gostavas e à sua volta, as japoneiras, vestidas de cor-de-rosa, parecem damas de honor!
Também  não vês os amores-perfeitos que plantei e já floriram, nem sentiste o perfume das violetas que, como tu, já partiram.
Mãe os pássaros andam loucos, não param, de cantar! Ao ouvi-los assim alvoroçados, confundo-os sem querer, com a tua voz, como quando começavas a cantar logo ao amanhecer.
Sei que ias gostar das andorinhas que espalhei pela parede para alegrar a casa. As verdadeiras também me abandonaram, mudaram de rumo.
A nossa casa tão grande, de repente, ficou vazia, partiram quase todos, ficamos só nós, a nossa pequena família unida.
O tempo passa! Repara no meu cabelo, no meu rosto e como cresceram os teus bisnetos!
Mãe, não te vou falar de saudades! Sabes o que faço para as evitar? Brinco ao faz de conta! Mastigo-as e engulo-as como se fossem rosas. Assim, cada pétala macia é um bálsamo para a minha agonia, e os meus suspiros deixam de ser magoados porque são perfumados.
Queria muito ter-te por perto Mãe, mas ainda tenho tantas coisas para fazer! Dá-me tempo, preciso de tempo, para dizer aos meus tudo o que tenho para lhes dizer!
Não estás só, estás rodeada de tantas pessoas que amas Mãe, sobretudo do meu Pai, o grande amor da tua vida. Fala-lhe da minha saudade e abraça-o por mim.
Não queria falar de saudades mas, é impossível, dói tanto!
Menti-te Mãe, o faz de conta não resulta. Afinal, as lágrimas não ficam nem macias nem perfumadas, queimam, ferem e são profundamente amargas!
Tu sabes que nunca vos esqueço. Onde estiveres, se puderes, vela por nós, precisamos tanto de ti!
Só peço Mãe, que esta mensagem atravesse o universo, encontre o teu espaço e te leve o nosso amor num imenso abraço.

Alice Queiroz

Lido por Irene Silva

sexta-feira, 26 de junho de 2015

VIESTE COMO UM BARCO CARREGADO DE VENTO


VIESTE COMO UM BARCO CARREGADO DE VENTO

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

Maria do Rosário Pedreira,
in 'O Canto do Vento nos Ciprestes'

Lido por Alice Queiróz