quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

NESSE TEMPO DE OUTRORA...


NESSE TEMPO DE OUTRORA...

Quero passear pelos campos fora,
como no tempo de outrora...                                       
quando eu era pequenina...                                               
que brincava, corria, sorria e saltava               
quando passeava pelos campos fora!           

Nesse tempo de outrora...
eu recordo... “o tempo de Primavera” 
que logo, no alvorecer da luz do dia                                             
eu acordava mesmo deleitada...                               
com a melodia do chilrear da cotovia!                                 
Em tempo de festa... era uma alegria
Maravilhada... eu inspirava o cheirinho das flores
nos alegres passeios com a Família, “os meus amores!...”

Nesse tempo de outrora...
quando eu era pequenina...
eu recordo que brincava, corria, sorria e saltava
quando passeava pelos campos fora! 

Nesse tempo de outrora...
eu recordo... “o tempo de Verão” 
na quietude do nascer do dia                                                                                                         
e antes, do romper do Sol                                                                                                             
eu ouvia a melodia do chilrear do rouxinol!                                                                                              Era um tempo feliz...eu sorria
e todo o dia, em alegria...                                                                                                                         
eu via as lindas joaninhas, as abelhinhas
e as borboletas de multicor
em precioso e encantador labor!
Velozes esvoaçavam e pousavam
suavemente, numa e noutra bela flor!                                                                                                                                                                                                                                               

Nesse tempo de outrora...
quando eu era pequenina...                                                                                               
eu recordo que brincava, corria, sorria e saltava                                                                                       
quando passeava pelos campos fora!

Nesse tempo de outrora...
eu recordo... “o tempo de Outono” 
por vezes, já pardacento ao romper do dia 
até, parecia que o Sol se escondia...                                                                                             
e já, corria uma aragem fria. 
Era tempo de certa monotonia e até, de nostalgia...
sentia saudade da luz do Sol a brilhar,                                                                                 
estava já, sedenta de me encantar!...     

Nesse tempo de outrora...
quando eu era pequenina...                                                                                                           
eu recordo que brincava, corria, sorria e saltava                                                                   
quando passeava pelos campos fora!

Nesse tempo de outrora...
eu recordo... “o tempo de Invernia”. 
Nas intempéries... relampejava e trovejava,
quase sempre chovia, fazia frio e ventania                                                                                       
já, rompia gélido... o dia a dia                                                                                                         
e mais cedo, o dia entardecia.                                                                                                                                                                                                                                                       
Nesse tempo, eu era uma criança pequenina,
mas, já andava na escolinha,                                                                                                   
então, “era tempo de mais calmaria...
na doce companhia da Família,
a brincar... e a ouvir histórias de encantar...”
mas também, “empenhada em aprender, ler e estudar”                                                         
da forma que, “os meus adoráveis Paizinhos me educavam”                                                     
e assim, ternamente... me falavam:
- “Leninha, se tem que fazer e tem; “faça com Amor e Bem!...”

E foi assim, “a minha doce... Infância de feliz e encantadora... vivência!”
Nesse tempo de outrora...
quando eu era pequenina...                                                                                                       
que brincava, corria, sorria e saltava                                                                                       
quando passeava pelos campos fora!

A pureza... beleza... e “Amor... na Infância!”
“São sublime alegria... da mais linda poesia!”

Helena Maria Simões Duarte
in "Coletânea Galeria Vieira Portuense 2017"

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO



O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. IV, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De facto, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

Vinicius de Moraes
Lido por Agostinho Costa

E aí estás tu



E aí estás tu à esquina do meu medo
dissipando as minhas sombras
ajudando a amenizar o peso dos ombros
o peso dos próprios anos...
sorrindo hoje como da primeira
vez que nos vimos
e embora os olhos não
faisquem da mesma forma
tu sabes e eu sei
que aquilo que hoje nos une
é tão maior que aquilo que nos separa

Podem vir outonos e invernos
podem cair e nascer folhas,
flores e frutos
pode a terra gemer de tão seca
e os rios secarem
pode o vento varrer avenidas e passeios
podem os céus se toldarem do mais negro cinza
que em nós sempre será tempo de recomeço
de podar caules
de cuidar raízes
porque é cuidando que as coisas crescem
é velando as raízes que as árvores sobem até perder de vista
e é preciso que a gente se deixe podar
para voltarmos ainda mais inteiros!

São Reis
(a publicar)
Lido por Manuela Caldeira

A ROSA



A ROSA

Foi, é, e será
Sempre uma bela flor…
Tanto na sua curta vida campestre…
Como nos sonhos arquivados
No meu teu nosso e vosso subconsciente…
Desde o Norte,
Pra Sul
Do L’Este
Para Oeste…
Oferenda… Para quem goste, e ame as flores…
A(s) Rosa(s)
Que Sejam Sempre Símbolos D’Amor
Em Prosa,
Ou na Poesia Clássica…
Nos Teus Meus Nossos Vossos…
Emaranhados Loucos Sonhos De Amor.

Karlos Kosta Versus José Carlos Costa

MOMENTO EXACTO



MOMENTO EXACTO

Há um momento exato em que me sinto eu
É quando na boca as palavras se desnudam
Ganham asas pairam no silêncio da noite
Se libertam do ténue véu que nos separa
E deixam ver a chama que alumia os teus olhos

Há um momento exato em que me sinto eu
É quando vejo que nas tuas mãos côncavas
Onde semeei um jardim de afagos e alfazema
Abundam nos teus dedos perfumados versos
Que transformam o meu corpo num poema

Há um momento exato em que me sinto eu
É quando na penumbra acordo estremunhada
O rumor da noite se mistura ao teu pulsar
E num sussurro semelhante ao canto de um rio
Um fio de voz me diz que faço alguém feliz

Há um momento exato em que me sinto eu
É o momento em que sinto o quanto a vida me deu!

Alice Queiroz
in “Coletânea Galeria Vieira Portuense 2016”
lido por Conceição Oliveira

DESTRUIR É MUITO FÁCIL!


DESTRUIR É MUITO FÁCIL!

Destruir é muito fácil, sabemos
A criança é capaz de o fazer
Qualquer tolo o faz, convenhamos
Mas há pessoas não querem entender!

Maldade não tem inteligência
Esta, pra criar, é sim importante
Feita por gente com paciência
Levar beleza, verdade, avante.

Só pode ser feita com muito amor
Respeitando valores universais
Construindo a paz com muito fervor

Pois devemos ser simples e bons mortais
Pra que nossa passagem seja clamor
Nos distinguindo de outros animais.

Arnaldo Teixeira Santos
in “Colectânea de Poesia Poemas d’Alma” (Novembro 2018)

FALA


FALA


Fala o poeta de um tempo que é o seu
feito de malandros vigaristas
de desordeiros e caciques
de cegos das duas vistas

Fala o poeta deste tempo sujo
que a poesia não consegue disfarçar
desta época medonha a que não fujo
— onde é que eu vim parar —

Fala o poeta amargurado e triste
com tanta asneira e imbecilidade
quer trocar de tempo, mudar de cidade
mas é esta a cidade que persiste...

Fernando Morais
in “Quadrar”
lido por Alzira Santos

SER POETA...


SER POETA...


Ser poeta, é ter a força da vida,
É lutar sem tréguas um bom combate,
É ter dentro de si uma ferida,
É ter a força do amor que se reparte.

Ser poeta é ter sonhos e ilusões,
É viver o real e a fantasia;
É ter dentro de si mil paixões,
É sentir a tristeza e a alegria!.

Ser poeta é olhar para o Infinito,
Saber partilhar as desventuras,
É condensar esta vida num só grito,
E preencher o olhar só de ternuras.

Ser poeta é ser foice apontada,
Aos instintos nocivos da opressão;
É ser-se livre, sem hora marcada,
É fazer cantar seu coração.

Ser poeta é ser sempre diferente,
Caminhando, por vezes, à revelia;
É sentir-se isolado no meio da gente,
É a imagem clara do dia a dia!.

Jorge Vieira
in “No Caminho do Silêncio”
lido por Maria de Lourdes Ferreira

NA GUERRA QUE TRAVO



NA GUERRA QUE TRAVO

Na guerra que travo
contra a imensidão do tempo que nos separa,
digladiam-se a alma e a razão
num pranto
cruzando a noite,
o mar e os corpos...

Cruzo a distância,
escuto o bater das tuas asas
e crio a infinitude da saudade!

Na ausência das pétalas de rosa,
beijos teus salpicando-me o corpo,
esmago a veracidade da retidão do espaço
e crio vulcões esvaziando lava,
explosões de querer
queimando momentos!

Invento a tua pele na minha,
dilato o desejo até chegar a ti
e crio o instante em que me dou!

Goreti Dias
in “Poesia Pintada no Silêncio”
lido por Dionísio Dinis

POESIA ANDA NO AR



POESIA ANDA NO AR

"Poesia anda no ar",
Num Mundo Escuro, sem Luz,
Tentando passar mensagem
Do Amor que é Vida e seduz!

Unamos as nossas mãos,
Juntemos os corações,
Vamos florescer do lodo,
Fortes nas nossas paixões!

O Poeta tem em si,
Dum Anjo, a sua candura,
Da Criança, a magia
E da Mulher, a doçura!

Ao Mundo dá Alegria,
Não deixa a Esperança findar,
Mostrando, à gente que chora,
Que o Amor tudo vai salvar!

Por isso, aos nossos Poetas,
Um brinde vamos fazer:
Que seu Viver seja eterno,
Tal qual o nosso Querer!

Alzira Frias
in “Há mais vida pra viver”
lido por Ana Maria Oliveira

MÃEZINHA



MÃEZINHA

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis,
nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.
Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
43 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai desde o berço até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (Oh nunca mais!)
tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.
Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.
Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que meu pai percorria,
tranquilamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.
Dessas 9 excelentes raparigas
Uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.
A que sobeja
Chamava-se Rosinha.
Foi essa a que meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.

António Gedeão
Declamado por Fernanda Cardoso

POEMA



POEMA

Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar

António José Forte
"Uma Faca nos Dentes"
Prefácio de Herberto Helder
Parceria A.M. Pereira
Livraria Editora, Lda.
Lido por Goreti Dias

AINDA NÃO



AINDA NÃO

Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar

ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem

ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça

ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração

António José Forte
in 'Urna Faca nos Dentes'
Lido por Alice Santos

AS PALAVRAS INTERDITAS



AS PALAVRAS INTERDITAS

Os Navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
Partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram-se nas esquinas.
Amo-te… E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade
in “As Palavras Interditas”
lido por Isabel Moura

PINÓQUIO



PINÓQUIO

Dançávamos numa varanda sobranceria à baía quando ela parou, estática, e olhando-me perguntou:
- Diz lá o que sentes por mim mas não me mintas
Nas costas dela a mãe apreciava a cena, e sorrateiramente abriu a porta que dava acesso à varanda talvez com curiosidade de saber a resposta ou confirmar se correspondia ao que já tinha percebido. Respondi:
- Amor igual ao que só um outro te tem
Deu-me um beijo no nariz e rematou
- Pinóquio mas...e como se chama esse felizardo
Não tive tempo de responder pois nas costas dela a mãe respondeu por mim.
- Chama-se Rodrigo e vejam lá se acabam com a dança não se esqueçam que têm aulas de tarde.
Pura verdade e 1 década depois confirmou as palavras da mãe nas termas de Monfortinho quando chegada a noite nos dirigimos para o quarto.
- Onde durmo só há uma cama
- Nessa aí palerma
- E tu Leoa
- Na mesma abraçada ao sonho
No quarto ao lado a mãe preparava-se para a deita- ficou-me a sensação ter ouvido uma pequena risada.

Contos do Inácio
Adolfo Castelbranco

Suavemente



Suavemente envolvido naquele olhar vago e silencioso
as promessas são como estilhaços de vidro,
partidos no corpo
caminha como um estranho no mundo
mas é somente uma ínfima parte dele
como um estranho desconhecido
velas em pegadas que te acompanham
porque tu homem, és um animal frustrado
quando olhas o vácuo dos teus olhos
abafas os sonhos, em códigos ocultos
e não nos ensinas a brincar
até aos sonhos.

Mário Anselmo
in “Eremita de Sonhos”

QUEM CONCORDA COMIGO????



QUEM CONCORDA COMIGO????

Dizem que o Ano que passou foi mau?
E este irá ser diferente?
Damos muitas Graças a Deus,
Porque se nós nos queixamos
O que dirá muita gente.

Olhamos para guerras, catástrofes,
Tantos tantos atentados
Que milhares de vidas ceifou,
E nós no nosso cantinho, até hoje
Com excepção dos incêndios
Deus sempre nos amparou.

Quantas casas, quantos lares?
Alguns com violência doméstica
Outras que a água varreu também?
Quantos Refugiados afogaram
Por esses mares além?
Quantas Mães ficaram sem seus Filhos?
E quantos Filhos sem Pai e Mãe?

Nós por cá temos Alguém
Que nos está a segurar,
Nossa Senhora nos dê a mão
E nunca deixe de nos amparar.

A todos os doentinhos
Nossa Senhora os ajude,
Os cubra com o seu manto
E lhes dê mais saúde.

Nem só de prendas vive o homem
E eu digo com franqueza,
Saúde, Paz e Alegria
É a nossa maior riqueza.

O Natal já passou
Mas para todos em geral,
Que no nosso coração
Todos os dias seja Natal.

O ano que começou
Seja de amor, Paz e Alegria,
E tenhamos sempre presente
Jesus, José e Maria.

Sem Eles não somos ninguém
Como vós todos sabeis
E da maneira que a vida está,
Só com Eles tudo se pode
Que Deus dê a toda a gente
Um bom ano 2019…

Dina Magalhães

NO MAR



NO MAR

No mar,
Tem siri e ostra,
Marisco e lagosta,
Bichos bonitos,
bichos esquisitos.
O mar
É lindo e gozado.
A gente entra doce
E sai salgado.

Lalau e Laura Beatriz
Lido por Inês Lima

A PEDINTE FELIZ



A PEDINTE FELIZ

O dia (fim de tarde) estava frio!
Não havia uma única cadeira vaga na pastelaria.
Falava-se alto e o ruído era aumentado em muitos decibéis pelo
tilintar das chávenas que as empregadas manuseavam.
A mulher esquelética que acabara de entrar carregava às costas,
na ponta de um pau, um saco de serapilheira e nas mãos mais uns
quantos sacos de plástico. Neles certamente transportava todos os seus
haveres e sabe-se lá quantos segredos!
Não se lhe podia ler a idade. Tanto podiam ser 30 como 300 os anos
que arrastava consigo.
Dirigiu-se ao balcão e pediu que lhe dessem um pão! A empregada
meteu umas quantas carcaças num saco de papel que ela se apressou a
guardar num dos seus sacos de plástico!
As pessoas que ocupavam todas as cadeiras da pastelaria, certamente
ocupadas com outro tipo de preocupações como o modelo do carro
que gostariam de comprar ou o destino das férias do próximo Verão,
não deram pela felicidade que aquela mulher sentiu no preciso
instante em que recebeu apenas alguns pães!
A felicidade pode ser medida em meia dúzia de carcaças - pensei!

Cândido Arouca
in “Escolhi ser Feliz”
lido por Graça Silva

SONHO QUE PASSA



SONHO QUE PASSA

A vida é sonho que passa,
Passa por nós a correr...
Por vezes, nem nos abraça,
Causa-nos tanto sofrer;
Na vida o que é preciso
É saber o sonho agarrar:
Perder um pouco o juízo
E nos deixar arrastar
Para onde nos leva o sonho,
Para onde nos quer levar!
A vida é sonho que passa
E nada a pode parar...
Na vida o que é preciso
É saber o sonho agarrar!

Albina Dias
in “Poetas de Sempre” - antologia - volume X
lido por Fernanda Santos

PERDIDO...



PERDIDO...

Perdido, numa estrada sem rumo
Sem nada para me orientar
Meus sonhos ali esfumo
Numa noite sem luar

Naquela noite escura
Não sei que caminho tomar
O que minha alma procura
E tanto tem para dar

Já cansado de caminhar
Continuando perdido
Sem nada para me abrigar
Pois fui perdendo o sentido

Já a noite acabou
Tendo o dia amanhecido
Desse caminhar nada ficou
Pois continuo perdido

Nunca perdi a calma
Nem tão pouco o sentido
A Deus a minha alma
Neste meu viver perdido...

Cm.pt
Celso Miranda
12/2018

LIBERTAÇÃO



LIBERTAÇÃO

Reprimo um grito silencioso que o vento levou,
o céu tempestuoso me toca e a chuva fria molhou,
veio um fantasma hirto lembrar que eu nada sou,
e ficou o caminho vazio para esquecer onde vou;

Não te procuro nem te abraço nessas tristes veredas
que me ofuscam no braseiro apagado das labaredas
rugindo o rosnar da fera ferida para que retrocedas
ao inferno onde enredaste as almas que lá hospedas;

Seguir-me-ás pelas fendas rendidas do meu pensamento
onde a obscuridade de um tempo se perdeu no destempo
e que o mar de choros e gritos roubados ao sentimento
será regozijo desfigurado e maléfico do meu tormento;

Joga! Joga sujo na restolhada fedorenta do teu ninho
lança as pedras aguçadas por esse teu olhar mesquinho
mas nada, sem peias nada me desviará do meu caminho
para sair do pantanal e encontrar paz no meu escaninho.

Fernando Santos

Desnuda meus pensamentos



Desnuda meus pensamentos
Descobre as pétalas do meu corpo
E do perfume das rosas
Descobre
A incensa que tens de mim
Não a deixes cair nos espinhaços
Deixa que ele suba ao céu
Em forma de brisa
Desnuda este corpo
De mulher
E toca na minha pele
E deixa-me voar
Como uma ave rapina
No mar dos teus sonhos
Cinzela meu coração
Estanca o meu sangue
E aperfeiçoa-o
Enquanto minha alma vagueia
E agora sem mais demora
Desnuda meu corpo
E bebe do meu vinho
Porque nele há sim
O néctar dos deuses  
Faz deste inverno
Um verão de outrora
Agora e sem demora

Conceição Lages
in “Coletânea Galeria Vieira Portuense 2016”

Da linhagem de aventureiros(...)



Da linhagem de aventureiros, místicos, insurrectos
Repete-se a história de remar contra as correntes,
O fascínio de guerrear e de inventar trajectos,
Irrompendo nas subculturas, ameaças urgentes

Nos avanços e retrocessos da dinâmica imaterial,
Da têmpera e da capacidade de sobreviver,
Eles seguem a Ideia, no sóbrio esforço serial,
De novas soluções e práticas a revolver

Todos os impérios expiram, na sua monotonia
E a diversidade crítica os faz tremer,
No ímpeto contundente da utopia

Com a bagagem activista, política e artística
Saberão, mesmo no caos e em desarmonia,
Transformar o futuro, na pura acção catártica.

Nunes Zarel.leci
in “Sinapse”

CONTOS E VERSOS DO MEU CAMINHO



CONTOS E VERSOS DO MEU CAMINHO

Cuida ser útil e colaborante,
Ouve teu desejo e pensamento
Narra, versa, sê caminhante
Toma a tua vida com todo o alento.
Ousa aventuras no teu viver,
Saúda o teu progresso triunfante.

Escreve e regista o teu caminho

Vale-te da mestria ao escrever
Esse testemunho com alegria
Renega os atos de hipocrisia
Sobe na sabedoria, sabe aprender
O que a cidadania tem para oferecer.
Semeia pensamentos. Dá-os a ler.

Dá passos em frente procura vencer
Onde o silencia é a luz da cultura

Movimenta vontades que saibam crescer
Em passadas firmes de toda a existência
Um tempo é o que se está a viver.

Confia na estrada fá-la objetiva
Anima essa força de alma e coração
Memória desperta, ideia criativa.
Investe o teu saber, tua razão
No meio social em toda a vida
Habitua-te a ser célula da nação
Oferece a tua vida à razão.

- Utilização de todas as letras do título do livro, para início de cada verso.

José Faria

O ESCRITOR



O ESCRITOR

Hoje tornei-me num escultor
Por força do meu amor
O cinzel vou manobrar,
Mas há um pincel para pintar.

Uso também a pá e pica
E na minha alma a penica
Dos neurónios e neutrões, há uma
Montanha aos trambolhões
Que pretendo trabalhar
Com o cinzel para cinzelar
E o pincel para pintar.

Caminho ao encontro desse monte
Levo a tela e aguarela,
 E também uma tinta ressequida.
Mas o pincel não pinta nada,
A tinta está estragada
E faço uma montanha parida.

A montanha cinzelada
Tem lindas enseadas
Com arvoredo luzidio
E no sopé corre um rio
De água apressada
E no fundo maior
Toma banho a rapaziada
Que tinham jogado bola
E deixaram a um canto a sacola
Da lide escolar
Enquanto eu pintor
E por força do meu amor
Continuo a cinzelar e a pintar

A minha alma está engalanada
Limpa e asseada
Por esta natureza colorida
De que me posso queixar ó vida?
Que eu não tenho a escolher
E para terminar, não é só cinzelar e pintar
Mas sim: também escrever.
E se possível até morrer.

João Bernardo

NAS TUAS MÃOS



NAS TUAS MÃOS

Nas tuas mãos, beijei rosas
No teu rosto, me despi
Deixei pétalas de orvalho
No colo ande me encolhi.

E fomos um, num só dia
Esquecidos de sermos nós
Mas que importa, se num dia
Na roupagem de uma aurora
No amanhecer de um abraço
Viajámos uma vida?

Desatámos os enlaces
Soltámos nossos sentidos
Num espaço que foi nosso
Que importa, se por um dia?

Tivemos força de vento
Tivemos a mesma idade
Como dois adolescentes
Saltámos fora e pecámos.

Na tarde fértil em sonhos
Fogosos e desmedidos
Despimos os nossos medos
Arquivámos o passado
E abrimos os sorrisos.

Aida Duarte
in “Limpidez Ausente”

HINO À VIDA



HINO À VIDA

A vida, só por si, merece um belo hino!
Um hino à vida, em hino por viver.
Por muito que custe, por muito que se sofra!
Como é bom a vida! Tem mesmo que valer!
Como é bom ver um belo sol poente…
Um mar imenso, uma praia sem fim!
Um luar de prata, um campo verdejante,
Uma criança correndo em direção a mim!
Sentir o agradável perfume das flores,
Ouvir um belo canto, uma canção de amor!
Entrar numa igreja serena e tranquila,
E agradecer a vida ao nosso Criador!

Maria Antónia Ribeiro
Lido por Lourdes Alegria

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Poesia na Galeria 21-01-2019


Poesia na Galeria 19-01-2019

Maria de Lourdes Ferreira
 Alzira Santos
 Arnaldo Teixeira Santos
 Conceição Oliveira
 José Carlos Costa
 Irene Costa
 Manuela Caldeira
 Agostinho Costa

 Amândio Vasconcelos
 Agostinho Costa
 Livro de Goreti Dias para o sorteio
 Serigrafia "Tempestade no Douro" de António-Lino para o sorteio
 Fernanda Santos sorteada com a serigrafia
 Fernando Santos sorteado com um dos livros de Goreti Dias
Dina Magalhães sorteada com o segundo livros de Goreti Dias