sábado, 25 de agosto de 2018

AS GRUTAS



AS GRUTAS

O esplendor poisava solene sobre o mar. E — entre as duas pedras erguidas numa relação tão justa que é talvez ali o lugar da Balança onde o equilíbrio do homem com as coisas é medido — quase me cega a perfeição como um sol olhado de frente. Mas logo as águas verdes em sua transparência me diluem e eu mergulho tocando o silêncio azul e rápido dos peixes. Porém a beleza não é só solene mas também inumerável. De forma em forma vejo o mundo nascer e ser criado. Um grande rascasso vermelho passa em frente de mim que nunca antes o imaginara. Limpa, a luz recorta promontórios e rochedos. E tudo igual a um sonho extremamente lúcido e acordado. Sem dúvida um novo mundo nos pede novas palavras, porém é tão grande o silêncio e tão clara a transparência que eu muda encosto a minha cara na superfície das águas lisas como um chão.
As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim. Talvez eu vá ficando igual à almadilha da qual os pescadores dizem ser apenas água.
Estarão as coisas deslumbradas de ser elas? Quem me trouxe finalmente a este lugar? Ressoa a vaga no interior da gruta rouca e a maré retirando deixou redondo e doirado o quarto de areia e pedra. No centro da manhã, no centro do círculo do ar e do mar, no alto do penedo, no alto da coluna está poisada a rola branca do mar. Desertas surgem as pequenas praias. Um fio invisível de deslumbrado espanto me guia de gruta em gruta. Eis o mar e a luz vistos por dentro. Terror de penetrar na habitação secreta da beleza, terror de ver o que nem em sonhos eu ousara ver, terror de olhar de frente as imagens mais interiores a mim do que o meu próprio pensamento. Deslizam os meus ombros cercados de água e plantas roxas. Atravesso gargantas de pedra e a arquitectura do labirinto paira roída sobre o verde. Colunas de sombra e luz suportam céu e terra. As anémonas rodeiam a grande sala de água onde os meus dedos tocam a areia rosada do fundo. E abro bem os olhos no silêncio líquido e verde onde rápidos, rápidos fogem de mim os peixes. Arcos e rosáceas suportam e desenham a claridade dos espaços matutinos. Os palácios do rei do mar escorrem luz e água. Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu.
O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam.
E eis que entro na gruta mais interior e mais cavada. Sombrias e azuis são águas e paredes. Eu quereria poisar como uma rosa sobre o mar o meu amor neste silêncio. Quereria que o contivesse para sempre o círculo de espanto e de medusas. Aqui um líquido sol fosforescente e verde irrompe dos abismos e surge em suas portas.
Mas já no mar exterior a luz rodeia a Balança. A linha das águas é lisa e limpa como um vidro. O azul recorta os promontórios aureolados de glória matinal. Tudo está vestido de solenidade e de nudez. Ali eu quereria chorar de gratidão com a cara encostada contra as pedras.

Sophia de Mello Breyner Andresen
in “LIVRO SEXTO”
(Moraes Ed, 1962) e OBRA POÉTICA (Caminho, 2010; Assírio & Alvim, 2015)
Lido por Manuela Caldeira

BATALHAS DA VIDA



BATALHAS DA VIDA

Os campos rodeados de flores,
O som da água do rio
A bater contra o leito,
Este recanto que é só nosso
Onde passamos tempos memoráveis,
Esta bela paisagem
Corresponde ao enlace
Das nossas vidas.
Esta paz, que nos sensibiliza.
Toda esta nostalgia embebeda-nos
Como uma bela pintura
Em que passamos horas,
Intermináveis a admirá-la.
Quando nos sentimos frágeis
Vimos sempre a este lugar,
Porque tem um oculto magnetismo
Em nossas vidas
E nos dá forcas para superar
Nossas dificuldades, nossos problemas.
E quando partimos,
Partimos mais livres,
Mais seguros de nós mesmos
E conscientes que ganhamos
Mais uma batalha,
Entre todas as batalhas
Da nossa vida.

Mário Anselmo
in “O Silencio das palavras”

PRESSÁGIO



PRESSÁGIO 

Um barco apinhado,
a sede transpira
nos rostos suados,
onde ides ó fugitivos?
a Europa não vos quer.
Olha apenas
a sua barriga farta,
o medo fica estático
detrás de muros medonhos
de indiferença recalcada.
A fome é maior que tudo,
um dia os muros cairão
à força dos desequilíbrios.
A Itália chorará, Chipre,
Grécia, Turquia, Áustria,
Polónia, República Checa,
vandalizados por vilipandiados
a quem retiraram tudo,
até a esperança.

Maria Olinda Sol
Lido por Agostinho Costa

Sr. JOAQUIM D'ACERCA



Sr. JOAQUIM D'ACERCA

Um carro de bois cantante,
Acordando a madrugada,
Passa à minha porta, e num instante
Perde-se nos campos, perdida a estrada.

É o Joaquim d'Acerca que, cedo,
Em ritmada passada,
Perdendo o respeito ao medo
Sobressalta a madrugada.

Com o barulho, um jovem casal acorda,
Então, o marido a esposa aborda
E diz-lhe, pondo no olhar aceso brilho:

"Maria, como inda é cedo para trabuquir
E tarde para voltar a dormir,
Olha, vamos fazer mais um filho!..."

Manuel Maia
in “Heróis da minha terra”

CANÇÃO DO EXÍLIO



CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em  cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar sozinho, à noite
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá. 

Gonçalves Dias
De Primeiros cantos (1847)
Lido por Constância Nèry

CAÍDA



CAÍDA

Tantas as quedas
quanta a imprecisão do ser
e o desnorte do rumo

ofereço-me à polémica essência dos silêncios,
solidão da carne
por entre a manada,
rebanho informe a rodear-me.

Traço a firmeza
no charco.

Pegadas de risos.

Caída sim,
na lentidão das pedras,
o levantar.

Cheiros nauseabundos
e o gado a cercar-me.

É sempre assim:
nova tentativa,
outro impulso,
o recomeçar.

Sacudo a poeira,
liberto o lodo,

e retomo o meu chão.


Conceição Oliveira
in “Jogos Florais da Murtosa 2015”

SOU APENAS



SOU APENAS

Sou apenas uma cópia do meu eu
Uma viajante de passagem
Deixando a marca por onde passa.

Sou apenas uma cópia do meu eu
uma viajante de passagem
deixando a marca por onde passa.

Sou apenas uma pedra no chão
repisada pela caminhada louca
das horas que voam.

Sou apenas uma gota num lago
que transborda com a enchente
das minhas lágrimas.

Sou apenas uma alma
a que chora e sente
a injustiça perpetuada.

Sou apenas uma sobrevivente
do tempo que se esvai
por entre os meus dedos.

Sou apenas eu mesma
renascida ontem
renascida hoje
cantando o amanha.

Natália Vale
in “Palavras de Veludo” - 1.ª Antologia Poética
lido por Ester de Sousa e Sá

QUE ACÇÃO HORRENDA!



QUE ACÇÃO HORRENDA!

Dava eu o meu ser, tão livremente,
No asseio, no enfeite sem contenda:
Dava o suor que ofereci alegremente,
Quando triste recebi, ação horrenda.

Era a festa popular da nossa gente,
Num salão que humanitário vos prenda,
Quando a alegria, os sorrisos docemente,
Feneceram deparando ação horrenda:

Sobre mim caiu um dirigente (!)
Que arruaceiro grupo deu à cena:
Um amante da agressão, nisso exigente,
Deste pobre brutamontes tive pena!

Provocava p'ra agressão, fisicamente;
Por prazer inconsciente de armar tenda.
Gesticulava o ignorante que ódio sente,
Eu amansando procurava dar-lhe emenda.

Se não houvesse em mim calma aparente,
E fácil fosse em mim se abrir a fenda:
Andaríamos os dois raivosamente,
Enleados como cães. Que ação horrenda!

José Faria
Lido Maria Teresa Lopes

FOI POR VÓS



FOI POR VÓS
(às vezes escrever dói)

Foi por vós,
esquecido tantas vezes de mim
que escrevi, para lembrança futura
acentuando ‘presente sem retorno,
combates em versos perigosos.

Foi por vós,
que me fiz pilar duma ponte aérea
ao carregar caixotes com dono,
e assistindo noites, severa a vigília,
lavei com pranto rastos no alcatrão.

Foi por vós,
também por ela, igualmente por ti,
que me obriguei a ser trovador
cantando histórias com verdade
q’outros vindo as negaram mentindo.

Foi por vós,
e também por ela, chegado o fim,
percebi nunca ter atentado em mim.

Foi e é por vós,
e por ela, que ainda estou por aqui (!)

Cito Loio
1975 a 2018
(Memórias do Inácio)

SONETO: A PRENDA



SONETO: A PRENDA

Envia-me uma prenda para que a minha esperança sobreviva
ou os meus pensamentos ansiosos possam dormir e repousar;
envia-me algum mel para adoçar a minha colmeia,
para que nas minhas paixões possa esperar pelo melhor.
Não te peço uma fita tecida pelas tuas mãos,
para tecer os nossos amores no maravilhoso esforço
da juventude agora emocionada, nem um anel para mostrar
a situação do nosso afecto que, como este, é redondo e simples,
assim na simplicidade, deveriam encontrar-se os nossos amores.
Não, nem os corais que envolvem o teu pulso,
entrelaçados, juntos, para que venham mostrar
aos nossos pensamentos como deviam ficar unidos.
Não, nem o teu retrato ainda que tão gracioso
e atraente, porque o que é melhor é do melhor que gosta;
nem os engenhosos versos que tantos são
entre os escritos que tu me enviaste.

Tudo o que de ti já possuo é para mim suficiente:
Jura apenas acreditares como te amo, e nada mais.

John Donne
in “Poemas”
lido por Maria Augusta da Silva Neves

Orfeu Rebelde



Orfeu Rebelde

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam os rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

                        Miguel Torga
in “Poesia Completa” vol II.
lido por Maria Afonso Morais

DOURO DO FADO E DA POESIA



DOURO DO FADO E DA POESIA

O Douro vem a chorar,
Junto à Arrábida, por temer;
O seu fim que está a chegar,
Quando no mar se envolver.

Depois de tanto lutar,
Passo a passo e a correr;
Ainda sorri a abraçar,
Porto e Gaia a agradecer

Das pontes e da alegria,
De todas as ligações;
De abraço sem igual

Rio de fado e poesia
Neste país de Camões,
Que se chama Portugal.

José Faria

VER E SENTIR



VER E SENTIR

O que eu vejo
De tudo um pouco
Tudo o que podemos imaginar
Flores nos campos
Árvores nas montanhas
E rios a desaguarem no mar

O que eu vejo
Talvez passe despercebido
Talvez esteja oculto
Entre muros e barreiras
Que é este mundo vendado
Que já não conhece fronteiras

O que eu vejo
Não é uma ilusão
É mesmo realidade
Quer dizer
O mundo está em transição
E as pessoas não querem saber
Só querem competir
Só ocultam a verdade

O que eu vejo
Até tu o podes ver
Ver tudo
Se souberes olhar
Sentir tudo
Se souberes apreciar
Entendes o que quero dizer?
São tudo coisas
Que estão ao nosso alcance
Estão mesmo à nossa frente
E fazem parte do nosso viver

Fernando Sardoal
in “Palavras do meu caminho”
lido por Isabel Moura

"A SOLIDÃO DÓI..."



"A SOLIDÃO DÓI..."

"A Solidão Dói..." e recordas a sonhar...
no afago daquele Abraço...

"A Solidão Dói..." chora o coração em lamento...
pelo desamparo e sofrimento do isolamento...
mas, não estás só, tem Fé... estás com "o PAI Divino!..."
e, "Tu és Gente!" estás contigo!

"A Solidão Dói..." mas, olha em teu redor...
há sempre alguém, bem pior.
Eu sei... cada pessoa sente a sua dor...
mas, não desesperes... e vive a Vida com esperança...
"depois da tempestade... vem a bonança!.»"

"A Solidão Dói..." e ficas a recordar com mágoa e saudade...
os momentos de felicidade em afectos de cúmplice
reciprocidade...
"A Solidão Dói..." e ficas a recordar com mágoa e saudade...
o doce aconchego de amor... a tua companhia amiga e querida
de uma inesquecível e feliz Vida!...

"A Solidão Dói..." e quem nunca sentiu, vive e viveu...
a dura mágoa... da saudade? Já todos, a sentimos e vivemos...
infelizmente, "na pungente dor da adversidade..."

"A Solidão Dói..." mas, "com força e coragem..."
Agarra-te à Vida!" e, pela dádiva... dessa tua Vida!
A DEUS, "fica agradecida!"

"Amiga", nunca estás só. "Tu és Gente!" estás contigo!
e, "estás Viva!"
Mas, "A Solidão Dói..." no viver desvanecido...
sofrido no choro... "de lágrimas de saudade..."

Helena Maria Simões Duarte
Co-autora no livro SOLAR DE POETAS "Colectânea II"

SOU SELVAGEM



SOU SELVAGEM

Sou Selvagem
Sou homem
Sou guerreiro
Não gosto de civilizações
Sou herdeiro
Sou Tribo
Sou arqueiro
Defendo o meu Clã
Luto na Frente
Sou verdadeiro
Caço
Mato
Alimento as nossas Crias
E nossas famílias
Danço a Chuva
Ao vento
Ao sol
Banho-me no rio
O tempo inteiro
Canto
Sou selvagem

José Guterres
in “O Poeta Perdido”

ATE UM DIA



ATE UM DIA

Quantos kms faz com um litro?
Quanto gasta aos cem?

Eis a preocupação da relação
entre o gasto e a produção,
mas, eis uma nova questão:
quantos poemas se fazem
apenas com uma sopa
ou com um simples pão?

Um carro não anda sem energia!

Barriga vazia faz poesia
da boa?

Quanta poesia
não se faria só com um quilo de broa?

Por acaso,
sim por acaso,
sabeis vós da poesia
das barrigas vazias
dos poetas esqueléticos da Etiópia,
da Eritreia ou do Sudão?

Que poesia há e se lê nesses corpos,
que se arrastam pelo chão?

As pontas dos seus ossos
são lanças
que se cravam nos nossos corpos!

Terão falta de canetas?
falta de tinta?
falta de papel?
informação sobre a rima dos sonetos?

Não,
se desses esqueléticos corpos,
pretos,
o espírito
ainda tivesse força de expressão,
a primeira palavra,
o primeiro verso que diria seria;
-"dai-nos pão"

Povos que vivem de rastos,
sem restos do nosso pão,
enquanto nós;
poetas de barrigas cheias,
fazemos poesia
sobre quem tem barriga vazia,
na Eritreia, Etiópia ou Sudão!

Até um dia,
até um dia.

Até que povos,
que nesse estado estão,
dêem tareia aos poetas de barriga cheia"

Mas,
voltando à questão inicial;
da preocupação da relação
entre o gasto e a produção,
pergunto:
quantos versos os poetas da Etiópia,
da Eritreia ou do Sudão,
não fariam com uma simples sopa,
com um simples pão?

Silvino Figueiredo
in “Pedaços de mim”

PINTEI O MUNDO



PINTEI O MUNDO

Pintei o mundo de aguarelas
Na beleza de multicores
Enchi o meu jardim onde estás tu
Com variadas e belas flores
A rosa vermelha simboliza o amor
A que te ofereci vai murchando
Mas não o nosso sentimento
Pois sei que te estou amando
Momentos que não vou esquecer
Os que passei sempre contigo
Sempre no teu terno querer
Com mimos que nunca tinha tido
Os beijos que eu senti de prazer
Foram o tónico de envolvimento
Do que fiz com uma linda mulher
Jamais sentirei arrependimento
Unidos pela mesma força de amor
Criado por uma enorme empatia
Tenho o meu coração aberto
Pela chave da tua simpatia.

António Gonçalves
in “O meu lado Romântico”

A PUREZA DO PRINCÍPIO



A PUREZA DO PRINCÍPIO

Um mundo de loucura
espreita por entre
os mais recônditos
lugares.

Todos os atalhos têm
de ser procurados.
Todo o ar
tem de ser renovado.

É necessária a pureza
do princípio.

Respiremos com energia
a beleza do nada.

Céu Guedes
in “Coletânea Galeria Vieira Portuense 2017”
Lido por Fernanda Rosas

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

CANSEI DE MIM



CANSEI DE MIM

Queria um ouvido que me escutasse,
Um ombro para me recostar,
Uma mão que as minhas segurasse,...
E soubesse me confortar.
Estou cansado dos meus sonhos,
Estou cansado dos meus caminhos,
Pensei que o caminho era de rosas,
Porem ele é feito de espinhos.
Queria que alguém entendesse o que eu falo,
Queria que alguém entendesse quando eu calo,
Queria que entendessem meu sorriso,
Queria que entendessem o que eu preciso.
Estou cansado deste longo caminho,
Sem flores e sem direção,
Cansei de falsos amigos
E de sua ambição.
Queria que alguém me escutasse
Sem me recriminar,
E entendesse onde eu queria chegar,
E por que eu parei sem vontade de andar.
Queria que o tempo parasse,
Que o Sol não queimasse,
E a Lua não ficasse triste,
Queria que a tristeza não existisse,
Nem a fome, nem o abandono.
Não queria animais sem donos.
Queria que todas as lágrimas secassem,
E que o mundo voltasse a sorrir,
Crianças brincando, casais namorando,
Idosos passeando, e o tempo passando...
Cansei dos meus sonhos,
Cansei dos meus caminhos,
Cansei de mim,
Cansei de tudo que tentei em fim,
Simplesmente cansei assim.

Maria Augusta Monteiro

NA BIBLIOTECA



NA BIBLIOTECA

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.

Manuel António Pina
in “Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal”
lido por Céu Guedes

QUERO UM MUNDO MELHOR



QUERO UM MUNDO MELHOR

Quando eu for grande,
Já for homem e for valente,
Vou avisar toda a gente:
Façam um mundo melhor!

Quando eu for grande,
Vou ser um homem exigente,
Vou querer um mundo diferente,
Com mais justiça e amor.

Quando eu for grande,
Tenham isso bem presente;
Vou exigir fortemente,
O mundo humano maior!

José Faria
in “Atalhos”
lido por Carlos Gomes

Ela é a alta montanha




Ela é a alta montanha
E a paisagem que de lá se vislumbra
Ela é o canto da cotovia
A luz em noite escura.

Ela é o arco-íris
Sorriso que apaixona
Ela é o cuco que anuncia
A chegada da vitória.

Ela é o som que embala
E que faz dançar
Ela é a flor que brota
Num jardim por semear.

Ela é veludo,
Sinfonia que embala o vento
Ela é o branco da bruma
Pede-a em casamento.

Segura a minha mão
Prende-me ao teu ventre
Sou escultura dura
Preso ao teu corpo para sempre.

Segura o meu coração
Prende-me ao teu respirar
Sou a lava de um vulcão
Que explode só de te olhar.

Lígia Silva
in “Margens de Mim”
lido por Beatriz Maia