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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

GATO SOBREVIVENTE


GATO SOBREVIVENTE

Ao jantar os filhos
perguntam quanto tempo falta para o mundo acabar.
- Os filhos perguntam quanto tempo falta
para o pai acabar. Perguntam
quanto tempo lhes falta para acabarem.
Em resposta faço-lhes o prato
com vegetais e peixe e hidratos de imprecisão
dou-lhes palavras que nunca mais acabam palavras
oleosas, emaranhadas nas facas, nos garfos
que deixam marca nos copos e nos guardanapos.
Digo-lhes que se despachem
que já falta pouco para fecharem os olhos
e poder mergulhar em cada um dos peitos minúsculos
para lhes polir o coração que nunca acaba.

Os filhos perguntam qual é o rating da vida
perguntam qual é o spread do amor
em que clube joga o fmi
quando entrará em erupção o primeiro-ministro
por que é que os vulcões não pagam portagem
de que lado ficam o máximo e o mínimo do oriente médio
se algum dia as estrelas serão condenadas
por trazerem cancro à alma dos meninos condenados
e que investigador descobrirá uma cura a sério
ou que cura descobrirá um investigador a sério, porque
os filhos gostam de brincar com as palavras
que nunca acabam. Perguntam se
algum dia lhes comprarei as possibilidades
que viram anunciadas no intervalo das certezas.

Ao jantar os filhos perguntam se o destino também
é corrupto, se aceita subornos.
Cercados pela imagem de uma ambulância incandescente
debruçada sobre um curioso gato que não morreu
os filhos perguntam
depois da morte o que há de sobremesa?

Renato Filipe Cardoso
in “Aprendiz de dourado”

lido por Manuela Carneiro

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Poesia na Galeria 21 de Outubro

 Manuela Carneiro
 Dulce Morais
 Goreti Dias
 Dionísio Dinis
 Artur Cardoso
 Fátima Cardoso
 Silvino Figueiredo
 Alzira Santos
 Kim Berlusa
 Fernanda Cardoso
 Maria de Lourdes Ferreira
Ana Maria Oliveira

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Há um rancor que brota das coisas paradas



Há um rancor que brota das coisas paradas
Tenho esse germe comigo, epidémico e impune

Tudo é mais belo de dentro deste cárcere, as asas
Tudo é lá fora qualquer espécie de desígnio, largueza

Em mim, é o musgo, são as mãos impossíveis e gradeadas
Rodam parafusos de fungos, larvas escorregadas de unguentos

Cravo essa humildade sangrada no ferro das avantesmas,
o cárcere insalubre que ascende trespassado o pus

O tempo avança recuado de paredes eternamente fuliginosas
Ascendo-as de unhas pela insipiência granítica dos ossos

Talvez lá fora qualquer luar de veludo e as minhas asas, portas
Talvez qualquer sonho varejado de mariposas livres, espiráculo

Arrisco as fachadas, as evasões e os mortes que recobram
Deito-os em mantos de areia na esperança das vagas, cubro-os

Insistem o sal, os urinóis fétidos esvoaçados de traças

Fundamento a temporização desse voo oblíquo e sulfuroso,
o deslizamento dos telhados pelas poeiras levitadas

Ide-vos, fujam

Os símbolos descrevem a repetição pelas miragens apegadas,
as sombras que resvalam caleiras dissecadas e titubeiam nomes,
teimam ampulhetas coagulam de gestos, chaves

Ficam

Os sons das asas escrevem em mim certos nomes contínuos
Insisto-os pelas lápides descarnadas, minhas frases de pássaro
Talvez um dia voe e saiba ler-me sem palavras, flutue

Tudo é mais sentido de dentro deste cárcere, o vento

Urdo gritos de lã no coração das gárgulas e pereço a pedra
Morro em cada dia as larvas pelas travessias sepultadas

Sofro estas gaiolas eternas nas asas dos meus braços, o ferro,
os alfinetes perfurados nas córneas que ditam as estrelas

Sofro o estigma das paredes invisíveis, o firmamento, as luas
A distância entre as asas e os gestos, o chão da minha água

13 de maio 2014 
Manuela Carneiro

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

POESIA NA GALERIA

Manuela Carneiro
Teresa Gonçalves
Lourdes dos Anjos
Fernando Morais
Emília Costa
Manuel Maia
Irene Silva
Irene Costa
Bi Rodrigues
António D. Lima
Angelino Silva
Conceição Lages