Mostrar mensagens com a etiqueta Zé Neto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Zé Neto. Mostrar todas as mensagens

sábado, 5 de abril de 2014

O GÉNESIS



O GÉNESIS

Jeová, por alcunha antiga - o Padre Eterno,
Deus muitíssimo padre e muito pouco eterno,
Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz:
Pôs-se a esgravatar co’o dedo no nariz,
Tirou desse nariz o que um nariz encerra,
Deitou isso depois cá baixo, e fez-se a Terra.
Em seguida tirou da cabeça o chapéu.
Pô-lo em cima da Terra, e zás, formou o céu.
Mas o chapéu azul do Padre Omnipotente
Era um velho penante, um penante indecente,
Já muito carcomido e muito esburacado,
E eis aí porque o Céu ficou todo estrelado.
Depois o Criador (honra lhe seja feita!)
Achou a sua obra uma obra imperfeita,
Mundo sarrafaçal, globo de fancaria,
Que nem um aprendiz de Deus assinaria,
E furioso escarrou no mundo sublunar,
E a saliva ao cair na Terra fez o mar.
Depois, para que a igreja arranjasse entre os povos
Com bulas da cruzada, alguns cruzados novos,
E Tartufo pudesse inda dessa maneira
Jejuar, sem comer de carne à sexta-feira,
Jeová fez então para a crença devota
A enguia, o bacalhau e a pescada-marmota.
Em seguida meteu a mão pelo socavo,
Mais profundo e maior que a caverna de Caco,
E arrancando de lá parasitas estranhos,
De toda a qualidade e todos os tamanhos,
Lançou-os sobre a Terra, e deste modo insonte
Fez ele o megatério e fez o mastodonte.
Depois, para provar em suma quanto pode
Um Criador, tirou dois pêlos do bigode,
Cortou-os em milhões e milhões de bocados,
(Obra em que ele estragou quatrocentos machados)
Dispersou-os no globo, e foi desta maneira
Que nasceu o carvalho, o plátano e a palmeira.
..............................................................................
Por fim com barro vil, assombro da olaria!,
O que é que imaginais que o Criador faria?
Um pote? não; um bicho, um bípede com rabo,
A que uns chamam Adão e outros Simão. Ao cabo
O pobre Criador sentindo-se já fraco,
(Coitado, tinha feito o universo e um macaco
Em seis dias!) pensou: Deixemo-nos de asneiras,
Trago já uma dor horrível nas cadeiras,
Fastio... Isto dá cabo até de uma pessoa...
Nada, toca a dormir uma sonata boa!-
Descalçou-se, tirou os óc’los e o chinó,
Pitadeou com delícia alguns trovões em pó,
Abriu, para cair num sono repentino,
O alfarrábio chamado o livro do Destino,
E enflanelando bem a carcaça caduca,
Com o barrete azul-celeste até à nuca,
Fez ortodoxamente o seu sinal da cruz
Como qualquer de nós, tossiu, soprou à luz,
E de pança pró ar, num repoiso bendito,
Espojou-se, estirou-se ao longo do infinito
Num imenso enxergão de névoa e luz doirada.

E até hoje, que eu saiba, inda não fez mais nada.

Guerra Junqueiro
in “A Velhice do Padre Eterno”
lido por Zé Neto

quarta-feira, 26 de março de 2014

PARASITAS



PARASITAS

No meio duma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar, em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,
Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,
Que andais pelo universo há mil e tantos anos,
Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

Guerra Junqueiro
in “A Velhice do Padre Eterno”
lido por Zé NetoZ

quarta-feira, 19 de março de 2014

POESIA NA GALERIA 15 de Março

 Emília Costa
 Emília Costa
 Zé Neto
 Zé Neto
 Lourdes dos Anjos
 Lourdes dos Anjos
 Angelino Silva
 Angelino Silva
 Conceição Lages
 Conceição Lages
 Miguel Leitão
 Miguel Leitão
 Alice Queiroz
 Alice Queiroz
 Rogério Barbosa
 Rogério Barbosa
 Maria Augusta da Silva Neves
 Maria Augusta da Silva Neves
 Irene Costa
 Irene Costa
 Manuel Maia
 Manuel Maia
 Luís Pedro Viana
Luís Pedro Viana

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

PROBLEMA, PROBLEMAS & C.ª




Não há faroleiro os rochedos são perigosos
o mar sem distância é aventura
promessa de peixe
certeza de fome.

PROBLEMA, PROBLEMAS & C.ª

Os problemas escolares
os problemas caseiros
os problemas primários
os problemas primeiros
os problemas de trânsito
os problemas transitórios
os problemas internos
os problemas externos
os problemas à vista
os problemas de vista
os problemas da vista
os problemas dos outros
os outros sem problemas
os problemas fronteiros
os problemas do lado
os problemas traseiros
os problemas locais
os problemas dos filhos
os problemas dos pais
os problemas de amor
o amor aos problemas
os problemas financeiros
os problemas políticos
os problemas reais
os problemas impingidos
os problemas da vida
os problemas da morte
os problemas por tudo
os problemas por nada
os problemas raciais
os problemas de merda
a merda dos problemas

Mendes de Carvalho
in “800 anos de Poesia Portuguesa”
lido por Zé Neto

sábado, 22 de fevereiro de 2014

POESIA NA GALERIA 15.02

 Zé Neto
 Maria Antónia Ribeiro
 Acilda Almeida
 Lúcia Alves
 Luís Pedro Viana
 Manuela Caldeira
 Alice Santos
 Maria Antónia Ribeiro
 Aires Barros
 Aires Barros

 Lourdes Alegria foi a sorteada da sessão