terça-feira, 25 de junho de 2019

Vazante



Vazante

Um ruído ensurdecedor, pleno e distante.
Escuto o marulhar das ondas em transversalidades impiedosas e cortantes.
Há um chocalhar diferente nas pedras que arrastam búzios e conchas. Debruço-me no foco de luz esfuziante que incendeia a via láctea projetando no mar aquela madrugada. Observo o luar. Recuo do brilho que me fere o olhar.
Da lua, grávida e dependurada, saem rasgos incandescentes que penetram as águas profundas. E um turbilhão de pedras chocalha forte na muralha empedernida! Trouxe com ela a serra granítica. A mica, enamorada, esventra o quartzo para evidenciar seu brilho. O feldspato sorri cúmplice. Não há noite.
O dia prolongou-se no rasto endémico daquela lua cheia e brilhante.
Nos olhos das sereias e dos navegantes solitários cresce o doer da claridade toda. Amanhã não haverá dia porque a maré, cheia e viva, completará o ciclo. A lua exibe-se inteira, empoleirada num círculo de prata. E canta, clareada a noite...
É a vazante decidida que parte para outro hemisfério.
Partiremos juntas.

Conceição Oliveira
in “Da Raiz”

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