Vazante
Um ruído ensurdecedor,
pleno e distante.
Escuto o marulhar das
ondas em transversalidades impiedosas e cortantes.
Há um chocalhar diferente
nas pedras que arrastam búzios e conchas. Debruço-me no foco de luz esfuziante
que incendeia a via láctea projetando no mar aquela madrugada. Observo o luar.
Recuo do brilho que me fere o olhar.
Da lua, grávida e
dependurada, saem rasgos incandescentes que penetram as águas profundas. E um
turbilhão de pedras chocalha forte na muralha empedernida! Trouxe com ela a
serra granítica. A mica, enamorada, esventra o quartzo para evidenciar seu
brilho. O feldspato sorri cúmplice. Não há noite.
O dia prolongou-se no
rasto endémico daquela lua cheia e brilhante.
Nos olhos das sereias e
dos navegantes solitários cresce o doer da claridade toda. Amanhã não haverá
dia porque a maré, cheia e viva, completará o ciclo. A lua exibe-se inteira,
empoleirada num círculo de prata. E canta, clareada a noite...
É a vazante decidida que
parte para outro hemisfério.
Partiremos juntas.
Conceição Oliveira
in “Da Raiz”
Sem comentários:
Enviar um comentário