POEMA PRIMEIRO
Gosto-te. E desta certeza
se abre a manhã como uma
imensa
rosa de desejo
indestrutível. O futuro
é o próximo minuto, para
além
da infatigável religião
dos meus
versos,
em cuja luz me acendo,
feliz e nu.
O meu sorriso conhece a
bondade
dos animais, o poder
frágil das corolas,
e repete o nome feminino
dos arcanjos de
peitos redondos, perfumados
pelas giestas dos
caminhos
do céu.
Gosto-te. Amarrado
elos meus braços de
beduíno do sol,
pobre senhor dos
desertos,
profeta da distância que
há dentro das palavras,
onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende
até à orla
da mais inquieta
serenidade.
Gosto-te. E tenho sido
feliz, por nunca ter
seguido os trilhos
que me quiseram destinar.
Aqui
e ali me pergunto,
despudoradamente. E sei
que não sei mentir. É por
isso,
que recolho na face a luz
imprescindível
ao orgulho dos peixes
e dos frutos.
Gosto-te. Na-na-na, na-ô…
Na-na-na, na-ô… na nô…
canta o espírito do
caminho,
canta para mim e canta para
ti, eleva
o coração das grandes
árvores, coração
de seiva e de coragem,
sangue fresco e verde,
apaixonado
e doce,
de tanto contemplar o
perfil das tardes.
Gosto-te. Mas “longe”
é agora uma palavra
húmida, grávida,
onde os sinos da erva
tocam
para convocar as sílabas.
E,
ao procurar-te, tremo apenas
de ternura
para que nem mesmo a
inteligente brisa
da manhã
possa dar por mim.
Mais discreto que isto
é impossível.
Joaquim
Pessoa
in “Guardar o Fogo”
(Edições Esgotadas, 2013)
Lido
por Manuela Caldeira
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