domingo, 16 de fevereiro de 2020

Fernanda Guedes



PROMESSA DE NOIVADO

      Põe a tua mão  no meu coração,
diz que me amas como as árvores  dos bosques
               lá, nas colinas,
  se apoiam ao contorno dos montes.

         Apoiar-te-ei quando fores
      tronco e ramo florido
  e estarei a teu lado quando fores
          raiz, fruto e folha caindo.

SCOVELL (1907-1999)

In PARA Noivas

HELEN EXLEY

António Sá Gué


Medo

Ninguém sabia de ti
e eu encontrei-te.
Cavei,
arei,
meti as mãos dentro de mim,
fui ao fundo do mar,
remexi os arquétipos de nós,
revirei o universo dos outros,
aparei os raios das minhas trovoadas,
mas encontrei-te.
Encontrei-te, finalmente!
Vi-te na negritude da noite,
no silêncio da palavra,
no grito sem dor,
nos fósseis das ideias.
Eu sou tu.
Encontrei-te!
No fluir do sangue,
no mastigar de mim,
na síntese da vida,
no terror do Nada.
Toquei-te!
Sei, sem saber, que te toquei.
Saboreei-te!
Nos pingos
da dor ausente.
Tu és agridoce,
tu és eu.


António Sá Gué

Regina Bacelar


Sonha!

Inventa um alfabeto
De ilusões...
Um a-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições...

Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorria!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia...


Sonha!

Inventa um alfabeto
De ilusões...
Um a-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições...

Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorria!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia...

Miguel Torga

Leonor Reis


Trago dentro de mim esta cidade,
Num sonho sem limite, de asas feito…
E em cada mão, um grito, uma vontade,
Um poema a arder, que me incendeia o peito!...

Por este amor, num brado de ansiedade,
Levando este meu canto, insatisfeito…
Quero levar bem longe esta cidade,
Tornar mais largo, o sei caminho estreito!...

Que os meus versos, espalhem pelo Mundo
O nome da cidade que amo tanto,
É este o meu desejo mais profundo!...

Serei seu Mensageiro e Peregrino,
Pois erguendo à cidade este meu canto,
- Eu cumpro, fielmente, o meu destino!


Castro Reis

José Faria


LAVRADOR BENEMÉRITO

A história escreve-se com feitos nobres,
Unindo valores que a humanidade,
Gere o progresso em seu favor;
Usemos também a mesma faculdade.
Se Augusto Simões, na sua integridade,
Tudo fez pela Maia e pelo seu povo.
Olhemos o exemplo do grande senhor.

Soube à terra falar pedindo alimento,
Investindo progresso na nossa lavoura,
Manteve o trabalho, o contentamento,
O progresso para toda a Maia vindoura.
E a sua entrega, seu ensinamento,
Se manterá sempre duradoira.

Façamos dos passos dos antepassados,
E pelos seus feitos, doravante
Renovemos o valor dos seus legados,
Reconhecendo o que é mais importante.
E nos novos passos deste presente,
Icemos bem alto esta memória,
Renovando a força da nossa gente,
A grandeza de feitos da nossa história.

Deu-se à terra que o deu e o levou,
A terra recebeu tudo o que criou.

Sempre humilde, dedicado, criador,
Iluminou a agricultura de progresso;
Labutou, chegou a comendador,
Venceu a pobreza e o retrocesso,
Ainda amamos este lavrador.
 José Faria


José Oliveira Ribeiro


A SORTE

Vem ao meu encontro
Sempre que passes por mim
Mesmo que eu tenha a porta fechada…
Quero ver a tua força assim
Do nome que tens e tão desejada...
Porque entras na mente de todos
Que existem à face da terra
Que te querem ter…
E muitos não te tem; porque nunca os vistes
Ou para eles ainda está para nascer…
Mostra o teu talento e a tua aventura
E sempre que passes não fiques calada...
Calado é o silêncio que nem sempre dura
E o que nada dura não serve para nada…
Por isso vem ter comigo que te quero ter
Sempre durante toda a minha vida…
Quero sentir a força do teu ser
De uma sorte viva; não morta ou escondida.

José Oliveira Ribeiro

Alzira Santos


PARA GARCIA LORCA

O chapéu de três bicos
à las cinco de la tarde
que a guarda civil mostrava
planícies de couro e sol
tecidas do movimento da fala.

Era um pontapé no escuro
chama que nunca apagava
o sangue e as castanhetas
de repente entontecia
Espanha fria madrugada
da chuva que não caía
da sorte que lhe azarava.
Dos caminheiros sem fim
Federico Garcia Lorca foi preso pelas tropas nacionalistas 
e, sem qualquer acusação ou julgamento, 
sumariamente assassinado com um tiro na nuca, 
tendo o seu corpo sido abandonado na Sierra Nevada.
por montes esburacados
por bandeiras de setim
manchas de terra e trigo
e de uma gota de sangue
que de Goya se escapava
e de Ferrer se nutria.
Revolta popular em Madrid 3 de Maio de 1808, 
no tempo das invasões francesas que terminou 
com o massacre dos revoltosos. 
Essas bandeiras de fome
que a fartura de coragem
tanto levava adiante
de repente entontecia
fazia romper a aurora
rasgava de lume e beijos
do incêndio das paixões
e que à las cinco de la tarde
era de mais uma hora
era de mais uma hora…
Luzia o sol. Fundo feria
nesse chorar da guitarra
feria fundo e luzia
quebrava longe a campina
nenhum touro se avistava
e o horizonte bulia
e falava-se com terra
e com terra se cobria
a morte na madrugada.
Luzia a lua. Luzia
como fogachos de nada
na preta noite ferida
da distância e da lonjura
no grito da Estremadura.
O cigano emudecia
as marcas da mão gretada
e a lua sem compaixão
iluminada de nada
e nada que ali havia
que de Goya se escapava
e de Ferrer se nutria.
Francesc Ferrer i Guàrdia, foi executado na prisão de Montjuïc 
durante a lei marcial, acusado de ter sido o instigador da revolta 
conhecida como a Semana Trágica de Barcelona em 1909
Ai que nem um sino rompia
o silêncio de vinte anos
um frio, frio, fazia
chover calor pela aurora
e rebentar de paixões
de tanto lume na estrada
do braseiro no trigal
na quietude morena
de penhascos já tão gastos
e de grilos e de palha
e de MANUEL DE FALLA
que de Goya se escapava
e de Ferrer se nutria.
Manuel de Falla foi um compositor amigo de Lorca, 
que compôs “Amor Bruxo”, 
que inclui “Os sonhos de Goya”
Esse chapéu de três bicos
de três cornos se dizia
Luzia o sol. Sim. Luzia.


Fernando Morais

António Gonçalves

FUI SEMENTE

Um dia fui semente
Do sémen que meu Pai deu
Num jardim que minha Mãe floriu
De um esperma ela pariu
Num corpo se encarnou
Sou uma flor que nasceu
Com pétalas dos anos mudou
E no palco da vida cresceu
Regado no tempo amou
Que nas águas do Mar navegou
Nas velas que o vento levou
Num signo de peixe nadou
Que a chuva me purificou
Voei nas asas de abraços
Que criou em mim lindos traços
Fruto que o Sol amadureceu
Fez de mim o que hoje sou
Obra que na terra caminhou
Que no regaço do Mundo sonhou
Sou simplesmente eu
Quando morrer, para onde vou?

ESPINHO, 10 DE MARÇO DE 2018

ANTÓNIO RODRIGUES GONÇALVES

Graça Silva


sábado, 15 de fevereiro de 2020

Vítor Cordeiro


Ângelo Vaz


Lavrador de palavras I

O sol cega-me, a lua ilumina minha semente, guiando-as por terra arável pela noite dentro até ti!
Sigo caminhos de palavras, lançando sementes dentro de ti.
Tens que as regar quando a lua se deitar!
Não precisa de muita água…alguma lágrima que te caia, irá multiplicar-se pela terra fora…irá dar paladar a flores que saborearei sem sal!
Meu peito está estreito pela dor que me deu!
Alguém entrou no meu quarto, pensando que era outra pessoa.
Estava só e só fiquei com meu interior de palavras trocadas, querendo trocar meu corpo!
Lavrei palavras, pedi que as colhesses da terra mal arada e lembrei-me de Fernando Pessoa e de suas pedras no caminho!
Agora… só me resta retirar e vergar meu corpo, pontapear pedras para que eu siga em linha reta sem tropeções…fugindo e correndo até me faltar o ar com medo que me persegue dos brincalhões e aldrabões de sentimentos.
Vou lavar minhas mãos calejadas de palavras e vou-te levar uma flor regada com as lágrimas de teus olhos!

Ângelo Vaz

Lourdes Alegria

Recreios Campestres na Companhia de Marília

Olha, Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como são cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros a brincar por entre as flores?

Vê como ali beijando-se os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta, as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores!

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas flores a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurrando gira.

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo que vês, se eu te não vira,
Mais tristeza que a morte me causara.


                                          BOCAGE

Fernando Santos


SÃO VALENTIM (DIA DOS NAMORADOS)

Anda o mundo nesta loucura
de celebrar o dia dos namorados
todos numa corrida da procura
de prendas para amadas e amados;

Sorrisos de pura satisfação
que a noite vai ser de alegre doideira
depois de mimado o terno coração
e esvaziada a pobre da algibeira;

Porque a bagalhoça não é farta nem abunda
os jovens lá vão improvisando
fazem versos e cantam numa barafunda
e mensagens de amor vão trocando;

Mas é belo e terno vê-los contentes
em abraços e muitos beijos molhados
quartos de pizza para dar aos dentes
e umas cervejolas para os babados;

Fazem-se promessas de amor eterno
antes que o álcool lhes entonteça
e o frio das noites de inverno
lhes tirite os dentes e o corpo arrefeça;

Esta coisa do dia dos namorados
hoje em dia é caro p’ra caramba
mesmo para um lindo par de casados
é andar o resto do mês na corda bamba;

Atenção que para além da prenda e flores
há ainda o célebre jantar à luz de velas
que esta história de apaixonados amores
obriga a tratar os afetos como estrelas;

Depois de uma passeata ou um cinema
vem o resto da noite para os consolar
se no dia seguinte o trabalho é o tema
que se lixe porque alguém vai faltar;

Ao acordarem com olhos semicerrados
retomam alegremente a brincadeira
redobram o esforço em corpos molhados
tudo por culpa do raio da bebedeira;

Volta tudo de novo à normalidade
esquecendo promessas de amor eviterno
porque estas coisas numa certa idade
é difícil, ainda por cima no inverno;

Apela-se a todos os santos do amor
que não morra a paixão nos casais
cumpram uma vida de muito pundonor
porque, se Deus quiser, pró ano há mais.

Fernando Santos

Alzira Santos


PARA TI

Ouve-me por favor
Quero falar-te do meu Porto
Do Porto que eu vivi
Porto Velho e sujo! lembras-te daquela menina
Pobre e velha sem infância
Menina triste que sonhando
Percorria as tuas ruas e jardins
Buscando nas flores o amor
Acaso te lembras dessa menina
Rica em tristeza pobre em alegria

Jardim da Cordoaria
Jardim das criadas e magalas
Dos rufias e velhos senis
Prostitutas e maricas
Onde nós as pobres crianças pobres
Procurávamos flores e brincávamos
Ao pilha-galinha-choca
Ao Ana-Ina-Não
Ficas tu-eu-não (Mas eu ficava)
Ao bom barqueiro – deixa-me passar
Tenho-filhos-pequeninos-não-os-posso-criar…
… mas eu criava sonhos, sonhos tão grandes
tão grandes que se tornavam pesadelos…
… E a sonhar fugia para o lago, e com os patos
Repartia o meu pão; Cantava e chorava
Chorava as penas dos patos, as minhas penas.

Jardim da Cordoaria
Jardim dos meninos sem jardins
Dos meninos velhos sem infância
Sem janelas, sem sol, sem estrelas
Ao ver os pássaros voar chorava
Chorava por não poder voar
Ir pelo céu adentro
Ir até às estrelas
Ir onde houvesse jardins, com crianças
“mas crianças mesmo”
Ir não sei para onde, não sei…
O importante era ir
                        Ir e não fica ali esquecida.

Velho coreto aonde a banda tocava música
Música que eu não entendia
Música ao longe e sonhava
Sonhava uma gaiola sem grades
Quarto sem paredes, sem teto
Sonhava com o sol e as estrelas
Com a noite que eu tanto amava
Tu sabes o que é viver neste Porto?
Não no teu – mas no Meu
Com as suas noites cheias de sombras
e de histórias nas sombras.

Jardim do Soldado Desconhecido
Sempre te respeitei e temi
Hirto tão frio, tinha medo que acordasses
E me transformasse em estátua
Que frio eu sentia então:
… E o passarinho que lá encontrei
Cuidei dele com amor… pobrezinho
O meu amor era frio e não o aqueceu…
Chorei por ele “e por mim”
Teve por caixão, uma velha caixa de sapatos
dos meus velhos sapatos de ver a Deus.

Havia uma grande loja “O Chiado” lembras-te?
Fitas de mil cores, tanta coisa linda:
Fitas de mil cores… mas só para ver
Ver como te vejo a ti “na vitrine”
De  mil cores me vestia em pensamento
… Que outra coisa não podia ser
“Ouve sempre uma vitrine”

E a Praça dos Leões
Sempre cheia de estudantes.
Leões alados, onde estão as vossas asas
As vossas capas negras
Eles eram a força, o futuro, o saber
E saber eu as minhas limitações
Ai esta cobardia de anda saber
Porquê toda a ignorância
Se alojou em mim, porque foi?
e a casa dos botões, tanto brilha.
Meu senhor dez tostões de continhas de enfiar
… esterno, estremarei sentada numa almofada
a enfiar continhas d’ouro… solta cá  minha enfasada

O Bazar dos Três Vinténs…
“O burro vai à feira por três vinténs”
Maravilhoso mundo infantil
Das crianças-Bem-na-vida
Das crianças-família
Mas Não do meu mundo
Não do Porto que eu vivi
Não daqueles olhos tristes
Conformados ou revoltados, não sei
Lembras-te daquele narizito
Colado aos vidros das montras
“Por ironia contínuo de nariz colado
Achatado aos vidros da Montra da Vida”
Que chato, já o sinto chato
e é chato ver a vida correr além do vidro…

Igrejas do Carmo, São Bento, Congregados
Onde mulheres gastas
Cor das pedras, vendiam violetas
Crianças velhas por viver
Vendiam atacadores, pentes,
Esticadores prós colarinhos – quem quer?
Com seus pregões, feitos gemidos
Quem quer atacadores
                        Quem quer, quem quer…
                        “E ninguém queria, ninguém.

Palácio de Cristal
Ir lá era dia de festa
ver os cisnes no lago
Flores e os animais “mas presos como eu”
Comer língua da sogra, barquilhos
Um sorvete de dois tostões
“Do feitio do meu sonho, um barco”
A fava rica, pirolitos e com a bolinha
Jogava o berlinde, era bom…

Mas o mais difícil
É falar-te da minha rua
Não sei porquê; por vergonha, por pudor
Por receio de te chocar e perder
Mas porque minto…?
Talvez saiba
Tu não me reconheces lá?
Na minha rua prisão
Rua feia, rua escura
Rua de ventos e frio
Rua de ódios de raiva funda,
Calada, calcada dentro de mim
Rua sem calor nas almas feitas de pedras
Rua das vidas mal vividas
Vazias, despidas, dispersas
Vês-me lá? – Olha-me bem de frente
Reconheces-me? Só e pequenina
Feia e fria, pobre e velha
                        Diz-me – reconheces-me?

A minha rua
Rua suja, podre
Rua de pouca gente boa sem história
Rua sempre molhada, escorregadia
Rua da cadeia, das cadeias sem elos
que nos ligam à vida
Rua dos amantes sem amor
Do amor por tabela
Dos cães sem dono e sem coleira
Da miséria e podridão
Dos mendigos esperando as sopas
Rua das esperas, nas esquinas sombrias

Sou o que resta dessa rua sem sol
Da casa sem janelas, sem nada…
Vergonha de mim?
Ai!... Esta raiva calada, calcada toda uma vida
Tanta raiva que sufoca Meu Deus
Tanta raiva que sinto a baba a correr
Como a um cão raivoso que é preciso abater
Este espasmo, esta dor: é a raiva

… A minha rua é assim.
                        Som o resto da minha rua. 


Aurora Gaia

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Acilda Almeida

Foi por ti

Foi por ti que erigi os meus castelos
Foi por ti que corri contra o vento
E como Sísifo levei para diante
A pedra que me conduzia ao sofrimento.
Foi por ti que corri a direito
Impelida pelo sonho que acenava
E deixei para trás as minhas pérolas
Que em enlevo secretamente guardava.
Foi por ti que palmilhei o deserto
Em busca da planura procurada
E sem pejo engoli o travo do pó
Seduzida pela harmonia tão buscada!
Foi por ti que encarcerei as marés vivas
Que revoltosas buscavam a lisura
Foi por ti que corri olhando em frente
Esquecendo a verdade que fosse dura!
Por ti corei sem dizer nada
E depus meu véu que me resguardava
Em êxtase deliciei-me com meu novo eu
Que resplandecia e inebriado se encantava….
(Acilda Almeida)


Manuela Caldeira


Conceição Oliveira



É TARDE, MUITO TARDE DA NOITE

É tarde, muito tarde da noite,
trabalhei hoje muito, tive de sair, falei com vária gente,
voltei, ouço musica, estou terrivelmente cansado.
Exactamente terrivelmente com a sua banalidade
é o que pode dar a medida do meu cansaço.
Como estou cansado. De Ter trabalhado muito,
ter feito um grande esforço para depois
interessar-me por outras pessoas
quando estou cansado demais para me interessarem as pessoas.

É tarde, devia Ter-me deitado mais cedo,
há muito que devera estar a dormir.
Mas estou acordado com o meu cansaço
e a ouvir música. Desfeito de cansaço
incapaz de pensar, incapaz de olhar,
totalmente incapaz até de repousar á força de
cansaço. Um cansaço terrível
da vida, das pessoas, de mim, de tudo.
E fumo cigarro após cigarro no desespero
de estar tão cansado. E ouço música
(por sinal a sonata para violino e piano
de César Franck, e depois os Wesendonck Lieder)
num puro cansaço de dissolver-me
como Brunhilda ou como Isolda
no que não aceitarei nunca
l amor che muove il sole e l altre stelle.
Nada há de comum entre esse amor de que estou cansado,
e o outro que não ama, apenas queima e passa , e de cuja
dissolução no espaço e no tempo em que vivo
estou mais cansado ainda. Dissolvam-se essas damas
que eram princesas ou valquírias, se preferem, no eterno.
Eu estou cansado de não me dissolver
continuamente em cada instante da vida,
ou das pessoas, ou de mim, ou de tudo.
Qu ai-je á faire de l eternel? I live here.
Non abbiamo confusion. E aqui é que
morrerei danado de cansaço, como hoje estou
tão terrivelmente cansado.

(Jorge de Sena)

Fernanda Cardoso


História Antiga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
                                       
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.


Miguel Torga, in 'Antologia Poética'