sexta-feira, 22 de março de 2019

A VIDA



A Vida

Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor!
Ó olhos negros como noites, como poços!
Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos!
Ó puros como o céu! ó tristes como levas
De degredados!

    Ó Quarta-feira de Trevas!

Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
Ó velas do perdão! candeias da desgraça!
Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça!
Olhos accezos como altares de novena!
Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas,
Lume dos que no mar andam botando as linhas...
Ó pharolim da barra a guiar os navegantes!
Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes,
Mais os que vão na diligencia pela serra!
Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra!
Ó janellas de treva, abertas no teu rosto!
Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto!
Luas d'Estio! Luas negras de velludo!
Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo
Quanto ha de branco: véus de noivas, cal
Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal,
Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas
Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas!
Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas
Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas!
Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha...
Que são em preto os Olhos Verdes de Joanninha...
Olhos tranquillos e serenos como pias!
Olhos Christãos a orar, a orar Ave Marias
Cheias de Luz! Olhos sem par e sem irmãos,
Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos!
Estrellas do pastor! Olhos silenciozos,
E milagrozos, e misericordiozos,
Com os teus olhos nunca ha noites sem luar,
Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar!
Olhos negros! vós sois duas noites fechadas,
Ó olhos negros! como o céu das trovoadas...

Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes!
De que te serve ter uns astros sem eguaes?
Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves?
O mar a uivar! A espuma verde das marés!
Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja!
Toda uma cathedral de lutas, uma igreja
A arder entre clarões de coleras! O orgulho
Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho!
Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica!
Quantos lares sem lume e quanta gente rica!
Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias!
Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias!
Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças!
Quantos suores sem proveito! quantas taças
A trasbordar veneno em espumantes boccas!
Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas,
N'este macomio do Planeta! E as orfandades!
E os vapores no mar, doidos, ás tempestades!
E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia!
E aquella que não sae por ter uzada a saia!
E os que sossobram entre a vaidade e o dever!
E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer!
Olha essa procissão que passa: um torturado
De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado,
E para ser feliz fez todos os esforços...
Olha as insomnias d'uma noite de remorsos,
Como dez annos de prizão maior-cellular!
Olha esse tysico a tossir, á beira-mar...
Olha o bébé que teve Torre de coral
De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal,
Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada,
Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada!
Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas...
Olha essas rugas que têm certos diplomatas!
Olha esse olhar que têm os homens da politica!
Olha um artista a ler, soluçando, uma critica...
Olha esse que não tem talento e o julga ter
E aquelle outro que o tem... mas não sabe escrever!
Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade!
Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade!
Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos!
Olha um moço a chorar seus crueis desenganos!
Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal!
Olha aquelle que habita uma Torre de sal,
Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas,
Mas de outras que chorou, de lagrimas salgadas!
Olha um velhinho a carregar com a farinha
E o filho no arraial, jogando a vermelhinha!
Olha a sair a barra a galera _Gentil_
E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil!
Olha, acolá, no caes uma outra como chora:
É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!»
Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão...

Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção!

Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos,
Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos!
Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama,
Foi para ver, coitada! essa bola de lama
Que pelo espaço vae, leve como a andorinha,
A Terra!

    Ó meu amor! antes fosses ceguinha...

António Nobre
declamado por Maria Paulo Pereira

À MINHA NETA CLARINHA



À MINHA NETA CLARINHA

É tão pequenina
Esta menina!
Tão pequenita
Mas para mim é um sol
Em torno do qual
Todo o mundo gravita

Manuel Maia

A DEFESA DO POETA



A DEFESA DO POETA

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

Natália Correia
in “As Maçãs de  Orestes (Publ. Dom Quixote, 1970)
Lido por Manuela Caldeira

AMOR VERDADEIRO



AMOR VERDADEIRO

Depois do tormento
e da solidão,
sempre amesquinhado!
Gritos, violência,
mentiras indiferença
A vida que eu tinha…

Com alguém sonhava:
“Amanhã, talvez…
Uma outra vez…
Mas… será que posso?...”

Lutei e ganhei!
Livre finalmente!
Livre como o vento!

Um Amor gostaria,
P’ra ficar comigo.
Livre como eu,
leal, verdadeiro.
Meu porto de abrigo,
P’ra me proteger.

Unidos os dois
Num abraço forte!
Disfrutando a vida,
Que importam os outros?...

Unidos em tudo,
amantes eternos,
partilhando o futuro,
vivendo num sonho
de Amor Infinito!

E o tempo passando,
Entrega total,
sempre sempre juntos,
e o Amor presente.

E… envelhecendo,
olhando p’ra trás,
veremos com ternura,
nunca ter perdido,
um instante sequer,
sem o nosso amor,
Que esse, sempre dura

28/02
Isabel Félix

A invenção do Amor



A invenção do Amor

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares, à porta dos edifícios públicos, nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio
A descoberta
A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterrâneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou
A TV denúncia
iminente a captura
A polícia de costumes avisada
procura as dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se, amaram-se, perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los, dominá-los, convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escola
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto
Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência, onde quer que se escondam
ao temor do castigo

Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à policia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade,
o país, a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio, o habeas corpus, o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se, soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos
Água simples correndo
A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas
Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol, no silêncio das igrejas, nas boites com orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa,
Será então aí
Engatilhem as armas, invadam a casa, disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar
Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

Mas ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados
Que estais também perdidos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída
A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer
Matai-o
Amigo irmão que seja
Matai-o
Mesmo que tenha comido à vossa mesa e crescido a vosso lado
Matai-o
Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza liquida
até ao fim da noite
Evitai o apelo à prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procurem a mulher e o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas, salvo-condutos, horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade, do país, da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família, a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios
Crê-se
que a situação vai atingir o climax
e a polícia poderá cumprir o seu dever

Um homem uma mulher, um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio, a espera conivente, o medo inexplicado
a vida igual a sempre, conversas de negócios
esperanças de emprego, contrabando de drogas, aluguer de automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra afogar a distância
no corpo sem mistério, da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência um universo do amor
E é preciso encontrá-los
E é preciso encontrá-los

Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros, continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio pressago da cidade inimiga

Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em circulos fechados
impor a violência a tirania o ódio

Entretanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência

COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de ferro

É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não se preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública

Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio

Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático
e depois o homem e a mulher que a policia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado

SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA

Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
Escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta
É preciso resolvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual
Investigamos nos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção cientifica
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão,
deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço

Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica.

Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa
Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu

Esperam por ela em casa: duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos
Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade

Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas
Já não podem escapar
Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A policia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo
(Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée)

Daniel Filipe
in “A Invenção do Amor e Outros Poemas”
Lisboa, Presença, 1972
Lido por Agostinho Costa

IMPERFEIÇÃO



IMPERFEIÇÃO

Ó belo Narciso porque quiseste
Nas cristalinas águas te deter
Incauto porque assim te mantiveste
Num olhar o espelho sem te ter?

Porque assim o que eras apuseste
Nesse férvido abismo de perder
E não viste que o sonho que elegeste
Insanamente traria o não ser?

Ó imprudente Narciso que não viste
Não ser tua a anelada perfeição
Que esse brilho fugaz que cobiçaste

Era somente o esvair da razão...
Ainda assim ó jovem ainda que triste
Foste mais feliz que eu nessa ilusão...

Acilda Almeida

TALVEZ VÁ



TALVEZ VÁ

Talvez morra hoje e sozinho me vá
ou amanhã vitimado, sabe-se lá
de doença terrível, infernal a dor,
a tiro numa ruela de Portugal
só por vingança outro o culpado
sabido depois injusto o castigo.

Talvez morra à falta de abrigo
e larga a distância, tu num baile rindo
em rodopios falha a rima da poesia
inventando truques de negra magia,
enquanto estrelas no céu luzindo
a iluminar gravuras dum tempo antigo.

Talvez morra (sim) num dia qualquer
preso a falsas e múltiplas promessas
esquecido 'nome desenhos no areal,
(longe a terra do primeiro Natal)
e sem q' a mim coisa alguma peças
retrate um'outra imagem de mulher.

Talvez até já tenha morrido
ao saber-me por ti esquecido.

Cito Loio
(Poema sem data nem valor)

A LÓGICA DA SERPENTE!



A LÓGICA DA SERPENTE!

Por que me foi dada a capacidade do Pensar?
Por que me foi dada a necessidade do Amar?

Por que me pôs Deus,
animal feliz e contente
partilhando o canto das aves
bebendo do escorrido das fontes
correndo o curso dos rios
escutando o murmúrio dos ventos
sentindo a brisa do mar
nos dias de marasmo do Paraíso?

Porque me foi dada a capacidade do Juízo
se na Maçã
pôs Deus o Desejo?

A mim
pôs Deus a capacidade do Sentir
a necessidade do Amar
o desejo do Possuir!

Fatalmente
colhi a Maça do meu desejo
tão carente quanto Eu
num gemido de Prazer
que fez estremecer o Céu.


Por que não me deixou Deus
feliz e contente
brotando semente
entre os lírios do campo?

Porquê...
se me queria Vegetal?

Por que me expulsou do Olimpo
se ao filho pôs Madalena no caminho?

Por que não continuei feliz e contente
partilhando o canto das aves
bebendo do escorrido das fontes
sentindo a brisa do mar
vegetando sem fim
no marasmo do Paraíso?

Por que me pôs Deus, Eva
se me queria Vegetal
entre os lírios do campo?

Por que me pôs Deus
o Desejo natural de Amar
se me queria vegetal, carente e santo?


Angelino Santos Silva

EXPIAÇÃO



EXPIAÇÃO

Nunca me respondeste, quando te chamei,
E só Deus sabe como era urgente e aflita
A minha voz!
Mas, desgraçadamente sós,
Morrem os que se afogam
No mar da sua própria condição.
O meu, sem margens, é um descampado
Desabrigado.
Vagas e vagas de solidão,
E a tua imagem, litoral sonhado,
Sempre evocada em vão.
Nunca me respondeste, e foi melhor assim.
Um náufrago perpétuo é um pesadelo.
Dizer-me o quê?
Que, de longe, me vias afogar,
Mas que nada podias.
Pois sabias
Que os poetas jurados,
Humanas heresias,
Nascem condenados
A morrer afogados
Todos os dias
No tormentoso mar dos seus pecados.

Miguel Torga
Lido por Armando Pereira

PROGENITOR



PROGENITOR

Sempre pronto ajudar
Patriarca em amor
Bonita forma de estar
Grande progenitor.

Símbolo de protecção
Ídolo prefeito
Bondoso coração
Pai belo conceito

Dezanove teu dia
Março lembrado
No amor do dia a dia
Sempre recordado

15-03-2019
João Pessanha

PARTEM



PARTEM.

Partem.
- Vejo-os idos, rosto sombrio
prenhe ventre sem futuro
levando pela mão o sonho
que fora concretizado...

Partem.
- E não voltam, e q’os espera?
- Sei lá; _ só sei que partem.

Partem.
- Mas dou fé q'outros ficam,
e quem fica também parte
porém tão só de ver partir
a parte que de si parte…

Partem.
- Se acaso partir que ficará?
_e se nada de meu restar!

Partem.
- Vão sós, e partem tão tristes.
- Abalam filhos, pais, avós,
e que será deles, e de nós?
Que importa, se partem…

Partem.
- Sim partem, partem
e partem partindo.

Partem.
- Quiçá outros ficarão
sabendo-se lá até quando.
- Uns sabem, e partem,
indo sem saberem o fim...

… Cito Lóio
26/03/2018 a 14/04/2018
lido por Maria Teresa Lopes

Papa Francisco



13/3/2013, dia importante para o Mundo
Ganhamos o Papa Francisco,
Irá ser como o João Paulo II?

Já vimos que sim
Esperemos que assim seja,
Para bem de todos nós
E também da Santa Igreja.

Papa Argentino, tem 13 letras
Papa Francisco, tem 13 letras
13/3/2013 somando dá 13
Só faltava Ele ter 13 anos
Mas tinha 76 que somando dá 13
E como eu gosto tanto do 13
Meu nome só podia ter 13 letras

Dina Magalhães

VISITA A MONTALEGRE



VISITA A MONTALEGRE

Montalegre é de grandeza,
Da região norte de Vila Real,
Sorri de vida esta Vila portuguesa
Porque é janela deste nosso Portugal

Abraça a Norte além da fortaleza,
Terras de Espanha também do litoral;
Entre estes povos vive-se estreiteza
E a história de ambos quase igual.

A Leste, Chaves, com sua beleza,
Banhada pelo Tâmega sempre leal;
Que foi de banhos de tanta a realeza,
E é de toda a classe social.

A Sueste Boticas, mais leveza,
E paz alegre, cerimonial;
E do Sul vem outra braveza,
De Cabeceiras de Basto tão rural.

Vieira do Minho cresceu na pobreza,
A Sudoeste, num tempo tão feudal;
Quando a miséria alimentava a nobreza,
Esse ócio e ostentação bem Real.

Terras de Bouro a Oeste, delicadeza,
Gente que não trás ao mundo o mal;
Montalegre é povo, arte e proeza,
Do meu país é um marco cultural.

José Faria

A ÚLTIMA PELE QUE DESPES É UM SOPRO



A ÚLTIMA PELE QUE DESPES É UM SOPRO

Quem se gosta mais do que gostar
é quem nos importa como o ar que se respira.

Ao longo da vida,
despimos a pele de filho ou filha
(esvazia-se-nos o peito);
alguns de nós, a pele de pai ou mãe
(esvazia-se-nos o peito).
Nus dessa pele, na verdade,
continuamos a vesti-la,
porque a memória mio a despe
(o peito, ainda assim,
esvazia-se-nos mais).

Um dia, haveremos de expelir
o ar que nos restar.
Por isso,

encho o peito,
o mais que puder, sempre que puder,
e respiro,
com ajuda de braços e dorsos,
o cheiro
da pele
de quem amo.

Sérgio Lizardo
Lido por Carlos Gomes

O AMOR, MEU AMOR



O AMOR, MEU AMOR

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto
in "Cidades cidades divindades"
Lido por Beatriz Maia

57 ASTRO



57 ASTRO

Nasce mais um dia nesta aurora um sol
suave desvenda-se nas montanhas
diluindo uma névoa em fragmentos de luz
na lentidão dos segundos vai irradiando sua chama
a sua presença ancestral
como estrela domina o horizonte
projetando seus raios alimentando o ecossistema,
lá no alto no apogeu seus raios entrelaçados
com a essência ,unificando o sabor da natureza MÃE.

Já no fim do seu percurso
paulatinamente vai-se fundindo no oceano
os raios cada vez mais fracos
arquitetando um crepúsculo maravilhoso
como maravilhoso é o nosso planeta
porque amanhã, amanhã à hora certa
ele está no outro lado da montanha
dando um novo dia.

Mário Anselmo
in “Eremita de Sonhos”

AS RODAS DA SAIA


AS RODAS DA SAIA

minha mãe deu-me uma saia
a saia de sua mãe
a saia roda no corpo
da minha filha também
minha neta pequenina
anda também a rodar
na roda da saia dela
em todas que há de gerar.
a saia roda no tempo
das rodas que o tempo tem
e por mais que rode a saia
não lhe escapará ninguém.

Maria Isabel Fidalgo
in “À roda da saia”
lido por Maria Augusta da Silva Neves

MELODIAS DO ANOITECER...


MELODIAS DO ANOITECER...

sempre me encantou
andar pelas ruas solitárias
a olhar para as casas.

janelas e portas fechadas!...
que segredos se escondem
atrás daquelas velhas cortinas?...
que intimidades se aninham ali?...
que sonhos, (des)ilusões, lágrimas
embaciam os vidros?...
longos amores, longos beijos ,carícias?!...
tantas esperas!...tantos silêncios!...

adoraria abrir uma daquelas janelas
para espreitar o (in)finito por dentro!
molharia o rosto no mar de nuvens
das saudades e lembranças,
encheria a alma de um fresco amanhecer!...
fechá-la-ia depois para prender
com a força dos braços do coração
aqueles que nunca quereria perder!

essas cascatas de amor
conhecedoras de todas as partituras
que deixam mágoas espalhadas pelo chão!...
memórias como varandas de pedra
espelhadas nos brilhos e sons
do anoitecer!...

Maria Afonso Morais
17/01/2018

ADEUS SOLIDÃO



ADEUS SOLIDÃO

Assim devemos começar por encarar cada novo dia!
Gritar bem alto adeus solidão e amar sem reservas, sem medos e sem cobranças.
A solidão só se instala se o permitirmos. Levantem-se, cantem, riam, contagiem com a vossa alegria, ultrapassem os problemas com determinação, abulam as tristezas da vossa vida e encarem cada dia como uma dádiva sem preço, uma oportunidade única para serem felizes.
Sejam e façam felizes aqueles que vos rodeiam.

Cândido Arouca
in “O Amor não pára pra jantar”
lido por Fernanda Santos

UNIDOS CONTRA A FOME



UNIDOS CONTRA A FOME

Amigo! Não esperes mais: vem comigo
levantar a nossa bandeira:
estrelar a cor que é tão escura...
pois é preta; quase toda ela:
traz contigo, filhos e companheira
com mais vítimas a acompanhar...
vamos; com a fome, abrir uma janela
pelo direito ao pão: vamos lutar!...

Já se juntam a nós; amigos caídos,
quase mortos com a fome:
ganharam forças e coragem do que são
levantaram-se quase cadáver:
crianças, mulher e homem!
Lutemos para ter direito ao pão
ao pão para cada dia:
e acabar com o flagelo da fome!

A terra produz, o tirano destrói:
aumentam riquezas, criam humilhação!
O Dizemos não: às guerras
lutemos; só contra a fome!...
Queremos melhor distribuição:
já perdemos a vergonha da pobreza
agitemos a nossa bandeira com razão:
queremos pão na mesa e direito à produção!

Olha amigo; já somos multidão...
para alertar a burguesia; tocar-lhe no coração,
para que não mais falte o pão...
elevemos alto a nossa bandeira:
para não sermos mais cidadãos de terceira
e nem a fome, fazer de nós cadáver!
Digo não mais às armas nem à guerra
Mas dividir melhor o que nos dá a terra!...

António P. Costa Monteiro
PORTO: PORTUGAL 06/05/2018

QUANDO O SILÊNCIO SE TORNA ENSURDECEDOR



QUANDO O SILÊNCIO SE TORNA ENSURDECEDOR

É na tua alma
Que os ecos
Rasgam, dilaceram
O teu corpo

Pelos gritos
Que prendes na garganta
Da tua alma amada
Cansada…

Onde o silêncio
Rói-te por dentro
Por teres receio
De seres, tu mesmo

Por teres medo de mostrares quem és

Ajoelhas-te
Pedes perdão
Por aquilo que não és
Que não crês

É aí que o silêncio te leva a loucura
E se torna ensurdecedor
Os gritos… a tua dor

José Guterres
in “O Poeta Perdido… O Outro Lado”

AUTO SUFICIÊNCIA



AUTO SUFICIÊNCIA

O amor,
o amor verdadeiro,
aquele que não deixa dúvidas,
é um amor baseado em gestos simples,
em coisas aparentemente pequeninas,
em actos de pouca relevância para o comum dos seres,
em sintonias perfeitas,
em olhares cúmplices,
em partilhas de vida e para a vida toda,
em dádiva sem esperar retorno (ele virá de forma natural!),
em dedos entrelaçados ocupando todos os espaços de cada mão,
em beijos — em tudo banais — que provocam um turbilhão de emoções
e desejos,
em abraços — aparentemente irrelevantes — que apaziguam,
tranquilizam e preenchem.
O amor verdadeiro não precisa de mais.
O amor verdadeiro dispensa tudo o resto.
O amor verdadeiro sente-se nos pequenos gestos.
O amor verdadeiro vive de pouco.
«Alimenta-se» por dentro de si próprio.

Cândido arouca
in “O Amor não pára pra jantar”
lido por Graça Silva

TRIBUTO SINCERO E AMIGO...



TRIBUTO SINCERO E AMIGO...

Solidário para com todas as mulheres companheiras e mães...
Mas ainda para todas aquelas que optaram por outra orientação sexual…
Com a coragem e luta necessária contra o estigma e segregação…
Nós mulheres que sois duplamente exploradas !? ...

Parabéns para si...

Mas também para todas vós mulheres incompreendidas!?...
Inúmeras vezes agredidas e vilipendiadas!?...
Mas sempre musas...
Autoras de lindos textos espontâneos ou não…
Inspiradas, e criadoras das melhoras obras de literatura…
Também na poesia...
Assim como em todas as outras áreas das artes...

Karlos Kosta Versus Jose Carlos Costa

UMA QUALQUER PESSOA



UMA QUALQUER PESSOA

Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.
Uma qualquer pessoa que a recebesse
num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.

Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse
e em silêncio dissesse: é para si.
E uma qualquer pessoa, como um luar, nascesse,
e sem sorrir, sorrisse,
e sem tremer, tremesse,
tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.
Na minha mão estendida dar-lhe-ia
o gesto de a estender,
e uma qualquer pessoa entenderia
sem precisar de entender.
Se eu fosse o cego
que acena com a mão à beira do passeio,
esperaria em sossego,
sem receio.

Se eu fosse a pobre criatura
que estende a mão na rua à caridade,
aguardaria, sem amargura,
que por ali passasse a bondade.

Se eu fosse o operário
que não ganha o bastante para viver,
lutava pelo aumento do salário
e havia de vencer.

Mas eu não sou o cego,
nem o pobre,
nem o operário a quem não chega a féria.

Eu sou doutra miséria.
A minha fome não é de pão, nem de água a minha sede.
A minha mão estendida e tímida, não pede.
Dá.
Esta é a maior miséria que em todo o mundo há.

E eu que precisava tanto, tanto, de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa!
E se ela agora viesse?
Se ela aparecesse aqui, agora, de repente,
se brotasse do chão, do teto, das paredes,
se aparecesse aqui mesmo, olhando-me de frente,
toda lantejoulada de esperanças
como fazem as fadas nos contos das crianças?

Ai, se ela agora viesse!
Se ela agora viesse, bebê-la-ia de um trago,
sorvê-la-ia num hausto,
sequiosamente,
tumultuosamente,
numa secura aflita,
numa avidez sedenta,
sofregamente,
como o ar se precipita
quando um espaço vazio se lhe apresenta.

António Gedeão
lido por João Bernardo

VEM AMIGO



VEM AMIGO

Vem amigo,
toma a minha mão
abandonada e fria,
aquece-a
entre as tuas...
Mostra aos meus olhos tristes
o sol nascer,
as estrelas rutilando
as florinhas simples do campo,
as avezitas cantando felizes,
a esperança no olhar dos petizes...
Vem amigo
secar as minhas lágrimas,
ensinar-me a sorrir,
encher as minhas mãos vazias,
abrir
o meu coração
ao amor,
ao perdão...
Vem,
vem amigo,
toma a minha mão...

Maria Regina Bacelar
1969

O CÉU E AS METADES



O CÉU E AS METADES

Do fundo dos tempos
estendo minha mão à tua.
Do início dos tempos
se dividiu o céu em metades.
E se dividiu a flor,
se dividiram as feras, as aves,
todos os seres da Terra multiplicantes.
Minha mão amaste sem me respeitar,
minha mão possuíste sem partilhar.
Do fundo dos tempos minha mão
estendo à tua para ser igual,
tempo após tempo,
mas só poderá reunir as nossas vontades
o futuro dos tempos.
Reunir as criações e as metades
do pouco e do muito,
do bom e do mau,
do teu e do meu
e o sonho que vem do fundo dos tempos
de unir as metades do céu em nossas duas mãos.

96.02.19
Fina d’Armada
in “Âncoras e Horizontes”
lido por Fernanda Rosas