sábado, 23 de junho de 2018

DEUS



DEUS

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro,
Dizendo-me Aqui estou!

(Isso é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Como o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo ávores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
Lido por Alcino Amado

ORGULHO



ORGULHO

Nasci do lado de lá do Marão,
À sombra da serra e ao sol do vale.

Trago nos olhos o verde do milho
E da erva... o verde da esperança portuguesa.
Nos ouvidos, a canção da cigarra e do grilo;
O canto da água do rio, ou do regato
Saltitando de seixo em seixo;
O perfume da terra, das plantas silvestres
E dos animais, no olfato;
No tato a maciez da lã dos cordeiros
E o focinho húmido do gado.
Trago na boca o sabor da broa,
Da batata, da castanha e do fumeiro...

Mas cresci no Porto,
Que acabou de moldar a minha alma.
E trago em mim
A paixão pelos monumentos,
Pela História que é toda a vida
De um Grande Povo!

Perfumo dias de inverno com o cheiro da maresia
E enfeito os cabelos com o cetim de camélias e magnólias;
Durmo no verão, ao som do marulhar
Das ondas do mar
E acordo com os lábios salgados de sonhar...

Visto-me de talha dourada
E nela serei certamente amortalhada,
Após ter bebido uma última vez
A luz brilhante dos cumes da serra
Acariciados pela neve e beijados pelo sol,
Com altivez!...

Irene Costa
in “A Arte pela Escrita Nove - Coletânea de Prosa e Poesia”

DIA 46



DIA 46

São as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas Importantes e as preocupações maiores sejam de facto mais pequenas.

São as pessoas como tu que dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação de rosas rubras.

As pessoas como tu possuem não uma, mas todas as vidas.
Pessoas que amam e se entregam porque amar é também partilhar as mãos e o corpo.
Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansaço numa esperança aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de água pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a firmeza da flecha.

São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs, e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos o coração transformar o peito numa música infinita.
São as pessoas como tu que nunca nos pedem nada mas têm sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justiça, do sofrimento e do amor.
São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se interrogam, e encontram respostas para todas as perguntas nos nossos olhos e no nosso coração.
As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos.
Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a escutar um violino.
São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo.

Joaquim Pessoa
in “Ano Comum” (Ed. Edições Esgotadas, 2a ed, 2013)
lido por Manuela Caldeira

LANÇO-ME RUMO AO MAR



LANÇO-ME RUMO AO MAR

Lanço-me rumo ao mar
de palavras em riste!
Olho o céu,
sou a última sonhadora
desafiadora de limites nunca antes sonhados!
Mas nem eu mesma conheço
o conteúdo da minha mala de viagem,
a velocidade das minhas barbatanas,
o rumo da minha cauda!
Deixo-me levar por estes dedos que caminham
num céu de palavras
em papéis brancos de viagens!
Desenho a minha alma numa folha de papiro,
fecho-a numa garrafa
e lanço-a ao mar!
Ela vai procurar os teus dedos e os teus lábios,
lamber o teu peito de sol,
sugar a humidade de tua boca!
E nestas minhas frases sem Tempo
possuo-te com o prazer da dor
de possuir sem posse!
Quero-te!
Apanha as minhas letras
e os meus versos!
Faz com eles uma história de amor!

Goreti Dias
in “Nuances de Vermelho em Carne ao Rubro”
lido por Alice Santos

POEMA QUE FIZ PARA O RONALDO



POEMA QUE FIZ PARA O RONALDO, QUANDO RECEBEU UMA DAS BOLAS DE OURO.

Filho de uma Família Humilde
Em Criança veio para Lisboa
Para Futebol Jogar,
E hoje Portugal tem
Uma Grande Estrela a Brilhar.

Quando recebeu a Bola de Ouro
Estava tão comovido
Com aquelas lágrimas
Que nem podia falar,
Ainda mais porque viu
A sua Mãe a chorar.

Sua Mãe Dª Dolores Mãe Orgulhosa
Por aqueles Filhos Seus,
Pois quem tem assim um Filho
Deve dar Graças a Deus.

Era a Mãe, as Irmãs,
A Namorada e o Filhinho
Tão Felizes naquele Dia,
E a Todos nós Portugueses
Ele deu tanta Alegria.

Parabéns Ronaldo
Tu és mesmo o Maior,
Podemos correr o Mundo
Não encontramos Melhor.

ÉS o orgulho de Portugal,
Uma Flor sem igual
E tinha que ser assim.
Ou não fosse a nossa Madeira
Um lindo e grande Jardim.

Cristiano Ronaldo
Tu és mesmo diferente,
Pois foste Condecorado
Pelo nosso Presidente,
A ti e tua Família,
Que Deus vos ajude sempre.

Dina Magalhães

AMOR BREVE



AMOR BREVE

Tenho todas as águas dentro de mim.

Os pássaros florescem nas margens dos meus braços,
esperando o sol quando tu chegas mastigando
o meu ultimo poema
e com o corpo a abarrotar de promessas.

Bebo a tua boca, mordo a tua boca,
a tua boca morde-me, bebe-me, dá-me luz,
e então, como abelhas fabricando o mel da tarde,
fazemos amor, fazemos doce com as cerejas da noite
até o novo dia me segredar baixinho
que o teu coração está de saída.

Joaquim Pessoa
in “Os Dias não Andam Satisfeitos”
lido por Carlos Gomes

A MULHER MÃE



A MULHER MÃE

A mulher vazia
Tinha os lábios gretados pela saudade
Dos beijos aos seus filhos que o tempo macerou
E que nunca conseguiu concretizar.

A mulher estátua
Estava nua e prenhe de incertezas
Fria alheia apática aparentemente vencida
Numa vida mal vivida e em sofrimento.

A mulher coragem
Tinha no rosto desfigurado a amargura
E nas mãos doridas os filhos instituídos
Contados um a um pelos seus dedos.

A mulher raiva
Digeria em silêncio amargo
O vinagre do sonho o fel da sentença
Que lhe ditou a opacidade da lei.

A mulher resignada
Arfava
Com os nervos acorrentados à flor da pele.
Só os filhos lhe remexiam a inércia do pensamento
Quando as noites longas e frias
Teimavam em não clarear.

A mulher mãe
Estava morta por dentro.
Brilhava apenas em toada intensa
A pluviosidade mártir do seu olhar
Num horizonte de certezas
Distante disforme e entardecido.

António F. de Pina
in “O Amanhecer dos Sentidos”
lido por Beatriz Maia

ENTRE OUTRA GENTE BRANCA



ENTRE OUTRA GENTE BRANCA
(Em memória de Inácio de Oliveira combatente da I Grande Guerra 1914 a 1918)

Bateu com os punhos no tampo da mesa
arregalou os olhos manifestamente irado
e disse... "não posso ou devo ficar calado,
nasci homem senhorio da minha empresa
proprietário com término dum negócio
lavrando terras com esta ferramenta
gladiador q'arrosta a mais feroz tormenta
até nas pérfidas horas amargas do ócio..."
...nadei como um tubarão fora de água,
vi-me na pele de salvador do próprio nadador
pássaro de fogo, múltiplas vezes com dor
águia que adeja pelos céus da, mágoa...
...sou presente do que fui e q'um dia serei,
férreo braço armado contra a tirania,
intransigente carrasco de quem vilipendia
a liberdade que fora trincheiras conquistei!
... e arfando três vezes quedou-se silencioso.
- Ao redor duma mesa limpa de taberna
fazia-se silêncio, igual ao de uma caserna,
sentido em Lamego, Ranhados, e Trancoso.

Navegava o Uíge da Pátria mares lusitanos
migrando a partir do país que o vira nascer
levando na alma 'terra que decidira defender.
- Abalava, desconhecendo por quantos anos!
_ para trás deixava cinco filhos, uma mulher
e a neta que não assistira ao nascimento,
a arte de esculpir na pedra por divertimento
sábio uso de à luz da tocha afagar à colher.
- Trolha e pedreiro assumido artífice da vida
erguera um Lar sem paredes com frestas
numa Beira interior sem incesto ou sestas
que probidade era-lhe por demais conhecida.

Aguardava-o um longo e tortuoso percurso;
-_ não rolava o mundo ao compasso de canções
e ainda troavam nos tímpanos explosões
de uma guerra onde morrera gente avulso,
quando em pé, à proa dum recente paquete,
permite que a brisa do mar afague o cabelo.
- Na memória último passeio pelo Restelo
e no dedo anelar uma aliança como lembrete.

Desconhecia aquele vitorioso ex-combatente
ser vencido por um neto, já na aposentação,
por mais mandarem os ditames do coração
que descanso merecido e pago se descontente,
- De passeio ao cemitério do Bairro do Cruzeiro.
por lá repousou concedido direito a campa
enterrado o ataúde entre outra gente branca
em terra negra. Morria homem de corpo inteiro.
- Na sala da vivenda, o neto caçula chorou;
_ por dentro conservaria do avô a valentia,
e jamais voltou a rasgar os jornais do dia
ou esqueceu o nome, aquele que sempre usou.

Cito Loio
7/7/2017
(memórias do Inácio)

8



8

Espalho nas palavras com que te toco
um pudor de textos inquietos,
mensagens mágicas,
confidências de quereres
e feitiços perfumados.

No horizonte de prata que me és,
abraço o céu,
toco-te com a brisa,
mas só intensifico a distância
colhida em cada flor soprada dos meus lábios.

Abro a porta a uma sinfonia,
aceito a brisa perfumada de luar
e colho-te o olhar guardado na alma.
Teço com ele a minha coroa de estrelas,
tua rainha,
num trono de noites revoltadas.

Goreti Dias
in “Dos Prazeres e seus Contrários”
lido por Dionísio Dinis

NUANCES DE VERMELHO EM CARNE AO RUBRO





Nuances de vermelho em carne ao rubro,
átomos de sonhos alucinados,
árvores frondosas de carícias despenhando-se do sol,
explosão de sentidos por nascer...

A chuva fervente por sobre a nossa pele,
os corpos endoidecidos num lago sem fundo,
o ontem possuindo o hoje,
o hoje domando o futuro...
Nós, acontecendo...

Nuances de vermelho amordaçando todas as carnes,
dançando por sobre corpos vivos...

A paixão eleva-me a carne,
o sonho pinta a fantasia de vermelho,
ardente,
estonteante,
e nós,
por aí volteando,
fogo maior pintado em cores novas...

Ganhamos todas as nuances de vermelho
sobre a carne viva do enfurecer da tarde.

Goreti Dias
in “Nuances de Vermelho em Carne ao Rubro”

Já fui borboleta



Já fui borboleta de asa partida
Voei
Fui a mais bela rosa de meu jardim
e desfolhei
já lamentei a minha sorte
gritei
tive o mais belos sonhos
e acordei
na estrada da vida caí me espalhei
e  levantei
apertei o peito com saudades
chorei
bebi  fel e vinagre
e sou doce como mel
já vi a noite e as estrelas
um raio de sol  me deu luz
de saudade chorei
nas minhas lágrimas
me banhei
fui com o meu grito
derreti meu gelo
nadei
das pétalas das rosa
eu me perfumei

Conceição Lages
in “Coletânea Galeria Vieira Portuense 2016”

Eu gostava de morar nas águas furtadas do céu




Por dever de amizade... "presto a minha singela homenagem...
"ao estimado amigo Joaquim Manuel Oliveira Pereira"
Kim Berlusa.

Amigo! "Dignificaste as Artes Plásticas e a Poesia!..."
Amigo! "Saúdo-te reconhecida!"

Vou declamar um poema, "da sua autoria".

Eu gostava de morar, nas águas furtadas do céu
p'ra poder ver o brilhar das estrelas sobre o breu.
Ver a terra lá de cima, tão redonda e colorida
numa leve neblina, suavemente envolvida.

Eu gostava de morar, nas águas furtadas do céu
ter o sol como vizinho e pedia-lhe um raiozinho
p'ra aquecer a minha vida que anda um pouco arrefecida.

Eu gostava de morar nas águas furtadas do céu,
mas morar na mesma rua, onde também mora a lua,
que é atraente e fascinante, e que inspira a tanta trova,
de crescente a minguante, bela, cheia e sempre nova.

Eu gostava de morar nas águas furtadas do céu
para poder viajar sobre a cauda de um cometa
de planeta em planeta, até ao mundo dos mundos,
na leveza temporária duns segundos.

Eu gostava de morar nas águas furtadas do céu
ver o Éden pela janela, ver tudo o que a vista alcança,
ver a mais longínqua estrela, no olhar duma criança.
Eu gostava de morar nas ásuas furtadas do céu!

Kim Berlusa
in "Viver nas Horas Mortas"
lido por Helena Maria Simões Duarte

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
 e, em mim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.

Luís de Camões
in “Poesia Lírica”
lido por Céu Guedes

AS PALAVRAS



AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade
in “Coração do Dia, Mar de Setembro”
lido por Fernanda Rosas

PORTUGAL



PORTUGAL

Ergam-se das tumbas
Régios Senhores
E os heróis esquecidos
Cantam-se a si tais louvores
De mundos desconhecidos
Ao Mundo, novos mundos trouxeram
E terras desconhecidas
Grandes feitos eles fizeram
Hoje de Portugal esquecidas
Novos continentes descobriram
Outras terras, outras gentes
Que o Mundo abriram
Mostrando que eram valentes
Em pequenas naus eles partiram
Por mares desconhecidos
Maior Portugal fizeram
Hoje paraísos perdidos
De Portugal sua Bandeira
Eles ao Mundo mostraram
Uma Nação altaneira
Conhecidos eles ficaram
Desse Portugal de outrora
Ficou a recordação
Cobardes chegaram agora
Para destruir a Nação
Ergam-se Egrégios Povos
Duma Nação triunfante
Porque a vitória é final
Recordar tempo distante
Do que foi o nosso PORTUGAL.

Celso Miranda
11/06/18

GOSTAR PESSOA



GOSTAR PESSOA

Ando a ler Pessoa lentamente,
Sua vida e obra que me ensina,
Por vezes fecho o livro descontente,
Pois me cansa a poesia que não rima.

Diz o próprio Pessoa em sua obra,
Fazer rima é cansativo, é maçada;
Preocupar-se se palavra sobra,
Acrescentar com palavra achada.

Obrigatório não é forçosamente,
Escrever rimando em poesia;
Na de Pessoa parece estar ausente,
Essa parte que cria a melodia.

Como leigo, pouco escrevo, pouco sei,
Mas diferencio a ordem da desordem.
Escrevo poesia tal como sei,
Dilato o que meu sentido pode.

Como dentes de um pente ao alto posto,
Se estende a poesia em harmonia.
Com rima ou sem rima tenha gosto,
Importa a mensagem, a sabedoria.

Mas continuo a ler p'ra conhecer,
Essa obra que me ensina, em fogo brando,
Perdoem pois, meu juízo de entender,
Pois sou pessoa, sou Faria e não Fernando.

José Faria

À BELEZA



À BELEZA

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

Miguel Torga
Lido por António D. Lima

POEMA DAS ÁRVORES




POEMA DAS ÁRVORES

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
E deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
e entretanto dar flores.

António Gedeão
in “Marcelo Rebelo de Sousa - os poemas da minha vida”
lido por Amândio Vasconcelos

DIVAGAR PELA MINHA MENTE



DIVAGAR PELA MINHA MENTE

Acordo cansado de tanto dormir
Desperto, durmo...
Porque o tempo!
Jamais será o mesmo que sonhei
Porque nas entranhas da minha mente,
rastejei
Em momentos únicos, errei
Morri, mas ressuscitei
A corda que prendia o meu pescoço
Estava amarrada a árvore
Na qual temia a minha morte
Pois a vida enfraquecida
Já não era mais temida
Pois que pela árvore que morria
Já não queria mais a minha sorte

Caído num sono profundo
Sonhei o que não queria
Um ser imundo, sem dó
Nem dolo, nem mundo

Nas ruas recalcadas, pisadas e mortas
Fui bater a todas as portas
Onde a morte que fugia
A minha frente corria
Gritando, esperneando-se
Como quem corre a deriva
Sem norte
Eu, do túmulo frio
Me levantei
Ergui a minha espada
Para ser Rei

José Guterres
in “O Poeta Perdido”

SONHANDO SE VAI VIVENDO



SONHANDO SE VAI VIVENDO

Na senda da vida me perdi
E nos caminhos que percorri
Tantas vezes imaginei
Se em toda aquela aventura
No fim eu teria a ventura
De voltara dizer "cheguei".

Cheguei de terras que nem sei
O nome delas sequer,
Apenas sei que passei
E quantas vezes não voltei
Apenas por mal parecer.

Quem se perde na senda da vida
Tem sempre maior vivência
Porque a dor profunda contida
É a maior e a mais sofrida
Na luta pela sobrevivência.

Que ninguém chore antes de acontecer
Na vida seja lá pelo que for
Porque esperar ensina a saber
Que nada se vai perder
Enquanto lhe derem valor.

Esse valor que só tem
Um coração que sobrevive
Às duras encostas percorridas
Nos percalços e subidas
Que eu conheço porque lá estive.

E não estive por estar
Nem tão pouco para agradar
Mas sim porque me perdi
Nessa senda tão inglória
Mas no livro da minha história
Virada a página diz "venci"!

Conceição Freitas