quarta-feira, 2 de maio de 2018

O CABO DE AÇO.



O CABO DE AÇO.

Ao cabo de aço o que lhe faço?
Do Oriente partiram caravelas
Carregadas de metal.
Do Brasil igual.
Níquel, prata, ouro.
Luz fria o branco, prata,
Quentes os amarelos, valor sem igual.
Cobres e latões
Fruto de transformações.
Vida de ferro; Valor.
Origens de fogo; amor.
Metais, metais só música.
Outros que tais
- longos ou curtos-
negros de cor, até dobrados,
Deitados ou erguidos
Na cidade de betão perdidos.
Ao Cabo de aço o que lhes faço?
Ao cabo faço as linhas
do teu coração, ou fios de ouro
Para o teu pescoço.
Fios finos entrançados
Belos!
Brancos ou dourados.

Leça da Palmeira, Perafita
29.12.1994
Luís Pedro Viana

RUGAS DE MARÉS



RUGAS DE MARÉS

Areias pregueadas, por ventos e brumas
por águas que beijam, docilmente as dunas
rugas de marés, proas e convés
abstractas linhas, as aves marinhas
gritam a voar, levam-me o olhar
pelo mar imenso, o azul intenso
lá longe as velas, estranho firmamento
mágico e denso, pegado de lés a lés
no exacto momento que debaixo
dos meus descalços pés, continuam
pregueadas, ermas e ordenadas
essas rugas de marés.

Kim Berlusa

ABRIL DE ABRIL



ABRIL DE ABRIL

Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.

Manuel Alegre
Lido por Alzira Santos

TRIBUTO AO 25 DE ABRIL



TRIBUTO AO 25 DE ABRIL

Nem a chuva tem já força
para te chorar, Abril!
Este tempo de chumbo,
de ignorância política,
de gritos pesados
e de silêncios globais,
não tendo a Pátria meios
para dominar o nojo
que é limpar o cu à Europa,
velha, gorda, doente!
Que tempo é este
que nos esgota
em novos despejos
e incidentes estranhos
com polícias armados!
Há um cheiro bafiento
erguendo-se da tumba do medo
vergando-nos até à chibata!
A Primavera tão fria
não traz o pão para a mesa,
a angústia penetra até ao umbigo,
os erros sucedem-se
fechando o portal da liberdade!
Não,
não cortem as raízes dos sonhos,
não destruam os recursos da esperança,
não desfigurem este país:
facho, luzeiro, lua,
caravela, nau, marinheiro,
mundo novo, mar presente,
namorados ensaiando
um beijo cheio.

Maria Olinda Sol
Lido por Agostinho Costa

A PELE



Assim ou... nem tanto. 136
A PELE

Crescer implica mudar muitas vezes de pele. É um pouco como alterar o ritmo da passada, o jeito de olhar, de pensar, de ser. A pele é o que nos veste quando estamos nus. Moldáveis desde que nascemos, somos afinal reflexo de quem nos ensina e educa. Traduzimos no comportamento, princípios e valores que recebemos e só depois interiorizamos o legado ou, no limite, o rejeitamos por ser pele onde cabemos mal ou não cabemos. Somos, como referi, sempre moldáveis mas a nossa constituição única responde com maior ou menor resistência aos sucessivos caminhos que a vida nos propõe. A mesma educação gera resultados divergentes de acordo com a genética e o temperamento de quem a recebeu. Se é verdade que há, nas criaturas, porções vitais comuns, são incontornáveis as diferenças que nos tornam inconfundíveis, só capazes de aceitar, integralmente, o que nos seja compatível. Mudei muito o modo de ser e de estar, o pensamento, a cultura e o gosto, as vertentes do prazer que me tornam anjo ou demónio à vez. A pele é, obviamente, outra. Sinto-a hoje mais dúctil, elástica, hidratada, mais apta a fazer a paz ou a guerra consequentes, mais fácil de arrancar, substituir, adaptar, crescer. Sempre mais sábia, tolerante, informada. Mudo-me muito e amanhã vou sentir tudo de outra forma. Eu sou a mudança! Mantenho, no entanto, estável o veneno. Como se fosse, potencialmente, uma cobra. Mantenho, partidas embora, as minhas asas inúteis. Um dia, mudo-me radicalmente e voo.

Edgardo Xavier.
Sintra, 19 de Abril de 2018
Lido por Manuela Caldeira

DIA DA CRIANÇA



DIA DA CRIANÇA

É tão belo ser criança
Em constante brincadeira
Feita de confiança
Para durar a vida inteira

Ei-las sempre a correr
Ou em parques a brincar
Alegria para se ver
Muito amor para dar

Também existem crianças
Feitas para sofrer
Em vidas sem esperanças
Estão na guerra a morrer

Pelo mundo cheias de fome
E de sede também
Crianças que não têm nome
Pois são filhas de ninguém

Teu dia para recordar
Tão cheio de confiança
Foste feita para Amar
Sendo sempre criança…

Celso Miranda 01/06/17
Dedicado às crianças do Mundo, para que não exista diferença de credos e de cor.

EU ARRANQUEI CADA PALAVRA



EU ARRANQUEI CADA PALAVRA

Eu arranquei cada palavra
A sua impura mudez
Da sua infausta virilidade
Da sua austera robustez
E em silêncio quedo me dilacerei
E esventrei uma a uma
E as acutilei em elegia
Mas de tudo ficava apenas
O eco profundo e gasto
Um eco sem qualquer brilho
Sobranceiro ao mundo raso
De onde cada uma emergia
Donde cada uma em surdina
Se negava e se escondia
E onde em cantata
Na sua vastidão
Impunemente a sua voz
Levemente soerguia.

E na mudez do papel
Que em silêncio me ouvia
Vi que as palavras coléricas
Se desdobravam em dobras leves
E que as ânsias torturadas
Também não se haviam dobrado
Face às ânsias das palavras.

Acilda Almeida

SIMBIOSE



SIMBIOSE

Sou árvore!
Sou pássaro!
Sou rio!
Que corre gorgolejando e segue seu destino,
Sou pássaro que voa livre na direcção do pôr-do-sol,
Sou árvore que estoicamente aguenta as fustigadas do vento,
E sem pranto nem lamento, sigo em frente.

Sou árvore!
Sou pássaro!
Sou rio!
Sou árvore que floriu e gerou fruto,
Rebentos da minha cepa nasceram,
Que em meu colo quente e terno cresceram,
Hoje, sou árvore com vestes de Outono,
Que de braços estendidos para a vida sorri com brandura.

Sou árvore!
Sou pássaro!
Sou rio!
Sou alma deslumbrada pelas maravilhas do mundo,
Mas que se confrange com tanto sofrimento que nele existe.
Como seria bom se toda a dor por magia desaparecesse,
E no rosto de todos os povos a felicidade transparecesse.
Sou árvore!.. Sou pássaro!.. Sou rio!..
Sou mulher!

Ester de Sousa e Sá
in “O Meu Sentir”

Hoje 20/4



Hoje 20/4 era para ser operada ao joelho direito
No Hospital dos Lusíadas, mas,
ontem desmarquei a operação

Tinha operação marcada para hoje
Não sei como mereço tanto,
Muito Obrigada meu Deus
Mas sei que rezam por mim
A maior parte de Amigos meus.

Contra as ordens do Médico,
No Domingo fui ao Baile
Nos Bombeiros de Ermesinde,
Desde o princípio ao fim
E fartei-me de dançar,
E não é que o meu joelho
Começou a melhorar?

Quem sou eu para merecer isto?
Sou simples e humilde
O que é que eu fiz Senhor?
Mas a todos os meus Amigos
Eu tenho muito amor.

Peço a Deus por toda a Gente
Por é que eu sou assim?
Mas o que eu peço para os outros
Deus transfere-me para mim.

Também sei que tenho inimigos,
.Pelo menos algumas Inimigas
Tudo por dor de cotovelo,
Mas que culpa tenho eu?
Por Deus não lhe dar a sorte
E os dons que Ele me deu?

Tenho pena dessas pessoas
São tristes, e nada lhe corre bem,
Senhor modificai-as, e fazei-as Felizes
Para elas me deixar em Paz
E por elas serei feliz também.

Fiz este poema muito a pressa
Mas é aquilo que eu sinto,
São palavras que me sai do
E Deus sabe que eu não minto.

Obrigada Senhor por me ajudar
Muito mais do que eu mereço,
Ajudai assim toda a Gente,
É isso que eu vos peço.

É maravilhoso Senhor ter tão pouco
Para pedir e tanto tanto para agradecer.

Dina Magalhães

SEI



SEI

Verbo saber
Sem saber nada
Vida a correr
Nesta abrilada.

Muito amor
Temos de dar
Linda flor
Para ofertar.

Amor paixão
Boa mistura
A ilusão
Que sempre dura.

Sei este Abril
É sempre novo
Mais de mil
VIVA O POVO.

João Pessanha
20-04-2018

NECESSITO DE MIM MAIS DO QUE DE NINGUÉM...



NECESSITO DE MIM MAIS DO QUE DE NINGUÉM...

Necessito de mim mais do que de ninguém. Mas mentiria
se não confessasse o quanto preciso de ti. Tu és o meu vi-
nho e a minha ressaca. A minha árvore e a minha floresta.

O meu cavalo. A minha casa, o meu mar, o meu coral. A
minha teimosia e a minha lucidez. O meu pássaro de chu-
va e o meu pássaro de fogo. A minha distância, o meu abis-
mo, a minha fuga. A minha sombra e o meu túnel. O ata-
lho para outro lado de mim.

Tu és a minha estrela e o meu guia. A minha porta, o meu
clarão, a minha injúria. O meu grão, o meu vento, o meu
moínho. O meu sortilégio. O fim da festa e o meio dia. O
meu carnaval, o meu brinquedo, o meu dia santo. O meu
pecado, a minha penitência. O ouro, a ofensa, o desvario.

És o meu hábito e o meu monge. A minha espiga e o meu
pão. A minha irmã branca, a minha irmã negra, a minha ir-
mã de novas latitudes. A minha amante e a minha mãe, o
meu abraço e as minhas margens. A minha prostituta, o
meu combate, o meu sorriso. Tu és o meu cálice. O meu
elixir e o meu veneno. O vinho que dá coragem às medu-
sas.

Necessito de ti mais do que de ninguém. Mas mentiria se
não te confessasse o quanto preciso de mim.

Joaquim Pessoa
Lido por Adelina Gomes