quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O ANJO


O ANJO

O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.

Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que, feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.

E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
e o meu ser liberto enfim florisse,
e um perfeito silêncio me embalasse.

Sophia de Mello Breyner Andressen

Lido por Maria Antónia Ribeiro

PAPOILA


PAPOILA

Flor abençoada ouro
Papoila sangue vermelho
Para muitos tesouro
Ópio que não aconselho.

Linhagem internacional
Papoila grande negócio
A flor especial
No vício desse ócio.

Nas estepes caucasianas
A papoila vai crescendo
Do interior as tisanas
Por todo o mundo vendendo.

Papoila flor tão bela
Vermelho teu coração
Ficas bem em qualquer tela
És perfume de paixão.

João Pessanha

14-09-2017

TALVEZ…


TALVEZ…

Talvez...

Que valha ainda a pena começar,
Acertar as agulhas, prosseguir,
E, por pouco que seja.
Dar sempre mais um jeito e ajudar,
Um mundo inteiro e novo a construir!

Talvez...

Que a Humanidade não seja assim tão má,
Como apregoam uns tantos pessimistas,
E que a parte que resta ainda sã
Seja por si capaz
De lutas e conquistas!

Talvez...

Que os poucos que ainda não perderam
A fé nos outros — e em si também,
Sejam, mais tarde, quantos precederam,
E, por caminhos novos,
Foram mais além!

Talvez...

Que o sonho ainda prevaleça
Sobre tudo o mais, seja o prenúncio e a voz,
Seja a primeira e a última coisa que aconteça.
Na vida de cada um
- E de todos nós!

Talvez...

Que restem ainda forcas para superar
As dores e injustiças que a vida a todos traz,
E o mundo, enfim, se possa transformar
Em campo imenso
- De Luz, Amor e Paz!

Moreira da Silva
in “Claro-escuro”
lido por Ângela Carvalho

ARGAMASSA


ARGAMASSA

Muitas pedras soltas,
Por aí dispersas,
Pouco ou nada valem,
Quase nada são;
Se forem unidas.
Bem argamassadas.
Surge o monumento.
Nasce a construção!

Pouco representa
Um homem sozinho
(Pedra solitária...),
Frágil, inseguro;
Mas quando se liga
E quando se abraça
Com os outros homens,
Cimenta-se a vida
- Rasga-se o futuro!

Moreira da Silva
in “Claro-escuro”
Lido por Lourdes Alegria

POR ONDE ANDAS TU... AMOR


POR ONDE ANDAS TU... AMOR

Meti pés a caminho, à tua procura...
Por uns caminhos subia, outros descia,
tudo percorria com grande bravura;
ora caminhava, mas, por vezes corria...
Andava por qualquer trilho ou rua;
tinha muito a percorrer, eu sabia.

Subia muito mais do que aquilo que descia…
no meu pensamento, eu queria te encontrar,
como te queria tanto, sabia que não desistia...
Muito do meu percurso foi à luz do luar.

Trepava pelos taludes e subia escarpas,
Sofria tropeções, arranhões, mas nada temia...
Subia pelos montes, descia falésias e vales,
Por todos os lugares eu andava e percorria...
Queriam-me ajudar mas recusei a companhia deles,
Sabia que mesmo sozinho te encontraria.

Passei maus momentos devido às chuvas e vendavais...
Parece haver deuses que só me queriam atrapalhar;
Atravessava uma intempérie de autênticos temporais,
mas eu tinha que te chegar, nem que fosse a rastejar.

Depois de tamanha façanha...
Um pouco desfalecido despertei,
daquela montanha tamanha...
Íngreme, tenebrosa, mas regressei.

Ia sem rumo nem norte...
Na expectativa de te alcançar.
Cansado mas sem medo da morte,
Lancei-me ao caminho sem nunca desanimar.

Mayke

Maio 2014

MARIONETA


MARIONETA

Queria ser, da beleza, do amor, a poetisa;
Queria que o mundo não esquecesse;
Na aridez, ser leve brisa
Que em encanto tudo envolvesse!

Alegre, espalhar Felicidade
Com ternura, numa memória sem idade!
Ir pelos caminhos, pelos montes, os trigais
Guardando no mesmo abraço,
 Os pobres, as crianças, todos os mortais!

Queria oferecer doce vinho, mel e ambrósia,
Nos meus versos carregados de poesia
E correr ao vento, nos pinhais,
Saltitando de ramo em ramo
Como, em toda a Primavera, os pardais!

Dar a todos amor, ternura,
Que na terra só houvesse ventura,
Que todos fossem tudo e iguais!

Queria que não houvesse demónios,
Não houvesse Inferno;
Fosse sempre Primavera ou Verão
E acabasse o Inverno...

Não mais haver frio nem fome
E aquele horror sem nome
A que todos chamam miséria!...

Maria Irene Costa

in “Silêncio Branco”

METADE


METADE

Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste...

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é plateia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra metade...
também
Ferreira Gullar

Lido por Manuela Caldeira

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

POTRO SELVAGEM


POTRO SELVAGEM

Invejo
Aquele potro selvagem,
De indómita vontade
E rara beleza,
Que vejo
Correr por montes e vales,
Fingindo, em seu louco desejo,
Uma dança, à vida,
Um poema, à liberdade
E um hino, à natureza!

Ao vê-lo
Solto o grande potro
Que há em mim
E, sem preocupações de zelo,
Deixo que meus dedos
Finjam ser dez potros em frenesim
Cheios de ávida impetuosidade,
Percorrendo as terras
Do teu corpo sem-fim,
Desfrutando o doce prazer
De verem, por magia,
A liberdade e o amor
Converterem-se em poesia!

Manuel Maia

PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO


PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade, para perder o medo,
Ao lado dos teus passos caminhei…

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite, meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho, minha vida, minha imagem…
E abandonei os jardins do paraíso.

Cá fora, à luz sem véu do dia duro ,
Sem os espelhos, vi que estava nua…
E ao descampado se chamava tempo!

Por isso com teus gestos me vestiste,
E aprendi a viver em pleno vento!...

Sophia de Mello Breyner Andresen
in “Livro Sexto” (1962)

lido por Maria Afonso Morais

TROVA DO VENTO QUE PASSA


TROVA DO VENTO QUE PASSA

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

vl navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre
Lúcia Martins

É TARDE AMOR


É TARDE AMOR

Não entendo meu amor, porque vens tão tarde...
Passaram anos, dias, horas e cada minuto fez de
nós o escuro que paira na rua
Olho a lua, está que ilumina o meu pensamento
As miragens de novo, divago e contínuo com
o teu lugar de vago
Não entendo meu amor, porque vens tão tarde...
Olho o horizonte da janela do meu quarto
Ao fundo naquela linha que limita o céu
parece que ouço o mar
Não entendo...
Não esta vento, meu pensamento não
consegue parar,
Geme de dor o meu corpo.
E eu, meu amor?
Continuo... Morrendo aos pedaços,
Feitos por estilhaços.
Que a vida plantou em mim,
É tão tarde meu amor...
E eu ainda não entendo, esta distância
Porque vens tarde?
Porque te amo?
Mesmo ao meu lado,
Sinto...
Falta do tempo que não estas,
Sinto falta de ti!

lo escrita
in “A Menina que fui”

lido por Mirabel Correia

À BEIRA-DOURO


À BEIRA-DOURO

o meu pensamento à beira-Douro transborda cardumes
na Praça do Cubo entranço as pernas e deixo nascer o desejo
de ser não eu, de alma enroscada no rio,
mas outra poetisa ruiva e louca
desgrenhando versos no azul fluido das margens
comendo azeitonas verdes com a cor do olhar
que dirige aos homens que passam
vagabundos como ela de países e almas
desancorados de promessas ou amores contingentes

Jacinta Quelhas

in “Porto, Cais de Todos os Rios”

EDUCAÇÃO... E O MAIOR VALOR!


Porque "Cultura é Educação"; eu escrevo a expressão da "cultura"
no sentido da sabedoria, da instrução e também, da "educação".

Assim, "aconteça o que acontecer,
eu sempre vou querer,
que o meu viver..."
seja, "no sentido de nunca esquecer"
que "Cultura, também é Educação!"

E,
EDUCAÇÃO... É O MAIOR VALOR!

... - O Meu Silêncio... "No Forçado... Limite", Um Dia Grita! –
"No sentir... deste meu Grito!" - O Meu Silêncio... "é o discernimento do
 saber, "por tudo, digerir... com Educação". Porém, há um "forçado... limite"
para tudo, e chegado esse "forçado... limite", eu necessito de "GRITAR e EXTRAVASAR a VERDADE!" porque...



EDUCAÇÃO... E O MAIOR VALOR!

Oh! como eu tenho piedade...
De quem, "se acha e mostra ser superior..."
E que, "com atitudes de prepotência e vaidade..."
Nessa "trama..." julga o outro, "inferior".

Oh! como eu tenho piedade...
"Que seja esquecido, o sentido da lealdade..."
E que, quem pensa ser superior...
"Não saiba conviver em Comunidade"
Com "actos de respeitabilidade..."
Em "saudável e Digna humildade".

Oh! como eu tenho piedade...
De quem, pensa ter
"Sempre, toda a razão!..."
E que, "com atitudes de ingratidão"
Não saiba conviver
Com "sentido de Civilidade..."
E, desrespeita a "educativa liberdade de expressão”.

Oh! como eu tenho piedade...
De quem, tem por querer
“Derrogar a veracidade...”
E, "desprovido de probidade"
Ainda, "oprime duro" a pensar ser
"Alguém superior..."
E, esquece que: EDUCAÇÃO... É O MAIOR VALOR!

Cada qual é o "reflexo" daquilo que fizeram dele...

No Mundo, "todos precisamos uns dos outros"
e, "ninguém é superior a ninguém".
Há outros Irmãos diferentes... também,
porém, "todos devemos dar-nos Bem..."

E porque, "ninguém é igual a ninguém",
para o nosso Bem... "e felizmente",
ainda, "há muito boa Gente!..."


Helena Duarte

in “Luz... na voz do pensamento”

PUS A TRISTEZA NA RUA


PUS A TRISTEZA NA RUA

Pus a tristeza na rua
Numa noite de farra,
Bebi cerveja e vinho,
Chorei, cantei ao verdinho,
E ainda toquei guitarra.

Também escrevi este poema,
De amor, carícias e ousadia:
Usei-o como meu tema,
Cantei e ri todo o dia.

Ai verdinho meu safado,
Só te quero de copo cheio,
É minha vida num fado,
Nesta noite de Devaneio.

A Sede que me apagaste,
Em noites de emoção,
Oh verdinho ó meu traste,
Foi assim que me levaste,
A tristeza do meu coração.

Conceição Lages
17/07/2017
Lido por Graça Silva