sábado, 9 de maio de 2020

Manuela Caldeira



25 ABRIL 2020

Meu canto. Uma guitarra portuguesa.
Dedilhada no sangue até doer.
Doze cordas de mágoa e de tristeza.
E a pátria toda inteira por haver.

Por ela ergo a pena. E não me rendo.
E não me calo. E solto os meus cavalos
que a trote ou a galope vão correndo
sem que nada ou ninguém possa amarrá-los.

E vingo a minha rosa. A minha espada.
O poeta não dorme quando há tanto
desengano na pátria amordaçada.

Não é a doce voz. Não é o pranto.
Nem flor de verde pinho desbotada.
A luta do meu povo é o meu canto.

JOAQUIM PESSOA,

António Gonçalves



VINTE E CINCO DE ABRIL SEMPRE

Era um povo oprimido, amordaçado pelas garras do poder;
Era um povo isolado, sem paz, trabalho e pão para comer;
Era um povo mudo, sem se poder expressar, sem poder dizer sim e não!
Um povo que aniquilava gentes que independência não tinham, não.
Mas um dia, bem de madrugada, soldados e povo disseram basta,
Sobre Lisboa marcharam, apontaram as armas, prenderam os fascistas,
Com cravos vermelhos nas espingardas fizeram aquela revolução!
Cadeias se abriram, exilados e soldados regressaram e cantou-se liberdade!
Por toda a parte gentes oprimidas ergueram suas bandeiras e criaram-se novas nações.
Devolvidas foram as terras a quem sempre as trabalhou,
E nas ruas e nas fábricas operários unidos cantavam a mesma canção!
O caminho foi criado agora há que continuar e lutar
Por um mundo mais justo e igual sempre em renovada construção.
As mãos ergamos, lutando continuemos, democracia sempre, abaixo ditaduras!
Ao passado não queiramos voltar, a sermos devorados por falcões,
Nem queiramos ser mais peixe para alimentar insaciados tubarões!
Porque quando o mar bate na rocha, diz-se e com razão, quem se lixa é o mexilhão.
Unidos demos as mãos e sempre em democracia vivamos
Não aceitemos mais a tortura de que aqueles Capitães de Abril nos salvaram, e
Livres no pensamento e com direito ao nosso pão, para sempre gritemos:
Viva o 25 de abril!
Viva a liberdade!
Adeus, canalhas!
Jamais ditadura,
Escravidão?
Não!
(ToniAntónio, 25.04.2020)

Goreti Dias



“Ode à Liberdade”

Quero-te, como quero ao ar e à luz
Porque não sou a ovelha do rebanho,
Nem vendi ao pastor alma e a grei;
E onde não haja mais do que o redil,
Es tu a minha pátria e a minha Lei.

Leva-me onde as estradas me pertençam.
Porque as vozes viris que me conduzem
Ninguém, melhor do que eu, sabe dizê-las;
Porque eu não temo as livres solidões,
Onde habitam os ventos e as estrelas.

Leva-me ao teu sopro, éter divino,
Porque me queima a sede das alturas
E o meu amor se oferece sem limite;
E és tu que abres as asas aos condores,
És tu que ergues os astros ao zénite.

Toma-me nas tuas mãos de Sagitário,
Faze de mim o arco retesado
Pelo teu braço e a tua força inquieta,

Pois, quando o meu desejo atinge o alvo,
És tu o impulso que dispara a seta.

E lá, sempre mais longe, além do Oceano,
Nos limites do mundo conhecido,
Em plena selva e onde há que abrir a senda,
Que eu quero devorar os frutos novos
E erguer à beira de água a minha tenda.

Torna-me ágil e ardente, alma do Fogo,
Porque tu és a inspiradora inquieta
Dos bailados da morte e da alegria;
E eu prefiro ao aprisco a vida heróica,
A que devora o ser, mas alumia.

Queima-ma, embora custes, quando negas,
Quer o ódio fanático dos bonzos,
Quer o ciúme vil dos fariseus.
Sou dos que amam demais a Divindade
Para poder acreditar num deus.

Não és a flor da beira do caminho.dos que amam
Bem sei que é preciso conquistar-te
A cada novo dia e duro preço.
Por ti tenho sofrido quanto os homens
Podem sofrer. Por isso te mereço.

Por ti sofri os transes da agonia,
Desde a fome da alma no deserto
Ao pão que, por amargo, se recusa.
E, náufrago da grande tempestade,
Cá vou sobre a jangada da Medusa!

Gerou-te, lentamente, com revolta
E dor, a consciência dos escravos;
Renasce mais perfeita a cada idade;
E, sempre, com as dores cruéis do parto,
Dá-te de novo à luz a Humanidade.

Querem mãos assassinas sufocar-te
Nas entranhas maternas. Mas em vão.
Virás como a torrente desprendida,
Porque és o sopro e a lei da Criação
E não há força que detenha a Vida.

Jaime Cortesão

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Maria Afonso Morais

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
(Fernando Pessoa)

Alzira Santos e Paulo Vaz de Carvalho



“No Caminho Com Maiakóvski”

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem. 

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada. 

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir. 

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais. 

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados. 

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!
EDUARDO ALVES DA COSTA

NESTA HORA


NESTA HORA
Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exilio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida 

O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe 

A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados 

Não basta gritar povo
É preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão 

Para construir o canto do terrestre
- Sob o ausente olhar silente de atenção - 

Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste.

Sophia de Mello Breyner Andresen | "O nome das coisas", 1977


domingo, 16 de fevereiro de 2020

Ester de Sousa e Sá


GOSTO

Gosto quando abro a janela do quarto
logo pela manhã, e a brisa do mar me acaricia,
inunda a alma de esperança dando os bons dias.
Gosto do ribeiro de águas mansas em tempo de estio
que, com as fortes chuvadas que molharam a noite,
corre de margens largas e cheias, a transbordar alegria.
Gosto da natureza vibrante e palpitante,
que nos convida a tomar parte na vida!
Gosto de caminhar na floresta verdejante,
e na singileza de cada planta e flor perfumada,
ficar maravilhada por ver acto de amor incontido,
obra do Criador há milhares de anos repercutido!
Gosto de observar em silêncio,
as aves que voam junto ao ribeiro em alegre sinfonia,
fico a pensar como seria bom poder voar mais alto ainda...
poisar no topo do cipreste e assobiar apaixonada melodia,
e quando meu amor a ouvisse, voasse para meus braços,
perdido de paixão em meu colo se aninhasse.
Gosto que me sussurres palavras carinhosas,
me beijes com paixão e ternura por toda a minha vida,
e no calor dum abraço meu amor, sintas
que eu sou tua!

Poema de Ester de Sousa e Sá

(Fevereiro 2020)

Manuela Caldeira

O puxador da porta da cozinha

O puxador da porta da cozinha está estragado
faz um mês. Não passa dia sem que peças
que conserte o puxador
não concebes ser possível eu
sempre ter tido engenho para estas coisas da casa e
ainda não ter tido tempo para compor
o puxador. Mas
não se trata de nada disso. Já
o teria composto (se o
quisesse arranjar
teria arranjado tempo
não me ia custar mesmo nada. Mas
depois ia haver que alfinete encravado na rotina?
Como não estranhar a absurda
ausência da avaria?
Deixa-o
ficar assim. Deixa-o andar assim
(ternamente avariado).
Cada dia pela manhã
Quando passares à cozinha
(calculo que por
entre as sete
sete e um quarto sete e meia
e ficares com o
puxador da porta da cozinha na mão
tua voz regressará ao
exaustivo pedido
(ao alívio confortante de essa ser
nossa alegria) e
eu sentir-me-ei feliz por
ainda te ter por perto
por me
fazeres companhia.


João Luís Barreto Guimarães, O Tempo Avança Por Sílabas

Conceição Oliveira


Igrejas do Carmo São Bento Congregados
Onde mulheres gastas cor das pedras
Crianças velhas por viver de olhos maiores que a barriga
Meninas mulheres cheias de barriga até aos dentes
Cheias até à ponta dos cabelos incertos
Cheias de fome e de filhos com fome
Vendiam atacadores pentes esticadores pós colarinhos
Ó qrida lebeme um raminho de bioletas
Por alminha de quem lá tem quinda num me estriei
Quem quer esticadores pós colarinhos quem quer
Com os seus pregões feitos gemidos quem quer
Quem quer e ninguém queria

Tim Tim Tim Tim
Havia o carro eléctrico Tim Tim
Era amarelo amarelinho Tim Tim
Banco de palhinha e era amarelinho Tim Tim
Srs passageiros chegar à frente por favor Tim Tim
E eram encontrões apalpões olha o filho da
Que me apalpou o cu era bom ir até ao mar
E o mar lá estava e já lá estava o mar Tim Tim
Era tão bom ir até lá longe até à Foz ver o mar
O mar enrola na areia
Ninguém sabe o que ele diz
Bate na areia e desmaia
Porque se sente feliz

Palácio de Cristal agora feito um espremedor
Ir lá era dia de festa os cisnes no lago
Flores e um pobre macaco pássaros coloridos
Comer a língua da sogra barquilhos
Um sorvete de dois tostões do feitio do meu sonho
A fava rica camarinhas tremoços pinhões enfiados
Pirolitos e com a bolinha jogava ao berlinde
Sou primas sou sigas sou trigas

Mas o mais difícil é falar da minha Rua
Por pudor por receio de os chocar
Reconhecem-me lá
Reconhecem-me lá na minha rua prisão
Rua sem calor nas almas feitas de pedra
Rua de ódios de raiva funda calcada
Rua fria rua feia rua sombria
Rua das vidas mal vividas
Olhem-me bem de frente
Reconhecem-me lá
Rua dos obscuros sentidos
Rua suja dos bêbados pelos cantos
Rua sempre molhada escorregadia
Rua da cadeia das cadeias sem elos
Rua de pouca gente boa sem história
Rua do amor alugado no vão de uma escada
Rua do amor oferecido nos sexos apodrecidos
Rua do desamor rua do ciúme
Rua dos mendigos esperando as sopas
Rua das esperas nas esquinas
Rua dos cães sem dono e sem coleira
Sou o que resta dessa rua sem sol
Da casa sem janelas sem nada
A minha rua era assim

Aurora Gaia

Adolfo Castelbranco


E QUE NÃO FOSSE
(um dia já não serei ausente)

E duma parte, de tudo que não fosse,
chegue para mim o que não trouxe
que chegado, por genuíno bastaria
mesmo já servido do que não queria.

Queria e devido, o abraço materno,
robusto colo para as noites de inferno,
sorrisos em forma d'encantamento
com reprimendas no devido momento.

Chegada a ocasião, visto com decência,
glosada 'teimosia, fiz-me presente
trazendo da memória o que precisava,

E precisei apenas saber que a amava,
tendo de conforto mesmo descontente
saber-me lembrado pela ausência.

Cito Loio

19/05/2018

Maria Adelina Gomes


Mira Correia


Pompeu Pais

A FLOR
Toquei o amor
Ouvi os gemidos do amor
Vi alegria no olhar
Cheirei a flor
Tulipa violeta
tocada pelo azul do céu
Saboreei a canela
do corpo dourado pelo sol


Pompeu José Vieira Pais

Paraty

Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão

Poesias Completas (1956-1967)

Otília Rodrigues


O MAR É MEU CONFIDENTE

Meu silêncio...
Meu refúgio...
Meu encontro com a paz!
Foi à beira-mar
Que deixei a minha tristeza
Dei por mim a pensar
Em incomparável beleza!
Olhei o imenso infinito
Como é lindo o azul do mar
Aproximei-me com o intuito
De com as ondas desabafar!
Partilhei a minha dor
Na esperança de voltar
Com o coração cheio de amor
E a minha alma a brilhar!
Neste mar gigante
Refúgio da minha dor
Encontrei a tranquilidade
E assumi o papel de Sonhador!
A brisa me bate no rosto
E eu baixinho lhe peço
Leva meus pensamentos
A percorrer o universo!


Otília Rodrigues

Helena Duarte


Aida Araújo Duarte


Lacerda e Megre



QUADRAS

Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço
Que não parecendo o que são,
São aquilo que eu pareço.

Sou humilde, sou modesto;
mas, entre gente ilustrada,
talvez me digam que não presto,
porque não presto p`ra nada.

Forçam-me mesmo velhote,
de vez em quando a beijar
a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar.

Por de Deus ter recebido
tantas provas de bondade,
já lhe tenho até pedido
a morte por caridade.

Porque o mundo me empurrou,
caí na lama, e então
tomei-lhe a cor mas não sou
a lama que muitos são.

Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas

lições de filosofia.

António Aleixo, (Este livro que vos deixo)

Arnaldo Teixeira dos Santos


Amândio Vasconcelos


Isabel Moura



IMPORTÂNCIA

As palavras mais bonitas
são aquelas palavras que,
não podendo ser mais bonitas do que são,
não são mais bonitas do que os gestos
que vêm antes ou depois delas
ou que vêm com elas.

Inventaram os gestos
para confirmarem que
as palavras que são verdadeiras, mesmo sentidas.

"Amor", para dar um exemplo,
é uma palavra que se escuta bem no sussurro
que a pele de um pessoa encosta na pele de outra.

"Amizade", para dar outro exemplo,
é uma palavra que melhor se faz ouvir
com uma simples presença,
no lugar certo,
no tempo certo,
quando alguém precisa de alguém

E há, também, só o silêncio,
e só olhares trocados:
sem palavras nem gestos.

É assim, para além do dizer e do agir,
na ausência de tudo
o que poderia servir para troca
das palavras mais bonitas
ou dos mais nobres gestos,
que diálogo ainda mais bonito existe:
há pessoas, que todos temos,
das quais e para as quais não precisamos
de palavras nem gestos -
o silêncio e os olhares trocados bastam
para o mais belo modo de dizer a uma pessoa
que se gosta dela
ou se sente amor por ela.

Bastam as almas das pessoas, sim.

A alma fala usando silêncios e olhares.
O mais belo gostar e o mais belo amar
vêm da alma, do lugar onde nada se explica
mas onde nada é passível de ser contraposto
ou mensurado
por falta de qualquer dúvida.

Quem gosta e ama com a alma, gosta e ama mesmo!
São assim as amizades
e os amores
de maior certeza e tamanho.
Mas… e a importância das palavras?

Quando inventaram as estrelas,
algumas foram pensadas para serem
presentes embrulhados pela voz.
Quem não gosta de receber presentes assim?
Diga “gosto de ti”
diga “amo-te”.

Quando inventaram as pessoas,
todas foram pensadas
para ouvirem dizer que são apreciadas, desejadas.
Diga “pensei em ti”,
diga “quero-te”.

As pessoas mais bonitas são
as que vestem beleza,
letra por letra, na sua voz;
que no-la vestem no ouvido;
que nos enchem a alma ainda mais.

Declare-se.

Quando se gosta,
quando se ama,
É para se dizer.

Autor - Sérgio Lizardo

Título – “ SEMENTES DE NÃO ACONTECIDOS “

Céu Guedes



HÁ-DE FLUTUAR UMA cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

    (anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração.
mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crespusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta

inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

AL BERTO (1948-1997)
In Vigílias
selecção e prólogo de

José Agostinho Baptista

Fernanda Guedes



PROMESSA DE NOIVADO

      Põe a tua mão  no meu coração,
diz que me amas como as árvores  dos bosques
               lá, nas colinas,
  se apoiam ao contorno dos montes.

         Apoiar-te-ei quando fores
      tronco e ramo florido
  e estarei a teu lado quando fores
          raiz, fruto e folha caindo.

SCOVELL (1907-1999)

In PARA Noivas

HELEN EXLEY

António Sá Gué


Medo

Ninguém sabia de ti
e eu encontrei-te.
Cavei,
arei,
meti as mãos dentro de mim,
fui ao fundo do mar,
remexi os arquétipos de nós,
revirei o universo dos outros,
aparei os raios das minhas trovoadas,
mas encontrei-te.
Encontrei-te, finalmente!
Vi-te na negritude da noite,
no silêncio da palavra,
no grito sem dor,
nos fósseis das ideias.
Eu sou tu.
Encontrei-te!
No fluir do sangue,
no mastigar de mim,
na síntese da vida,
no terror do Nada.
Toquei-te!
Sei, sem saber, que te toquei.
Saboreei-te!
Nos pingos
da dor ausente.
Tu és agridoce,
tu és eu.


António Sá Gué