quarta-feira, 12 de julho de 2017

ELEGIA DAS ÁRVORES


ELEGIA DAS ÁRVORES

Os homens não me conhecem. Mutilam o meu
corpo porque não entendem os abraços dos meus
ramos. E só ouvidos brancos sabem dos gritos
da seiva. Só eles sabem do coração das minhas
raízes afundadas nas cicatrizes desta humanidade
que tudo esquece.

Os homens não me conhecem e por isso engolem
as folhas com a fúria de todas as pressas sem
tempo para as lágrimas. Eles não sabem que
a minha dor vem de tão dentro
e de tão fundo

que um dia será tudo.

Virgínia do Carmo
in “Poemas simples para corações inteiros”

lido por Maria Augusta da Silva Neves

HUMANIDADE


HUMANIDADE2

Pétala a pétala.

Os olhos escorregam-me pelos precipícios
molhados de um inverno que teima
em chover

[pétala a pétala]

sobre este chão que me corre nas veias rompendo
a pele da Paz que nos falta. Gritos e gemidos
que ressoam na superfície da Humanidade a dor
que vem do fundo de um sofrimento afónico,
comprimido no âmago de todas as flores do mundo.

E eu choro, pétala a pétala, escrita com hastes de fome
e olhos tristes, uma certa cor que se some na areia
de um deserto sem lugar. Uma rosa dos ventos
partida tentando respirar como se houvesse espaço
nas mãos do tempo para mais um pouco de
esperança. Uma beleza quebrada ao meio
num jardim dividido pelos homens,

pétala a pétala.

Virgínia do Carmo
in “Poemas simples para corações inteiros”

lido por Lourdes Alegria

LITANIA HERÓICA


LITANIA HERÓICA

Entrem, entrem os ventos, os chuveiros, as estrelas,
No palácio inabitado
Sem telhado, sem-vidraças nas janelas...
Que os vidros se me estalaram,
O telhado me voou,
E, pelas, mil caminhos que ante mim se desdobraram,
Os meus passos me levaram,
E eu lá vou (nem sei se vou…)!

Sem preferir, sem definir, sem restringir, avanço
De renúncia em renúncia, luta em luta.
Não sou para ter descanso,
Não para ser redimido...

Também não sou para vencer ou ser vencido.
Lutei, e luto, e lutarei...
Do Nenhum-Reino é que sou rei!

Também não sou para dormir nas estalagens.
Venho de trás, vou para a frente...
Como bastar-me o presente?
Lucidamente delirante, o meu olhar é um rastro ardente
Incendiando todas as paisagens...

Por tudo isto sou profundamente só,
E me debato na ansiedade,
E nada sei ver só dum lado,
Porque, pairando em tudo corno a luz ou corno o pó,
Transbordo de humanidade,
Vivo desumanizado...

Vivo na heróica Tortura,
E viva a magna Aventura!
Minha Grandeza é sem cura...,
Renego a felicidade.

Entrem, entrem, os ventos, os chuveiros, as estrelas,
No palácio inabitado
Sem telhado, sem vidraças nas janelas...

Entrem as aves nocturnas,
Os animais sem dono, as feras brutas,
Os fantasmas peregrinos,
E os lunáticos, os párias, os ladrões, os assassinos,
Que têm olhos como furnas,
Bocas mudas como grutas...

Tudo em que mais vasto for,
(Sei-o! bem no sei, Senhor!)
Pagá-lo-ei demasiado caro.

Faça-se, pois, em mim toda a vossa Vontade,
Emudeça em meu lábio o vão reparo...

Em mim se cumpra a vossa Imensidade!

... E a vida me persiga
Com as misérias mais subtis e menos gloriosas,
As decepções mais insólitas,
Humilhações mais recônditas
E raras,
Para que enfim se extinga em mim a veleidade
De também ir atrás de nem sei que felicidade...

Entrem, entrem os ventos, os chuveiros, as estrelas,
No palácio inabitado
Sem telhado, sem vidraças nas janelas...

E de misérias, decepções, humilhações,
E apelos de velhos vícios,
E virtudes ignoradas,
Farei látegos! cilícios
Para me modelar às chicotadas!

Assim não pare, nem descanse,
Seja em que lar ou seja em que deserto.
Sem preferir nada a nada,
Fugindo sempre da estrada,
De contínuo avance!
Avance, sempre mais longe e mais perto...

Porque não é em mim que me sonhei viver!
Meu ser-eu só me aperta, e só sonho esmagá-lo.
Livre, sou tudo que é, foi, há-de ser,
Vivo em tudo que vive, há-de viver, viveu...

E então, quando eu disser: «eu...»,
Já direi: «Não! não é de mim que falo!»

Entrem, entrem os ventos, os chuveiros, as estrelas,
No palácio inabitado
Sem telhado, sem vidraças nas janelas...

José Régio
in “Poemas de Deus e do Diabo”
Lido por Rosário Lemos

RAINHA DA FANTASIA


RAINHA DA FANTASIA

Deixa-me ser a Rainha da Fantasia
nem que seja...
por um dia!
Deixa-me transformar rostos de mágoa
em singelos fios de água,
deixá-los escorrer
da minha boca para a tua
e transformar estes fios
num regato de ternura
Deixa-me ser a Rainha da Fantasia,
encher o teu mundo de alegria
nem que seja...
por um dia!
Deixa-me calcar o chão aos nossos pés,
remar contra ventos e marés,
deixa-me dar música aos nossos lábios
com notas de rubis,
dar brilho aos nossos olhos,
enfeitá-los com miosótis.
Deixa-me ser a Rainha da Fantasia
e fazer do teu mundo
um reino de magia
nem que seja...
por um dia!

Poemas de Fernanda Cabral
in “Por dentro das palavras”

lido por Ester de Sousa e Sá

ATÉ DEPOIS


ATÉ DEPOIS

Depois da noite, o dia chega-me sempre como uma nova ameaça, despido de esperanças, mas resisto a deixar-me levar pelas ondas do abandono em que a minha fraqueza física me quer lançar. Espero, como sempre, por ti, agora mais do que nunca, porque não me sobra tempo para esperar. E, por fim, chegas, reconheço os teus passos cuidadosos e ternurentos. Trazes contigo aquele ar de falsa normalidade com que me queres salvar e então renasço novamente. As palavras, essas saem-te obliquadas entre o receio de dizeres algo a mais ou a alegria incontida de me trazeres qualquer coisa nova. Como te leio da primeira à última página e te pressinto a caminhares em mim há demasiado tempo! Mas não o suficiente, anseio pelo menos por mais uma metade de tudo o que já demos um ao outro.

Então, inventámos jogos de palavras para aprender a dizer medo, raiva, tristeza, angústia, saudade, morte, amor...cancro... Deus, mesmo naquelas alturas em que coragem me morre por dentro e sei que a presença da minha ausência te marcará um dia. E aí, ao pé de ti, não anoiteço e estas manhãs são sempre descobertas de coisas que ainda preciso de saber sobre ti para levar comigo e de coisas sobre mim que quero deixar contigo.

Por vezes, ousas perguntar se tenho medo. Na altura própria dir-te-ei, mas não te quero assustar e viro-te as costas para que o teu sorriso me venha abrir a porta da esperança. Agarras-me as mãos e calaste para me proteger da dor, minha e tua. E, no incómodo do silêncio as palavras ganham, outra dimensão, ficam, coxas, enfraquecidas e cheias de dores, numa cumplicidade com este meu corpo que se vai entregando. Mas, sabes, a Vida é possível mesmo com dores e com a morte logo ali à espreita. E nesse mesmo silêncio tornamos legítimo o espaço à tristeza, à angústia e ao medo.

Por vezes sufoco com as saudades que irei ter de ti, do teu toque, do teu cheiro. Como vou dormir sem aquele teu abraço protector sobre mim? Com quem vou passear de mãos dadas ou dedos entrelaçados? E já não conto os dias que marcam a minha vida, deixaram de querer acreditar, porque é tarde demais para voltar atrás. Os meus olhos, esses riem para que os teus não detectem, sofrimento.

Não pergunto os porquês, mas questiono por vezes se tudo não passa de um sonho. Olha, vamos comprar uma viagem, mesmo que saibamos que só tu a irás realizar, eu partirei contigo mas noutra direcção. Vamos viver um momento de eternidade, um segundo de esperança, para que quando eu acordar tu ainda estejas aqui. Sim, porque eu não quero adormecer com saudades na escuridão ou acordar cedo demais e dizer, vou morrer hoje. Não, não quero que deixes morrer a vida em que estivemos vivos, quero isso sim que escrevas no meu obituário - Ela me amou.

- E tu, vais-me amar? Antes ou depois?

Sempre, em qualquer instante! Responder-te-ei - e durante toda a minha vida.

Nelson Neves

ROMANCE


ROMANCE

Estava Santo António
um sermão a decorar,
quando o Menino Jesus
... no livro lhe foi poisar,
tão bonito e tão alegre
que era mesmo de pasmar.

-Menino, olhe que amanhã
tenho muito que pregar,
andam as almas perdidas;
anda o demónio a tentar,
para vencer o demónio
tenho muito que estudar.

-António, tanta leitura
vai os teus olhos cansar,
nunca levantas cabeça,
nunca vais apanhar ar;
leva-me em cima do livro,
vamos os dois passear.

-Mas, meu Menino, amanhã
tenho muito que pregar,
se me não ouvirem homens,
oiçam-me os peixes do mar;
as almas perdem-se todas
e eu todas lhe quero dar.

-António, as almas perdidas,
sempre as havemos de achar;
o dia está tão bonito,
estão os cravos a cheirar;
se me não levas ao colo,
co'os teus papeis vou brincar!

Afonso Lopes Vieira
Lido por Marília Teixeira

ESTA É A CIDADE


ESTA É A CIDADE

Esta é a Cidade, e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!

São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

António Gedeão
Lido por Maria Adelina Gomes

"(...) um dia...


"(...) um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela, sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade."

José Luís Peixoto
in “A Criança em Ruínas”

Manuela Caldeira

DIZ-SE PELOS SANTOS POPULARES


DIZ-SE PELOS SANTOS POPULARES

Santo António, São João e São Pedro
Santos populares sabidos
Que para ninguém é segredo
Como milhões de euros, escondidos

Assim diz-se pela época ser
Do alho porro e manjericos
Que é muito importante dizer
Assim também de muitos ricos

Da época ser de quadras
Com teor, que tem de rimar
Lembra muitas bestas-quadradas
Que passam a vida a roubar

Santo António, São João e São Pedro
Oiçam bem o que deles se diz
Por causarem um viver de medo
Por se ver muito infeliz

De contas nos Bancos a crescer
É o que fazem todos os ladrões
Que de tudo tem bom viver
Que haviam de estar nas prisões

Após o fisco, tudo lhes confiscar
Deles deviam ser os lugares
Exemplo para outros não roubar
Diz-se, pelos santos populares.

José Oliveira Ribeiro

HOJE RECORDO TODAS AS HORAS IMPOSSÍVEIS


HOJE RECORDO TODAS AS HORAS IMPOSSÍVEIS

Hoje recordo todas as horas impossíveis queimando a
nossa carne sobre rosas rubras. As estrelas servem de luzeiros às nossas madrugadas onde as vagas de amor cantado por nós se fazem ouvir sobre o zumbido do vento. No céu vermelho de palavras inexistentes, a paixão pelas letras traça o compasso de beijos lentos, a insanidade dos lábios adentrando novos sinónimos num dicionário plantado num lago de lençóis azuis.

Imortais nos fazemos em cada célula plantada no corpo do sol que nasce e nos beija os olhos inquietos de tanto nos lermos.

Cale-se o vento, ouça-se o trovão numa onomatopeia rude que faça calar a saudade que hei de escrever na tua ausência.

Goreti Dias

in “singularidades & etc.” 

MATA-ME AS PONTAS DOS DEDOS


MATA-ME AS PONTAS DOS DEDOS

Mata-me as pontas dos dedos,
os anéis e as unhas podres.
Desenha-me os pulsos,
as mãos dóceis, e os ombros poderosos.
Um dia,
o corpo calçado nas tabelas das noites
acordará nu,
procurará cetins,
lantejoulas
e aromas de cedros
cortados à madrugada.
A matinal luz orvalhará,
pintada de roxo,
as giestas e os arco-íris,
como quem se sabe senhora
dos destinos e desatinos.

Pintar-se-á o ar límpido da manhã,
lavar-se-á o céu,
a pele
e a alma,
assim como quem sabe do tempo
a falta de tempo.

Goreti Dias
in “singularidades & etc.”
lido por Isabel Moura

FECHO-ME NUMA TARDE DE MÃOS E LÁBIOS



FECHO-ME NUMA TARDE DE MÃOS E LÁBIOS

Fecho-me numa tarde de mãos e lábios, em momentos
tocados no prazer de músicas entoadas a dois corpos!

Roubo parágrafos de amor ao teu peito e devolvo-as aos
teus ouvidos sedentos de paz; mergulho em ti e encon-
tro-me num desfrutar de posses intensas e perfumadas...

Olho o horizonte e descrevo o sol brilhando sobre o mar
do nosso amor!...

Goreti Dias
in “singularidades & etc.”
lido por Dionísio Dinis

VIA-SACRA


VIA-SACRA

Nem só o Cristo foi crucificado!
Também eu tenho suportado,
Um pouco, o peso dessa Cruz
Madeiro que não seduz
Tão difícil é o seu porte
No duro caminho para a morte!

Condenado,
Desterrado,
Espezinhado,
Prostrado
Sob o lenho,
Se me quero sentir ajudado
Nos revezes,
O recurso que tenho,
Muitas vezes,
É cantar como um carro carregado!
É pedir o alento dos meus passos
À coragem dos meus versos
Que de estação em estação
Vão ficando dispersos
No íngreme percurso do Calvário
E são o santo sudário
Do meu rosto amargurado,
Ferido e desamparado
No chão da caminhada.
Como auxílio que emprestasse ao próprio corpo
A sombra por ele mesmo projectada.
S. Salvador, 1965

Flávio Capuleto
in “Mensagem”

lido por Lúcia Martins

O LUGAR IDEAL


O LUGAR IDEAL

Não há um lugar ideal para amar.
Não há um momento propício para demonstrar o amor.
O nosso podia ter acontecido numa simpática esplanada de uma
estação de serviço,
numa manhã de sol,
perante o olhar embasbacado dos que não amam,
dos que não sabem o que é o amor.
Aqueles que não entenderam porque, naquela manhã, eu e tu
tínhamos um semblante que transbordava felicidade!
A tua cabeça levemente apoiada no meu ombro,
as mãos dadas,
os sorrisos cúmplices,
a minha mão apoiada nas tuas pernas,
os olhares de malícia,
a recordação das loucuras da noite anterior,
porventura as marcas deixadas na rua pele,
e na minha pele.
O ar de satisfação de ambos.
Ali, o nosso beijo demorado,
sem tempo e sem pressa,
alheio aos olhares de reprovação (ou seria inveja?).
selava mais um momento de amor,
do nosso amor,
de um amor sem lugar,
sem tempo,
sem limite.

Cândido Arouca
in “O Amor não pára p’ra jantar”
 lido por Graça Silva