sábado, 27 de outubro de 2018

E TU NÃO ESTÁS



E TU NÃO ESTÁS

E tu não estás
E eu ouço um murmúrio
Que vagamente ecoa na minha alma adormecida
E se ergue na vastidão do tempo!
Tu encheste as manhãs de maresia
E eu dei ao Tempo a minha vida
E guardei de tudo um punhado de nada.

E tu não estás...

De todas as emoções que acalentaram a minha alma
Eu bebi sofregamente as manhãs de orvalho
E percebi que lentamente me despojava
Em troca de uma esperança inacabada.

Foi tudo por nada.

Desse orvalho que eu bebi
Na procura da minha inteireza,
Tu não estiveste
Tu não dividiste comigo as amarguras do tempo
Não trilhaste comigo os amplos espaços
Não abriste comigo os sulcos da areia enlameada
E eu percorri sozinha os caminhos calcinados
E dei à vida a minha vida.

Mas foi tudo por nada!


Acilda Almeida

DEPOIS...



DEPOIS...

No cair lívido e ausente
Acolho-me na minha tela seca
Sem espaços ou actos luz
...No embriago de uma leitura
Que não vejo...
Atiro com as cores do meu impossível
Junto-lhe bátegas de espuma apego
Mares de ciano... nuvens ousadas
Odores de manhãs frescas
Suores doces de beijos horizonte
Esboços de luares sorriso
E o velho olhar... cega-se no almejo... que sucumbe.

Só... frente à falésia apoio
As gotas das cores símbolo
Esmagam-se em danças sem ritmo
E os fluidos aguarela
Cristalizam em flocos indefinidos
De arrojos contraste internos
Em matizes esbatidos de nós... dor...

No nevoeiro da beleza perdida
Sinto revoluções desconhecidas
Ouço silêncios em discursos gelados
E volto a ler o Início
De datas sem calendário
Ou rimas sem flor
Ou tempos sem horários...

… … …
Rodopio o fluxo necessário
De um respirar constante
E, arrisco escrever...
...Te...

José Luís Outono
in “Da Janela do Meu (a) Mar (Ed. Vieira da Silva, 2011)
lido por Manuela Caldeira

MARIANO


MARIANO

Canta com a força do amor
Ao seu mundo dedicado
Mariano seu mentor
Em cada poema cantado (bis)

Agarrado ao violão
Melodias vai tirando
Saídas do coração
Que está sempre cantando (bis)

Canta a loiras, ou morenas
Com a mesma dedicação
Seu amor. e. não apenas
Como tema da canção (bis)

Também canta à floresta
Como canções de embalar
Cante ao Mundo uma festa
Pois a este quer mostrar (bis)

Amor em cada canção
Vai trinando todo o ano
Agarrado ao violão
É assim o MARIANO (bis)

dedicado à amiga:
Maria Teresa Lopes, pela sua dedicação
a Mariano…

Celso Miranda
15/10/18  Porto
Lido por Maria Teresa Lopes

SONETO DO AMOR TOTAL



SONETO DO AMOR TOTAL

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude

Vinicius de Moraes
Lido por Jorge Carvalho

XXV



XXV

Cruzo ilusões no leito da verdade,
queimo tardes cinzentas roubadas ao dia
apática no som que te não alcança.

Serena janela do mundo,
dá-me um novo amanhecer,
tinge de verde a minha desolação,
planta-me uma lua cheia na minha pele
e cancela a ausência em cada amanhecer!

Amontoa-me palavras na palavra,
canta-me devaneios à ilusão
e deixa fervilhar a ideia mais audaz.

Deixa-me escrever passados e presentes,
escreve-me tu o futuro!

Goreti Dias
in “Dos Prazeres e seus Contrários”
Lido por Maria de Lourdes Ferreira

MAR



MAR

De um azul carregado
Vejo aquele mar salgado
Com o sol no horizonte
Batendo nos olhos defronte
De um vermelho rosado
Seu reflexo nas águas nos é mostrado
Pontos negros nesse céu
Que dão beleza às nuvens
Ainda não escureceu
As nuvens parecem ferrugem
Gaivotas voam contentes
Naquele céu avermelhado
Ao longe tão diferentes
Sobre um mar pouco ondulado
Eis que chega a bruma
E o luar abençoado
Tecido feito de espuma
Sobre os rochedos rasgado
É noite, o sol desapareceu
Sobre a água do mar
Reflete-se o luar
Como um convite seu
Para quem quiser amar...

Celso Miranda
18/10/18 Porto

Operação


O poema que fiz faz hoje dois anos e meio.
Dia 20/4/16, tinha uma operação marcada ao joelho direito
Porque tinha o menisco partido e liquido no joelho, isto no
Hospital dos Lusíadas no Porto, mas na véspera desmarquei.

Tinha a operação marcada para hoje
Não sei como mereço tanto
Muito Obrigada meu Deus,
Mas sei que rezam por mim
A maior parte dos Amigos meus.

Contra as ordens do Médico
No Domingo fui ao Baile
Nos Bombeiros de Ermesinde,
Desde o principio ao fim
E fartei-me de dançar,
E não é que o meu joelho
Começou a melhorar???

Quem sou eu para merecer isto?
Sou simples e humilde
O que é que eu fiz Senhor?
Mas a todos os meus Amigos
Eu tenho muito amor.

Peço a Deus por toda a gente
Porque é que eu sou assim?
Mas o que eu peço para os outros
Deus transfere-me para mim.

Também sei que tenho inimigos
Pelo menos algumas inimigas
Tudo por dor de cotovelo
Mas que culpa tenho eu?
De Deus não lhes dar a sorte
E os dons que Ele me deu?

Tenho pena dessas Pessoas
São tristes amargas e nada lhe corre bem,
Senhor modificai-as e fazei-as felizes
Para que me deixar em Paz
E para que elas sejam felizes também.

Fiz este poema muito á pressa
Mas é aquilo que eu sinto,
São palavras que me saem do  <3
E Deus sabe que eu não minto.

Obrigada Senhor por me ajudar
Muito mais do que eu mereço,
Ajudai assim toda a gente
É isso que eu Vos peço.

É maravilhoso Senhor ter-mos tão pouco
Para pedir, e tanto tanto para agradecer.

Dina Magalhães

EUROMILHÕES



EUROMILHÕES

Ó sorte, que andas à sorte
tão longe de mim na vida,
não vislumbras o meu norte,
sinto-te para mim perdida.

Por mais que busque, te chame,
não respondes, emudeces;
faço um auto-exame,
vejo que me não conheces.

Não sei evidenciar-me,
despertar tua atenção,
como poderás achar-me
se rodas em contramão?

Ai sorte, se tu quisesses
tocar-me com o teu poder,
com o bem que me fizesses
ia a outros socorrer.

Maria de Lourdes Martins
in “Rubras eram as Pedras”
Lido por Ana Maria Oliveira

POEMA DA MATERNIDADE



POEMA DA MATERNIDADE

Pode lá ser! Não quero, não consinto!
Tudo em mim se revolta: a carne, o instinto,
A minha mocidade, o meu amor,
A minha vida em flor!

É mentira! É mentira!
Se o meu filho respira,
Se o meu corpo consente,
Covardemente,
A minh'alma não quer!
Eu não quero ser mãe!  Basta-me ser mulher! 
Basta-me ser feliz!
E o meu instinto diz:
— "Acabou-se!  Acabou-se!  Agora renuncia:
Começa a tua noite: acabou-se o teu dia! 
Tens vinte anos?  Embora!  A tua mocidade
Perdeu chama e calor, perdeu a própria idade. 
Resigna-te. És mulher!  Foi Deus que assim o quis.
Já foste flor: agora é só raiz." —
Não pode ser! É injusta a minha sorte!
Não quero dar vida a quem me traz a morte!
O meu destino há de ter outro brilho!
Vida, quero viver!  E morro, morro...

Filho!
Pode lá ser, Jesus!  Eu não mereço tanto!
Filho da minha dor, eu já não choro — canto!
Filho que Deus me deu!  Por quê, Senhor,
Há só uma palavra: Amor, Amor, Amor?!
"Dai-me outra voz que nunca tenha dito
Coisas más, coisas vis... e que saiba a infinito...
Dai-me outro coração, mais puro, mais profundo,

Que o meu já se quebrou de encontro ao mundo...
Dai-me outro olhar que nunca tenha olhado,
Que não tenha presente nem passado...
Dai-me outras mãos, que as minhas já tocaram
A vida e a morte... o bem e o mal... e já pecaram...

Filho, por que seria?  Ao vires para mim
Mudaste num jardim
Os espinhos da minha carne triste...
E como conseguiste
Dar uma cor de sol às horas mais sombrias?

Meu menino, dorme, dorme,
E deixa-me cantar
Para afastar
A vida, um papão enorme...
Meu menino, dorme, dorme...

Vamos agora brincar...
Que brinquedo, meu menino? 
O mar, o céu, esta rua?
Já te dei o meu destino,
Posso bem dar-te a Lua.

Toma um navio, um cavalo,
Toma agora o mar sem fundo...
Ainda achas pouco? Deixá-lo!
Se quiseres dou-te o mundo! 
Mas por que não vens brincar? 
Por que preferes chorar?
Jesus! Que tem o meu filho? 
Que vida estranha no brilho
Do seu olhar?

Uma vida inquieta e obscura
Anda a queimar-lhe a frescura ...


Ainda hoje, meu filho, não sorriste
E o teu olhar é triste...
Cheiras a noite, a luto, a azebre...

Senhor!  O meu filho tem febre!
O seu hálito queima, o seu olhar escalda...
Ele que tinha um olhar de estrela ou de esmeralda
E um perfume de flor,
Agora tem na boca um amargo sabor
E cheira a noite, a luto, a azebre...

Senhor!  O meu filho tem febre!
Tirai-me dos olhos toda a luz!
Livrai-me da blasfêmia... Deus!  Jesus!
Pois se o meu filho morre, se agoniza,
Por que há flores no chão que ele não pisa?
Se num coval o hei de pôr, de rastros,
Por que estarão tão altos os astros?
Senhor, eu sou culpada… Eu sei o que é o pecado
Mas ele, meu Jesus, ainda não tem passado...
Para mim, não há mal que não aceite,
Mas ele, ainda tão perto do teu céu!
A sua vida era beber-me leite...
No olhar com que me olhava tinha um véu
De neblinas, de névoas de outras vidas...
As vezes, tinha as pálpebras descidas
E punha-se a chorar no meu regaço
Com saudades, talvez, do céu, do espaço...
O meu filho tem febre!
Por que andam a cantar pelos caminhos?
Por que há berços e ninhos?
Vida! O meu filho era belo,
O meu filho era forte!
Vida, que mãe és tu? Defende-me da morte!
Vida! Vida! Vida!

Louvado seja Deus! A morte foi-se embora!
Já não tens febre agora!
Louvado seja Deus! O meu menino vive,
Este menino, o meu, que só eu tive!
E pude blasfemar!
E o meu menino chora, e eu posso já cantar!
E o meu menino canta e eu posso já chorar!
O meu menino vive e toda a vida canta,
Toda a terra é uma fresca e sonora garganta!
Que toda a gente o saiba e toda a terra o veja!
Louvado seja Deus!
Louvado seja!


Fernanda de Castro
Por Fernanda Cardoso

ETERNIDADE



ETERNIDADE

Vejo, num sonho sem fim,
— Sonho de amor e saudade —
Já suspenso sobre mim
O esplendor da eternidade.

Vejo a luz radiosa, etérea,
A luz divina pairando
Por sobre um ser miserando
Que é toda a humana miséria.

E, no sonho que ora vivo,
Passam astros a brilhar;
E, num sorriso furtivo,
Vejo a luz do teu olhar.

Oh meu Amor!, oh Saudade!
Sou luz esparsa nos céus...
— E, sobre a tua humildade,
Descem as bênçãos de Deus... —

Aqui, nos altos espaços,
Não há lembranças, nem dores,
Nem deceções ou cansaços...
— Há só sorrisos e flores!

Mas, ai de mim, não te esqueço!
E, quando surge o luar,
Fecho os olhos, adormeço,
Para contigo sonhar…

in “O livro de Guilherme de Faria I
Saudade Minha
(poesias escolhidas)
Lido por Lena Lopes

HOMEM, CRIANÇA



HOMEM, CRIANÇA

Foi triste seu nascimento
Mas a força de viver
Diferente no pensamento
Que ninguém pode esquecer

Já um homem na idade
Criança no seu pensar
Alegria na verdade
Está sempre a demonstrar

Suas palavras são poucas
É esta sua forma de falar
Suas gargalhadas roucas
Mas muito amor para dar

É diferente, sem diferenças
Adulto sempre criança
A sua Mãe, suas crenças
Numa vida feita de esperança…

Celso Miranda
Lido por Carlos Gomes
19/10/18

NÃO POSSO ADIAR O AMOR



NÃO POSSO ADIAR O AMOR

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa
in "Viagem Através de uma Nebulosa”
lido por Beatriz Maia

QUERIA SER FELIZ



“QUERIA SER FELIZ”

Talvez eu fosse feliz
Com teu amor.
Talvez eu sorrisse para ti
Se teu olhar fosse sincero.
Talvez eu te amasse
Se me desses alguma certeza.
Talvez eu quisesse ir contigo
Se me desses a tua mão.
Talvez a alegria se espelhasse
Em meu rosto
Se, por uma vez na vida,
Me dissesses “Vem, vem comigo”.
Talvez eu tivesse tudo isso
Se me dissesses uma palavra
E ela seria “amo-te”.
Nesse dia acabar-se-iam os talvez,
Acabar-se-iam as incertezas
Porque a minha mão estaria na tua,
O teu olhar no meu,
O meu sorrir voltaria
E a alegria voltaria ao meu rosto,
Teria mais brilho que um espelho
Onde a luz do sol incide.
Tudo isso porque tu estavas ali,
Eras meu de corpo inteiro
E, nesse todo, estava aquele amor
Que eu sempre esperei ter
Em tantas noites que sonhei
Onde sozinha te amei
E esperei aquele “amo-te”
Que chegou naquele dia,
Com aquele raio de sol
Feliz quando amanhecia.

Conceição Freitas
in “Coletânea Galeria Vieira Portuense 2018”
lido por Fernanda Rosas