Assim ou ...nem tanto.
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O Anjo
Fechou os olhos
justamente quando o anjo passou. Por isso não soube dizer
nada. Por que fechou
os olhos? Haveria muitas justificações cabíveis mas
preferiu dizer que os
fechara para dar mais atenção ao lado de dentro. - O pior
da cegueira, disse, é
ver coisas que o cérebro garante não terem sido vistas.
Umas vezes a cabeça
precisa de negar, com todas as suas forcas, a realidade
que a fere, outras é
só o simples ato de rejeitar evidências indesejáveis. –
Fechei os meus olhos
naquele momento por mero acaso porquanto não tenho
razões de queixa de
qualquer anjo nem me repugna que andem por aí a
endireitar o que todos
os homens, de uma ou outra forma, entortam. Se o
tivesse visto te diria
de como era de altura, de roupas e de envergadura de
asas. Assim, tudo o
que posso com honestidade garantir é que senti o ar
lavado, a brisa doce
despentear-me os cabelos, o som de umas quantas
flautas chegar aos
meus ouvidos. Na altura achei que sonhava, pensei que se
abrisse os olhos a
pureza do ar, a brisa e a música desapareceriam, pensei
que, mantendo-me longe
daqui, na noite voluntária, não colidiria com a luz do
que percebi ser uma
entidade celestial e poderia, depois da maravilha, ter
olhos meus aptos,
vulgares, capazes de ver tudo o que quero, de perto e de
longe, de muito perto
como quando te olho assim à procura do futuro no fundo
dos teus. Não vi o
anjo, não vi a queda de flores que dizes nem senti que, à
sua passagem, se
abriam os caminhos. Ia jurar ter visto tudo como está agora
e acredito que, na
pressa de se esconder, o anjo se recolheu em ti.
Edgardo
Xavier
Sintra,
Junho de 2017
Lido por Manuela Caldeira
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