terça-feira, 29 de agosto de 2017

Ei-la a cidade envolta em dor e bruma


Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores  Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos  Namorada
e prostituta  Virgem desamparada
e mundana infiel   Corpo solar   desejo
amor   logro   bordel   soluço de suicida

Ei-la capaz de tudo    Ei-la ela mesma
em praças   ruas   becos   boîtes   e monumentos

Ei-la ocupada   inerte   desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia    maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca   quase feliz   quase feliz

Ei-la resplendente de amor   teoria
e prática nocturna   mistério acontecido
doce   habitável   ah sobretudo habitável
vestido acolhedor   café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo

Ei-la a cidade prometida  
esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto 
flor da raiz que somos
meu amor

Daniel Filipe
in “Canto e Lamentação na Cidade Ocupada”

lido por Vitor Cordeiro

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