Ei-la a cidade envolta
em dor e bruma
Ei-la na escuridão
serena resistindo
Hierática Estranha Sem
medida
Maior do que a tortura
ou o assassínio
Ei-la virando-se na
cama
Ei-la em trajes
menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no
entanto pura
Noiva e mãe de três
filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar
desejo
amor logro
bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de
tudo Ei-la ela mesma
em praças ruas
becos boîtes e monumentos
Ei-la ocupada inerte
desventrada
com música de tiros e
chicote
Ei-la
Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e
miraculosamente erecta
branca quase feliz
quase feliz
Ei-la resplendente de
amor teoria
e prática
nocturna mistério acontecido
doce habitável
ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à
noite
a voz distante e amada
ao telefone
Ei-la a que fica e
sobrevive
e reflecte neons nos
lagos do jardim
mesmo quando partimos
e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a
solidão crescendo
Ei-la a cidade
prometida
esperamos por ela
tanto tempo
que tememos olhar o
seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor
Daniel
Filipe
in
“Canto e Lamentação na Cidade Ocupada”
lido
por Vitor Cordeiro
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