À BELEZA
Não tens corpo, nem
pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos
tiranos.
Não tens preço na terra
dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão,
anda faminto.
És a graça da vida em
toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se
persuade.
És um verso perfeito
Que traz consigo a força
do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre,
o aprendiz.
És a beleza, enfim. És o
teu nome.
Um milagre, uma luz, uma
harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria
e sem família,
Tudo repousa em paz no
teu regaço.
Miguel Torga, in 'Odes'
Lido por Francisco
Ferreira
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