MÃEZINHA
A
terra de meu pai era pequena
e
os transportes difíceis.
Não
havia comboios, nem automóveis,
nem
aviões, nem mísseis.
Corria
branda a noite e a vida era serena.
Segundo
informação, concreta e exacta,
dos
boletins oficiais,
viviam
lá na terra, a essa data,
3023
mulheres, das quais
43
por cento eram de tenra idade,
chamando
tenra idade
à
que vai desde o berço até à puberdade.
28
por cento das restantes
eram
senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas,
viúvas, que nunca mais (Oh nunca mais!)
tinham
sequer sorrido
desde
o dia da morte do extremoso marido;
outras,
senhoras casadas, mães de filhos...
(De
resto, as senhoras casadas,
pelas
suas próprias condições,
não
têm que ser consideradas
nestas
considerações.)
Das
outras, 10 por cento,
eram
meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas
que, por temperamento,
ou
por outras razões mais ou menos secretas,
não
se inclinavam para o casamento.
Além
destas meninas
havia,
salvo erro, 32,
que
à meiga luz das horas vespertinas
se
punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando,
de revés, quem passava nas ruas.
Dessas
havia 9 que moravam
em
prédios baixos como então havia,
um
aqui, outro além, mas que todos ficavam
no
troço habitual que meu pai percorria,
tranquilamente,
no maior sossego,
às
horas em que entrava e saía do emprego.
Dessas
9 excelentes raparigas
Uma
fugiu com o criado da lavoura;
5
morreram novas, de bexigas;
outra,
que veio a ser grande senhora,
teve
as suas fraquezas mas casou-se
e
foi condessa por real mercê;
outra
suicidou-se
não
se sabe porquê.
A
que sobeja
Chamava-se
Rosinha.
Foi
essa a que meu pai levou à igreja.
Foi
a minha mãezinha.
António
Gedeão
in
“Antologia Poética”
Declamado por Fernanda Cardoso
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