quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O PESCADOR DA LENDA


O PESCADOR DA LENDA

Agarrado ao leme
vai o pescador da lenda,
no coração forte as quimeras da noite
na alma triste a incerteza do rumo.

Gerações após gerações
viram-no passar firme
no tombadilho da nau.

Hoje, os reflexos do rio
são pingos de sangue nos grilhões do seu povo.
Furou-se a felicidade nas malhas da rede,
os panos velhos da velha lorcha
são fantasmas do infinito.

Quantos destinos vão presos
no rumo da quilha, no fluxo da maré.

Nas mãos calosas
traz o pescador da lenda
filigranas de estrelas.
No coração forte o sol da esperança
a raiar no tombadilho da nau,
a fundir na madrugada do rio
os grilhões do seu povo
os pingos de tragédia.

José Silveira Machado
in “Rio de Pérolas”

lido por Alice Santos

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