DESDE
O CHÃO
A
pele porosa do silêncio
agora
que a noite sangra nos pulsos
traz-me
o teu rumor de chuva branca.
O
verão anda por aí, o cheiro
violento
da beladona cega a terra.
Cega
também, a boca procura
trabalhos
de amor. Encontra apenas
o
nó de sombra das palavras.
Palavras...
Onde um só grito
bastaria,
há a gordura
das
palavras. Palavras —
quando
apetecem claridades súbitas,
o
sumo estreme, a ponta extrema
do
teu corpo, arco, flecha,
corola
de água aberta
ao fogo
a prumo do meu corpo.
Do
chão ao cume das colinas,
eis
as areias. Cala-te.
Deita-te.
Debaixo dos meus flancos.
A
terra toda em cima. Agora arde. Agora.
Eugénio de Andrade
lido por Manuela Caldeira
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