ORAÇÕES
Há tanto tempo,
Que perdi o jeito de rezar
As orações tradicionais,
Aprendidas com minha mãe,
Ou decoradas, do catecismo,
Com a mesma doutrina,
Todos os dias, a horas certas,
À mesa, depois da ceia,
Ou à roda da lareira,
Como quem dá um recado,
De que bem pouco se entende,
Monocórdico e apressado,
O corpo lasso, em abandono,
De trabalho ou de lazer,
E os olhos, como «pirilampos»,
A cair de sono!
Há tanto tempo,
Que senti necessidade,
E aprendi de novo a rezar,
A qualquer hora,
Em todos os lugares,
Com palavras vivas, palpitantes,
Sentidas e inventadas,
Em cada instante,
Arrancadas da alma
E do coração,
Em risos, e músicas, e poemas, e
canções,
E gritos, e apelos lancinantes,
E lágrimas, e pragas
- Dizendo segredos,
Dando recados,
Pedindo conselhos:
A falar comigo próprio,
Com Deus
… e com a minha mãe!
Moreira
da Silva (Sandim)
in
“Claro-Escuro”, 1985
lido
por Eduardo Roseira
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