terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

RECORDAÇÕES



RECORDAÇÕES

Era puto como tantos,
Na rua soltos à toa,
Sem que a fome visse a broa,
Perdidos nos seus encantos.

Conhecer todos os campos,
De fruta verde mas boa:
E se o grito e o alerta soa,
Correm todos como bandos.

Tudo era devorado,
Fruta, cebolas, cenouras
E o grépio do caminho.

Quase sempre escorraçado,
Todo o filho de mãe moura,
Que não era rapazinho.

Colégio, ama, infantário,
Eram coisa para meninos:
Putos da rua sozinhos,
Cresciam noutro fadário.

De quantas aventuras fiz parte,
Nessa infância ignorada.
Por nunca ser ajudada,
Sobreviver era uma arte.

Inventavam-se guerreiros,
E outra tanta fantasia:
Cowboys, índios, valentia!

Cavalos e cavaleiros,
E o jogo da casquinha,
Com mão certa e pontaria.

E o jogo da sameira,
Com os putos num magote;
E havia sempre um pexote
Que fazia batoteira.

Era o jogo do peão,
Do crivo e da pedrinha
E outro, da caçadinha,
Bate fica e ao ladrão.

E a volta a Portugal,
Com laranjinhas e bugalhos,
Com pontes, túneis e atalhos.

E outras tantas diversões,
Inventavam putos bons,
Vida feita de frangalhos.

E foi o rio Leça banheira,
Dos putos da minha idade;
Mergulho da mocidade,
No perigo da brincadeira.

O jogo da bola em água,
No rio que sem parar,
Foi um dia lá ficar,
Um de nós que deixou mágoa.

A perda de um companheiro,
Não se esquece em qualquer tempo,
Que a dor mancha o sofrimento!

Era assim numa outra era,
Impávidos putos de outrora:
Com saudade e com lamento;

Arredores dos grandes centros,
Dormitórios do trabalho
Isentos de agasalho
Social, contra os ventos.

Não eram as voltas do tempo,
Nem o uivar das noites frias
Que roubavam alegrias:
Mas fome, dor e sofrimento.

Quantos filhos do país,
Botões da mesma raiz;
Vegetaram na existência?

Quantas almas de petiz,
De irreal vida infeliz;
Foram vítimas da inocência?

Este tempo já roubou.
A esse tempo a lembrança,
De meu tempo de criança.
Por onde a fome passou.

Nessa era já não estou,
Recordo-a por segurança.
Seja sempre só lembrança
Jamais digam que voltou.

E da luta sem sarilhos,
Do esforço p'ra viver,
A culpa vive sem merecer.

Pois a vida não tem culpa,
Agredida, mal tratada,
Nesse tempo esfarrapada.

José Faria

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