AOS
POETAS
Somos nós
As
humanas cigarras.
Nós,
Desde o
tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
Preguiçosos
insectos perseguidos.
Somos nós
os ridículos comparsas
Da fábula
burguesa da formiga.
Nós, a
tribo faminta de ciganos
Que se
abriga
Ao luar.
Nós, que
nunca passamos,
A
passar...
Somos
nós, e só nós podemos ter
Asas
sonoras.
Asas que
em certas horas
Palpitam.
Asas que
morrem, mas que ressuscitam
Da
sepultura!
E que da
planura
Da seara
Erguem a
um campo de maior altura
A mão que
só altura semeara.
Por isso
a vós, Poetas, eu levanto
A taça
fraternal deste meu canto,
E bebo em
vossa honra o doce vinho
Da
amizade e da paz!
Vinho que
não é meu,
Mas sim
do mosto que a beleza traz!
E vos
digo e conjuro que canteis!
Que
sejais menestréis
Duma
gesta de amor universal!
Duma
epopeia que não tenha reis,
Mas homens
de tamanho natural!
Homens de
toda a terra sem fronteiras!
De todos
os feitios e maneiras,
Da cor
que o sol lhes deu à flor da pele!
Crias de
Adão e Eva verdadeiras!
Homens da
torre de Babel!
Homens do
dia-a-dia
Que
levantem paredes de ilusão!
Homens de
pés no chão,
Que se
calcem de sonho e de poesia
Pela
graça infantil da vossa mão!
Miguel
Torga
lido
por António D. Lima
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