UM RIO TE ESPERA
Estás só, e é de
noite,
na cidade aberta ao
vento leste.
Há muita coisa que não
sabes
e é já tarde para perguntares.
Mas tu já tens
palavras que te bastem,
as últimas,
pálidas, pesadas, ó
abandonado.
Estás só
e ao teu encontro vem
a grande ponte sobre o
rio.
Olhas a água, onde
passaram barcos,
escura, densa,
rumorosa
de lírios ou pássaros
nocturnos.
Por um momento
esqueces
a cidade e o seu
comércio de fantasmas,
a multidão atarefada
em construir
pequenos ataúdes para
o desejo,
a cidade onde cães
devoram,
com extrema piedade,
crianças cintilantes
e despidas.
Olhas o rio
como se fora o leito
da tua infância:
lembras-te da
madressilva,
no muro do quintal,
dos medronhos que
colhias
e deitavas fora,
dos amigos a quem
mandavas
palavras inocentes
que regressavam a
sangrar,
lembras-te de tua mãe
que te esperava
com os olhos molhados
de alegria.
Olhas a água, a ponte,
os candeeiros,
e outra vez a água;
a água;
água ou bosque;
sombra pura
nos grandes dias de
verão.
Estás só.
Desolado e só.
E é de noite.
Eugénio
de Andrade
in
“Ao Porto - Colectanea de poesia sobre o Porto”
lido por Isabel Moura
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