quarta-feira, 27 de setembro de 2017

QUANDO EU MORRER


QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis que alagámos de
beijos
quando eram outras horas nos relógios do mundo
e não havia ainda quem soubesse de nós;
e leva-o depois para junto do mar,
onde possa ser apenas mais um poema
-  como esses que  eu  escrevia  assim  que a  madrugada  se
encostava aos vidros
e eu tinha medo de me deitar só com a tua sombra.
Deixa que nos meus braços pousem então as aves
(que, como eu, trazem entre as penas as saudades de um verão
carregado de paixões).
E planta à minha volta uma fiada de rosas brancas
que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas,
e a cegueira sempre me assustou
(e eu já ceguei de amor,
mas não contes a ninguém que foi por ti).

Quando eu morrer, deixa-me a ver o mar do alto de um rochedo
e não chores, nem toques com os teus lábios a minha boca fria.
E promete-me que rasgas os meus versos
em pedaços tão pequenos como pequenos foram sempre os meus
ódios;
e que depois os lanças na solidão de um arquipélago
e partes sem olhar para trás nenhuma vez:
se alguém os vir de longe brilhando na poeira,
cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas,
pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

Maria do Rosário Pedreira

Lido por Carlos Revez

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