quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O resto do mundo


O resto do mundo

Eu queria morar num bairro de lata
O meu sonho é morar num bairro de lata
Eu me chamo de excluído como alguém me chamou
Mas pode me chamar do que quiser senhor doutor
Eu não tenho nome
Eu não tenho identidade
Eu não tenho nem certeza se sou gente de verdade
Eu não tenho nada
Mas gostaria de ter
Aproveita senhor doutor e dê-me uns trocados pra eu comer…
Eu gostaria de ter um pingo de orgulho
Mas isso é impossível pra quem come o entulho
Misturado com os ratos e com as baratas
E com o papel higiénico usado
Nas latas de lixo
Eu vivo como um bicho ou pior que isso

Eu sou o resto
O resto do mundo
Eu sou mendigo um indigente um indigesto um vagabundo
Eu sou… Eu não sou ninguém

Eu tou com fome
Tenho que me alimentar
Eu posso não ter nome, mas o estômago tá lá
Por isso eu tenho que ser cara-de-pau
Ou eu peço dinheiro ou fico aqui passando mal
Tenho que me rebaixar a esse ponto porque a necessidade é maior do que a moral
Eu sou sujo eu sou feio eu sou anti-social
Eu não posso aparecer na foto do cartão postal
Porque pro rico e pro turista eu sou poluição
Sei que sou um ser humano
Mas eu não sou cidadão
Eu não tenho dignidade ou um teto pra morar
A minha casa-de-banho é a rua
E sem papel pra me limpar
Honra?
Não tenho
Eu j á nasci sem ela

A minha vida é um pesadelo e eu não consigo acordar
E eu não tenho perspectivas de sair do lugar
A minha sina é suportar viver abaixo do chão
E ser um resto solitário esquecido na multidão

Frustração
É o resumo do meu ser
Eu sou filho da miséria e o meu castigo é viver
Eu vejo gente nascendo com a vida ganha e eu não tenho uma chance
Deus, me diga por quê?
Eu sei que muita gente é pobre
Vias eu não chego a ser pobre... eu sou podre!
Um fracassado
Mas não fui eu que fracassei
Porque eu não pude tentar
Então que culpa eu terei
Quando eu me revoltar quebrar queimar matar
Não tenho nada a perder
Meu dia vai chegar
Será que vai chegar?

Eu não sou registrado
Eu não sou batizado
Eu não sou civilizado
Eu não sou filho do Senhor
Eu não sou computado
Eu não sou consultado
Eu não sou vacinado
Contribuinte eu não sou
Eu não sou comemorado

Eu não sou considerado
Eu não sou empregado
Eu não sou consumidor
Eu não sou amado
Eu não sou respeitado
Eu não sou perdoado
Mas também sou pecador
Eu não sou representado por ninguém
Eu não sou apresentado pra ninguém
Eu não sou convidado de ninguém
E eu não posso ser visitado por ninguém
Além da minha triste sobrevivência eu tento entender a razão da minha
existência
Por que eu nasci?
Por que estou aqui?
Um penetra no inferno sem lugar pra tugir
Vivo na solidão mas não tenho privacidade
E não conheço a sensação de ter um lar de verdade
Eu sei que eu não tenho ninguém pra dividir o barraco comigo
Mas eu queria morar numa bairro de lata, amigo
Eu queria morar num bairro de lata
O meu sonho é morar num bairro de lata

Gabriel Contino (Brasil)
Lido por Maria Adelina Gomes

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