O
resto do mundo
Eu
queria morar num bairro de lata
O
meu sonho é morar num bairro de lata
Eu
me chamo de excluído como alguém me chamou
Mas
pode me chamar do que quiser senhor doutor
Eu
não tenho nome
Eu
não tenho identidade
Eu
não tenho nem certeza se sou gente de verdade
Eu
não tenho nada
Mas
gostaria de ter
Aproveita
senhor doutor e dê-me uns trocados pra eu comer…
Eu
gostaria de ter um pingo de orgulho
Mas
isso é impossível pra quem come o entulho
Misturado
com os ratos e com as baratas
E
com o papel higiénico usado
Nas
latas de lixo
Eu
vivo como um bicho ou pior que isso
Eu
sou o resto
O
resto do mundo
Eu
sou mendigo um indigente um indigesto um vagabundo
Eu
sou… Eu não sou ninguém
Eu
tou com fome
Tenho
que me alimentar
Eu
posso não ter nome, mas o estômago tá lá
Por
isso eu tenho que ser cara-de-pau
Ou
eu peço dinheiro ou fico aqui passando mal
Tenho
que me rebaixar a esse ponto porque a necessidade é maior do que a moral
Eu
sou sujo eu sou feio eu sou anti-social
Eu
não posso aparecer na foto do cartão postal
Porque
pro rico e pro turista eu sou poluição
Sei
que sou um ser humano
Mas
eu não sou cidadão
Eu
não tenho dignidade ou um teto pra morar
A
minha casa-de-banho é a rua
E
sem papel pra me limpar
Honra?
Não
tenho
Eu
j á nasci sem ela
A
minha vida é um pesadelo e eu não consigo acordar
E
eu não tenho perspectivas de sair do lugar
A
minha sina é suportar viver abaixo do chão
E
ser um resto solitário esquecido na multidão
Frustração
É
o resumo do meu ser
Eu
sou filho da miséria e o meu castigo é viver
Eu
vejo gente nascendo com a vida ganha e eu não tenho uma chance
Deus,
me diga por quê?
Eu
sei que muita gente é pobre
Vias
eu não chego a ser pobre... eu sou podre!
Um
fracassado
Mas
não fui eu que fracassei
Porque
eu não pude tentar
Então
que culpa eu terei
Quando
eu me revoltar quebrar queimar matar
Não
tenho nada a perder
Meu
dia vai chegar
Será
que vai chegar?
Eu
não sou registrado
Eu
não sou batizado
Eu
não sou civilizado
Eu
não sou filho do Senhor
Eu
não sou computado
Eu
não sou consultado
Eu
não sou vacinado
Contribuinte
eu não sou
Eu
não sou comemorado
Eu
não sou considerado
Eu
não sou empregado
Eu
não sou consumidor
Eu
não sou amado
Eu
não sou respeitado
Eu
não sou perdoado
Mas
também sou pecador
Eu
não sou representado por ninguém
Eu
não sou apresentado pra ninguém
Eu
não sou convidado de ninguém
E
eu não posso ser visitado por ninguém
Além
da minha triste sobrevivência eu tento entender a razão da minha
existência
Por
que eu nasci?
Por
que estou aqui?
Um
penetra no inferno sem lugar pra tugir
Vivo
na solidão mas não tenho privacidade
E
não conheço a sensação de ter um lar de verdade
Eu
sei que eu não tenho ninguém pra dividir o barraco comigo
Mas
eu queria morar numa bairro de lata, amigo
Eu
queria morar num bairro de lata
O
meu sonho é morar num bairro de lata
Gabriel
Contino (Brasil)
Lido por Maria Adelina Gomes
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