quarta-feira, 21 de outubro de 2015

SOU?


SOU?

Sou irascível e teimoso, sou o contrário de vós, bem comportados e
politicamente correctos.
Sou opositor! Em tudo o que "não me cheire". Sou infeliz por ouvir
tanta baboseira. Sou desgraçado por não ser da maioria, que falam
de asneiras, que vivem das asneiras e adoecem de asneiras.
(dantes rebentava à gargalhada e já não feria tanto) agora reajo de
imediato e sou malcriado...
Sou pobre! E não há coisa que ofenda mais os ricos que um pobre
que sabe de tudo um pouco...
Sou adversário de toda a desculpa, inimigo da condescendência, do
desleixo, da desistência, da estupidez.
Sou o contrário da compaixão, sou ateu, sou orgulhoso, sou capaz
de mentir em favor da verdade e da justiça.
Sou culpado de todos os males por que passei, de todos menos de
um, que não digo qual.
Sou dono de mim, das minhas palavras, das minhas artes.
Sou inimigo do dinheiro e por isso o dinheiro detesta-me.
Ataco o poder e ele não me perdoa.
Ataco o negócio e a falcatrua e estes dois odeiam-me.
Sou contra o bonitinho, o acabadinho, e o contrário do ultrapassado.

Sou actual. Sou moderno. Sou dono da minha vida.
Sou pela felicidade de todos os seres. Gosto dos pequeninos, de
um grão de areia, até de insectos, de tudo o que mexe.
Gosto dos deserdados da sorte, dos recém nascidos.
Não suporto a vaidade, detesto o novo rico pela sua inculta
prosápia.. Sou revolucionário por vocação. Sou inventor dos meus
pensamentos.  Sou pela Revolução de todos os dias, mesmo
feriados. De manhã, à tarde e à noite.
Vomito a revolução contra os burgueses. Sujo-os!
Sou inconforme e inconformista.

Gosto de ser como sou. Sou aquele que não se cala, que nunca se
calará, porque é assim. Sou o cão raivoso que è capaz de uma
lágrima, diante da criança abandonada. Sou filho das plantas, das
árvores da Cordoaria. Porque elas olhavam para a Cadeia com um
olhar de ternura. Sou pai e mãe do vento, daquele que sopra
devagarinho nas saias rodadas das donzelas...

Sou amigo do General Humberto Delgado e ele sabe disso...
Sou companheiro do General Otelo e hei-de dizer-lho um dia.
Sou invencível para os Comerciantes por atacado.
No dia em que fui preso pela Pide era um rouxinol, quando saí de lá
era um falcão!

Estou entregue à minha fatalidade de escrever.
Sou por fora um velho e por dentro um anjo, fui outrora e por fora
um bruto e por dentro um asno.
Não consigo viver bem no isolamento que construi mas também
não posso voltar ao passado onde nasceram os meus males.
Às vezes o passado surge-me para me julgar e outras vezes até o
incentivo...
Gostaria de ser transparente como na juventude.


Fernando Morais

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