SOU?
Sou irascível e teimoso,
sou o contrário de vós, bem comportados e
politicamente correctos.
Sou opositor! Em tudo o
que "não me cheire". Sou infeliz por ouvir
tanta baboseira. Sou
desgraçado por não ser da maioria, que falam
de asneiras, que vivem
das asneiras e adoecem de asneiras.
(dantes rebentava à gargalhada
e já não feria tanto) agora reajo de
imediato e sou
malcriado...
Sou pobre! E não há coisa
que ofenda mais os ricos que um pobre
que sabe de tudo um pouco...
Sou adversário de toda a
desculpa, inimigo da condescendência, do
desleixo, da desistência,
da estupidez.
Sou o contrário da
compaixão, sou ateu, sou orgulhoso, sou capaz
de mentir em favor da
verdade e da justiça.
Sou culpado de todos os
males por que passei, de todos menos de
um, que não digo qual.
Sou dono de mim, das
minhas palavras, das minhas artes.
Sou inimigo do dinheiro e
por isso o dinheiro detesta-me.
Ataco o poder e ele não
me perdoa.
Ataco o negócio e a
falcatrua e estes dois odeiam-me.
Sou contra o bonitinho, o
acabadinho, e o contrário do ultrapassado.
Sou actual. Sou moderno.
Sou dono da minha vida.
Sou pela felicidade de
todos os seres. Gosto dos pequeninos, de
um grão de areia, até de
insectos, de tudo o que mexe.
Gosto dos deserdados da
sorte, dos recém nascidos.
Não suporto a vaidade,
detesto o novo rico pela sua inculta
prosápia.. Sou
revolucionário por vocação. Sou inventor dos meus
pensamentos. Sou pela Revolução de todos os dias, mesmo
feriados. De manhã, à
tarde e à noite.
Vomito a revolução contra
os burgueses. Sujo-os!
Sou inconforme e
inconformista.
Gosto de ser como sou.
Sou aquele que não se cala, que nunca se
calará, porque é assim.
Sou o cão raivoso que è capaz de uma
lágrima, diante da
criança abandonada. Sou filho das plantas, das
árvores da Cordoaria.
Porque elas olhavam para a Cadeia com um
olhar de ternura. Sou pai
e mãe do vento, daquele que sopra
devagarinho nas saias
rodadas das donzelas...
Sou amigo do General
Humberto Delgado e ele sabe disso...
Sou companheiro do
General Otelo e hei-de dizer-lho um dia.
Sou invencível para os
Comerciantes por atacado.
No dia em que fui preso
pela Pide era um rouxinol, quando saí de lá
era um falcão!
Estou entregue à minha
fatalidade de escrever.
Sou por fora um velho e
por dentro um anjo, fui outrora e por fora
um bruto e por dentro um
asno.
Não consigo viver bem no
isolamento que construi mas também
não posso voltar ao
passado onde nasceram os meus males.
Às vezes o passado
surge-me para me julgar e outras vezes até o
incentivo...
Gostaria de ser
transparente como na juventude.
Fernando Morais

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