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quinta-feira, 24 de março de 2016

PAI, DIZEM-ME QUE AINDA TE CHAMO

 

PAI, DIZEM-ME QUE AINDA TE CHAMO

Pai, dizem-me que ainda te chamo, as vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão onde não chegam as guinadas da
morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda par a dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.

Maria do Rosário Pedreira,
in “Em nome do Pai”
Pequena Antologia do Pai na Poesia Portuguesa

Lido por Miguel Leitão

terça-feira, 22 de março de 2016

POESIA NA GALERIA 19 de Março de 2016

 Miguel Leitão
 Miguel Leitão
 Fátima Cardoso
 Fátima Cardoso
 Fernando Morais
 Fernando Morais


 Artur Cardoso a declamar ao lado de Paraty
 Artur Cardoso
 Irene Silva
 Irene Silva
 Manuel Maia
 Manuel Maia
 Maria Teresa Nicho
 Maria Teresa Nicho
 Alice Branco

 Alice Branco
 José Efe
 José Efe
 Manuel Caldeira
 Manuela Caldeira
 Luís Pedro Viana
 Luís Pedro Viana
 Luís Pedro Viana

 Kim Berlusa 
 Alice Branco
 Manuel Maia

 Irene Silva, a nossa sorteada da Sessão
 Luís Pedro Viana, Amílcar Mendes e Irene Silva



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

DECLARAÇÃO DE AMOR


DECLARAÇÃO DE AMOR

Escorre dos teus olhos
o desejo de uma declaração de amor, a
necessidade daquelas palavras
que outrora legitimavam a aventura da sedução,
o jogo da solicitação e da entrega.

Mas o amor todo ele é espuma, bem sabes,
delicado,
ténue e frágil como uma teia, como um lírio
ou como tule
e não pode ser surpreendido nem
perturbado por nada,
mesmo que seja uma pena,
um sopro ou
um leve ciciar de palavras.

Deixa em tranquilidade o amor,
assim suave,
assim doce
Deixa-o como está...
assim...
assim...
assim mesmo.

Em todo este tempo,
era suposto que tivesses aprendido a vislumbrar o
amor,
a pressenti-lo sem que tivesse de to dizer,
a farejá-lo na transparência da lagoa que sou e
te acolhe
e em cuja água enxaguas o corpo,
refrescas os olhos e as mãos,
aliviando-te do ardor.

É certo que há saudades dos tempos de namoro,
quando nós éramos outros...
mas uma declaração de amor, hoje,
não,
Seria um tropel de palavras a alvoroçar-te,
a desinstalar-te da tua certeza,
a desinquietar-te na tua serenidade,

Declaração de amor, para quê?
Como se a tua ou a minha aproximação já
não empolgassem o outro,
e a entrega não nos tornasse o corpo mais leve
e mais ágil
e não nos enchesse a alma de jardins,
secretos,
mais coloridos e brilhantes que todos os arco-íris.

Miguel Leitão

14 de Fevereiro de 2016

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

POESIA NA GALERIA

Miguel Leitão
 Etelvina Martins de Sá
 Orlando de Sá Oliveira
 José Ribeiro da Costa
 Dina Magalhães
 Paraty
 João Pessanha
 Alzira Santos
 Irene Silva
 Fernando Morais
 Lucinda Miranda

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

ESPERAS INÚTEIS


ESPERAS INÚTEIS

Tanto tempo te esperei
sem dar pelo correr das horas
e da vida
à margem de mim
— estéreis compassos de espera
sem haver fruto a valer!

Tu não vinhas
e, se vinhas,
não vinhas de modo inteiriço,
tendo deixado, algures,
caída,
uma boa parcela,
a melhor parcela de ti.
E, quando vinhas,
Eu não te podia esgotar
no teu ser incompleto,
no teu ser oco por dentro
—  eras só casca de fora,
que o miolo lá ficara
por paragens bem estranhas,
mas em que tu bem te querias, e
a olhos vistos medravas!

Consagrei-te tempo a mais
em esperas sucessivas,
prolongadas,
dolorosas…
mas inúteis!

Agora, bem podes vir.
Podes vir quando quiseres
que não mais darás por mim
nem sentirás nos ouvidos
o eco frio de meus passos
— passos perdidos,
a dobrarem as esquinas
e a arrastarem-se no chão
de gares calcorreadas
em tantas esperas
em vão.

Vi o tempo a ir-se embora,
as horas a irem voando
como pássaros friorentos
a emigrar,
em cata de outra morada.
Desandei...
E fui com eles,
ansiando prirnaveras
que, tardias,
ainda darão cor ao viver!

"Quem espera desespera", bem eu sei,
mas não foi o desespero
que te pôs termo e à espera,
fui eu.

Eu
que agora já não te espero...
apenas... porque não quero!

8 de outubro de 2012

Miguel Leitão