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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

CRIANÇAS DA PRAÇA


CRIANÇAS DA PRAÇA

Ramagens de sonhos crescem perpendiculares nos olhos das crianças da praça.
Elas têm as mãos frias, o nariz húmido, a roupa leve no corpo, ante a geada de Novembro.
Mas não esmorecem.
Saltam, cantam, e contam os mosaicos gastos do chão da praça, numa
lengalenga adocicada.
De vez em quando atravessam a praça outras crianças que vão pela mão das
suas mães, agasalhadas com casacos de fazenda e gorros de lã.
Estas crianças olham para as crianças da praça e ficam hipnotizadas pelas
ramagens
dos sonhos que elas têm no olhar, como braços carregados de vida.
Braços-leis de sobrevivência, perante o significado do precário.
Braços-sorrisos frescos, perante a tristeza dos dias pardos.
Quantas delas têm a refeição feita?
Quantas delas desenham futuros em folhas de nada?
Quantas perguntas sem resposta cabem no olhar das crianças da praça?

Alice Caetano
in “Orgânico - cinco poetas a mesma causa”

lido por Maria Helena

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

DESESPERO


DESESPERO

A madrugada
iniciou
e a mãe
de quatro filhos
já se preocupa
com o que
irá colocar
na mesa
pela manhã.

Não fecha os olhos…
Se fosse
só por ela,
até os fechava!
Mas assim...
Pensa, pensa...
E chega a
uma decisão.

Logo pela manhã
irá bater
à porta
das vizinhas
e abrirá
o seu coração.

Contará
que não tem
qualquer alimento
para dar
aos seus anjos
e que toda
a ajuda
será bem-vinda.

Irá dar
o primeiro passo
para se desenlaçar
desta pobreza

Anabela Silvestre
in “Poetas d’hoje - colectânea Um Grito contra a pobreza”

lido por Maria Helena

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Poesia na Galeria 17 de Dezembro

 Maria Helena
 Alzira Santos
 Manuela Caldeira
 Luís Pedro Viana

 Acilda Almeida
 Agostinho Costa

 João Pessanha
 Serigrafia de Ariosto Madureira para o sorteio da sessão

 Kim Berlusa o sorteado da sessão




quarta-feira, 15 de junho de 2016

NAS TUAS MÃOS


NAS TUAS MÃOS

Nas tuas mãos
está
o mundo da vida
e uma vida de morte...
numa verdade,
e na mentira
no pouco que se dá
e num tudo que se tira.

As tuas mãos
Seguram
a construção
e a destruição
a concórdia
e a discórdia
a guerra
e a paz.

Nessas mãos
há a "força"
da água que as lava
do pano, do calor, do vento
de tudo, que as enxuga e seca

Ai,
o veludo dessas tuas mãos
na face duma criança a acariciar
na mão de um mendigo a apertar
e numa flor a pegar.

Ai
o peso que essas mãos sustêm
p'ra um instrumento tocar
p'ra fome de alguém "matar"
e numa caneta
p'ra a guerra acabar…
sem ter que falar
ou mesmo as levantar.

E se a doença
não as fizer
tremelicar
 poderás estendê-las
a quem delas
precisar...

então…
saibas tuas MÃOS USAR!

Carlos Lacerda

Lido por Maria Helena

sábado, 4 de junho de 2016

AOS POETAS


AOS POETAS

Somos nós,
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós, os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão.

Miguel Torga
 in "Odes"

Lido por Maria Helena

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO


O POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO

O medo vai ter tudo
Pernas
Ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos/onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
Tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Alexandre O'Neill
in “Abandono Vidado”

Maria Helena

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Poesia na Galeria 20 de Fevereiro

 Irene Silva

 Agostinho Costa
 Danyel Guerra e Agostinho Costa





 Agostinho Costa
 Irene Silva
 Irene Silva
 Maria Helena
 António Gonçalves
 Alice Queiroz
 Rogério Barbosa
 Ester de Sousa e Sá
Beatriz Maia
Carlos Gomes

quarta-feira, 29 de julho de 2015

ANGOLA


ANGOLA

Estradas esburacadas pelas chuvas,
Picadas de terra vermelha,
Cor de sangue...
Pó, denso como nuvem,
Penetra nos poros.

Caminhos ladeados por gigantescas árvores,
De frondosas copas,
Abrigam-nos do calor tórrido,
Desta África, quente, tropical, bela.

Rios atravessados em jangadas,
Pontes de dois troncos de madeira,
Precariamente colocados,
Num equilíbrio desafiador da física.

Animais que corriam livres
Pelas savanas...
Todo um mistério de cor,
Fauna, flora. Tudo encantava!

Povo de pele negra
Com um permanente sorriso,
Embora difíceis as suas vidas.
Belas mulheres, de seios ao vento.

Terra que um dia me acolheu
Nos seus longos braços,
De fraternidade e paz.

Agora, só me restam as saudades
Da beleza das acácias em flor,
Dos exóticos embondeiros,
Como figuras dantescas.

Esta terra que me conheceu,
Nos percursos da minha vida...

Saudades do Kwanza,
Das cubatas, de colmo e barro.
Recordações perdidas no tempo,
Mas envoltas numa auréola de amor,
Que jamais se perderá.

Luanda, cidade amada,
Que guardas em ti, os meus segredos.
Lobito, Benguela, Huíla, Namibe,
Ah... bela Huambo, de flores coloridas
E tantas mais, que eu um dia
Tive a felicidade de conhecer.

O sol... ah! o sol, único,
De uma beleza ímpar,
Numa simbiose de tons
Vermelhos, amarelos, laranja
Que aqueceu a nossa alma,
Com a sua luz de poesia.

Ilha de Luanda, querida ilha,
Cujas praias de águas cálidas
Nos banharam, por tantos e tantos anos...

Esta é e será sempre a minha Angola.
A dos meus pensamentos,
Das minhas memórias,
Da minha saudade...
Nostalgia e... melancolia.

José Carlos Moutinho
in “Cais da Alma”
Lido por Maria Helena

terça-feira, 28 de julho de 2015

Poesia na Galeria 15 de Julho

Agostinho Costa
Luís Pedro Viana
Aurora Gaia
Maria Helena
Maria Teresa Nicho
Conceição Lages
Lourdes Alegria
Fátima Faria
David Cardoso
Helena Duarte
Maria Augusta da Silva Neves
Paraty