A IDA À LUA
Da janela do meu quarto observava.
Na noite, a Lua brilhava!
Estranho... Olha! Urna escada!
No outro lado da rua
Uma escada prateada
Dependurada na Lua!
Curiosa, escada acima,
Eis que a Lua se aproxima!
Ao chegar lá, percebi
Que a entrada não era ali
Dei-lhe a volta e, mais à frente,
Por uma porta diferente
Que era dum quarto crescente
Vi que entravam corações...
Corações de muita gente:
Dos lunáticos, dos românticos,
Dos fanáticos, dos fantásticos,
Dos proféticos, dos patéticos,
Dos satíricos, dos fatídicos
Os corações dos artistas,
Dos fadistas... fatalistas...
Entrei na Lua também
Ao lado,
Em belíssimas saletas
Tinham lugar reservado
Os corações dos poetas
E, nos quartos minguantes
Forrados a róseo papel
Corações recém-casados
Estavam em lua-de-mel.
No ar, gemidos distantes
Das guitarras de estudantes
E uns miados plangentes
De gatos em telhados quentes.
Depois que todos entraram
Já estava a Lua cheia
Os corações se acalmaram,
Mas então veio-me à ideia:
Que ia nascer o dia
Que a Lua desaparecia
E já da Lua eu saía
Pela escada já descia
Pé ante pé, levezinha,
Às voltinhas, sorrateira
Pés no chão...Trás! Sorte minha!
Fui embater direitinha
Na mesa-de-cabeceira!
Maria Augusta
da Silva Neves
in “Turbilhão de Emoções”
lido por
Adelina Gomes