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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

O PASSEIO DE SANTO ANTÓNIO


O PASSEIO DE SANTO ANTÓNIO

Saíra Santo António do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um cândido sermão sobre o pecado.

Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite plácida baixando...

E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo...

O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.

De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia... o coração no peito.

Sem suspeitarem de que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
— Ó Frei António, o que foi aquilo? ...

O santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
— Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada...

Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
— Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
— Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho.

— Tu não estás com cabeça boa…
Um passarinho a cantar assim!...
E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embarcação, mas por fim,

Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta saída redentora:
— Se o Menino Jesus pergunta mais,
… Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!

Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: - Jesus,
São horas…
                        E abalaram pró convento.

Augusto Gil
in LUAR DE JANEIRO

Bi Rodrigues 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Poesia na Galeria Setembro

 Lucinda Miranda
 Luísa Colaço
 Lourdes Alegria
 Beatriz Maia
 Aurora Gaia
 José Carlos Moutinho
 Fernando Morais

 Bi Rodrigues
Céu Guedes
 Alzira Santos
 Adolfo Castelbranco
Leuna

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Pintura de Palavras



Pintura de Palavras

Escolhi uma cor e fui pintando o meu dia…
O azul ao acordar  …
inspirado pelo mar que vislumbrei ao abrir a janela…
O verde do perfume …
com o cheiro das maçãs acabadas de colher…
O preto do aromático café…
 que saboreio lentamente enquanto penso nas tarefas que me esperam…
O amarelo para os primeiros raios de sol…
que me batem no rosto enquanto caminho…
O vermelho do semáforo que teima em manter-me parada…
mesmo quando todos os minutos estão contados…
O castanho  das árvores que me rodeiam quando chego ao destino…
 a porta da escola…
E, de repente uma paleta de cores misturadas
inunda o meu início de dia…
Um arco-íris de pedaços coloridos …
que se vão soltando à minha passagem…
Esse arco íris acompanha-me à medida que palmilho corredores rumo à sala onde vou iniciar a primeira aula da manhã…

Ser Professor é isto…

A paixão das cores transformadas em poesia…
 o partilhar conhecimentos…
 incentivar percursos…
acarinhar vocações.

Ser Professor também é poesia… numa pintura de palavras que nos enriquece os dias.
Bi Rodrigues, 18 outubro 2014

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

POESIA NA GALERIA

Manuela Carneiro
Teresa Gonçalves
Lourdes dos Anjos
Fernando Morais
Emília Costa
Manuel Maia
Irene Silva
Irene Costa
Bi Rodrigues
António D. Lima
Angelino Silva
Conceição Lages

quarta-feira, 23 de abril de 2014

EXPLICAÇÃO DO PAÍS DE ABRIL



EXPLICAÇÃO DO PAÍS DE ABRIL

País de Abril é o sítio do poema.
Não fica nos terraços da saudade
não fica nas longas terras. Fica exactamente aqui
tão perto que parece longe.

Tem pinheiros e mar tem rios
tem muita gente e muita solidão
dias de festa que são dias tristes às avessas
é rua e sonho é dolorosa intimidade.

Não procurem nos livros que não vem nos livros
País de Abril fica no ventre das manhãs
fica na mágoa de o sabermos tão presente
que nos torna doentes sua ausência.

País de Abril é muito mais que pura geografia
é muito mais que estradas pontes monumentos
viaja-se por dentro e tem caminhos veias
- os carris infinitos dos comboios da vida.

País de Abril é uma saudade de vindima
é terra e sonho e melodia de ser terra e sonho
território de fruta no pomar das veias
onde operários erguem as cidades do poema.

Não procurem na História que não ven na História.
País de Abril fica no sol interior das uvas
fica à distância de um só gesto os ventos dizem
que basta apenas estender a mão.

País de Abril tem gente que não sabe ler
os avisos secretos do poema.
Por isso é que o poema aprende a voz dos ventos
para falar aos homens do País de Abril.

Mais aprende que o mundo é do tamanho
que os homens queiram que o mundo tenha:
o tamanho que os ventos dão aos homens
quando sopram à noite no País de Abril.

Manuel Alegre
Praça da Canção
lido por Bi Rodrigues 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

NASCI P’RA SER IGNORANTE



NASCI P’RA SER IGNORANTE

Nasci para ser ignorante
mas os parentes teimaram
(e dali não arrancaram)
em fazer de mim estudante.

Que remédio? Obedeci.
Há já três lustros que estudo.
Aprender, aprendi tudo,
mas tudo desaprendi.

Perdi o nome às Estrelas,
aos nossos rios e aos de fora.
Confundo fauna com flora.
Atrapalham-me as parcelas.

Mas passo dias inteiros
a ver um rio passar.
Com aves e ondas do Mar
tenho amores verdadeiros.

Rebrilha sempre uma Estrela
por sobre o meu parapeito;
pois não sou eu que me deito
sem ter falado com ela.

Conheço mais de mil flores.
Elas conhecem-me a mim.
Só não sei como em latim
as crismaram os doutores.

No entanto sou promovido,
mal haja lugar aberto,
a mestre: julgam-me esperto,
inteligente e sabido.

O pior é se um director
espreita p'la fechadura:
lá se vai licenciatura
se ouve as lições do doutor.

Lá se vai o ordenado
de tuta-e-meia por mês.
Lá fico eu de uma vez
um Poeta desempregado.

Se me não lograr o fado
porém, com tais directores,
e de rios, aves e flores
somente for vigiado,

enquanto as aulas correrem
não sentirei calafrios,
que flores, aves e rios
ignorante é que me querem.

Sebastião da Gama
Cabo da Boa Esperança, 2.ª Ed. (1959)
lido por Bi Rodrigues

segunda-feira, 14 de abril de 2014

POESIA NA GALERIA - Abril

 Jorge Carvalho
 Jorge Carvalho
João Nunes Carneiro
 João Nunes Carneiro
 Francisco Ferreira
Francisco Ferreira
 António Cardoso
Doroteia Vasconcellos
 Doroteia Vasconcellos
 Helena Duarte

 Maria Teresa Nicho
 Maria Teresa Nicho
Alice Santos 
 Alice Santos
 José Oliveira Ribeiro
 José Oliveira Ribeiro
 António D. Lima
 António D. Lima
 Bi Rodrigues
 Bi Rodrigues
 Kim Berlusa
 Kim Berlusa